Falta polícia e aumentam os crimes nos bairros turísticos, dizem cariocas   

Moradores de Santa Teresa colam cartazes em postes avisando do perigo da localidade   

Na contramão do que propaga o Governo, com a política de pacificação, a população do Rio de Janeiro tem enfrentado nos últimos tempos um aumento significativo de criminalidade, principalmente na Zona Sul e demais bairros turísticos da cidade. Casos de arrastões em restaurantes, assaltos e roubos a pedestres começam a acontecer com frequência em terras cariocas, o que preocupa a população.

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Numa forma de reação inusitada ao aumento da criminalidade, moradores de Santa Teresa estão colando cartazes nas ruas do bairro, para marcar os locais em que já houve assaltos e fornecem um link numa rede social para que imprimam o cartaz. Segundo a Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa (Amast), este é um costume gaúcho, que começa a ser inserido na capital do Rio, inclusive em outras localidades próximas a Santa Teresa. Esta mesma prática já foi utilizada pelos moradores de Nova York, nos EUA, durante os anos 70, 80 e 90, quando a criminalidade dominava a região. 

Em Santa Teresa, apesar da iniciativa da população, os cartazes acabam sendo arrancados. O presidente da Amast, Paulo Saad, acredita que a polícia ou a Comlurb, que faz a limpeza do bairro, estejam retirando os avisos. Ele também supõe que a remoção dos avisos pode estar sendo feita pelos moradores, e os donos de restaurantes, que temem a desvalorização do seu endereço ou dos seus negócios.

“Eu não sei se é morador que está fazendo isso, pode ser. Mas, acho mesmo que é a Comlurb, que já arranca normalmente cartazes dos postes e paredes, e a polícia. Os donos de restaurantes também tiram. Tentam omitir o que está acontecendo. Não concordo com esse comportamento. É uma coisa pública que todo mundo tem que saber”, critica Paulo Saad, se referindo a crimes como o arrastão ocorrido na quinta-feira, 6 de junho, no Bar do Mineiro, no Largo do Guimarães em Santa Teresa, terceiro caso registrado em apenas uma semana. Antes, em 31 de maio, o restaurante Famiglia Pelluzzo's, em Botafogo, sofreu o mesmo crime e, na terça-feira (4) o Frontera, no Jardim Botânico, também foi alvo da ação de criminosos, ambos na Zona Sul.  

“UPPs estão levando o morro para o asfalto”

Mais uma vez a sociedade chama a atenção para a ausência de policiamento nas ruas em razão da ocupação nas favelas. Em uma audiência na Alerj, que apontou o aumento de estupros nas ruas da cidade e do estado, a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR) já tinha ressaltado o fato de que o deslocamento de policiais militares para as UPPs contribuem com o crescimento do crime.

Álvaro Braga, vice-presidente do Conselho Comunitário de Segurança do Centro e de Santa Teresa e secretário da Amast, enxerga o problema no Rio de forma igual. “O ladrão vem atraído pelo visitante. Se não o encontra, vai morador. Estamos vivendo o 'pós-upp' e esse mal-estar é generalizado por toda a Zona Sul, muito movimentada e populosa de turistas. Essa realidade é nova. As pessoas estão sentindo uma insegurança e nós estamos preocupados porque precisamos de reforço”, queixa- se.

Paulo Saad também vê nas UPPs uma perigosa consequência para quem anda pelas ruas. “Na verdade, a política das UPPs está lançando o lixo para o asfalto. Estão levando o morro para o asfalto? Pois bem: os bandidos que ficaram de fora do acordo de drogas estão assaltando os moradores. Os políticos sabiam que isso ia acontecer. A Secretaria de Segurança Pública prometeu duas coisas e não cumpriu: disseram que iam acabar com o tráfico de drogas. E, recentemente Beltrame pediu ‘arrego’ público quanto a isso. E prometeram também que com as UPPs haveria uma pacificação dos bairros que circundam as comunidades. E, ao contrário disso, nunca houve um incremento tão grande da violência”, alerta Saad.

Só no fim de semana passado, além do arrastão no Bar do Mineiro, em Santa Teresa, houve também a cerca de dez turistas que estavam em frente à Adega do Pimenta e ao Espírito Santa, ambos na Rua Almirante Alexandrino, no Largo do Guimarães. “Foi um terror. Eles foram roubados violentamente por um grupo de assaltantes. Estão machucados, levaram socos, houve até deslocamento de braço”, contou o presidente da associação de moradores do bairro.

Falta estrutura e efetivo

A presidente da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (Amab), Regina Chiarade, confirma que percebeu um aumento de crimes no bairro da Zona Sul. “Há pouco teve um restaurante assaltado e um prédio invadido, em função do efetivo que está cada vez mais reduzido, muito aquém das suas necessidades. Não há polícia para atender a demanda dos bairros. Muitos estão se aposentando, ou de licença e não há ninguém para substituir. A rua está mal policiada e os criminosos também sabem disso. E pior: os que se formam vão direto para as favelas”, avalia a carioca.

Regina informou ainda que a 9ª e 10ª DP (Catete e Botafogo) da Polícia Civil estão com poucos policiais e carros. "Participamos mensalmente de uma reunião com o batalhão no Conselho de Segurança do Bairro e nesta última, no dia 18 de maio, os próprios policiais denunciaram que as delegacias estão com efetivo desfalcado, sem viaturas, a maioria com defeito, e sem dinheiro para investir. O conselho de segurança fez um relatório que atestou essas irregularidades e vamos entregá-lo a major Cláudia, que preside todos os conselhos”, explica.

Álvaro Braga conta que tempos atrás a população de Santa Teresa fez um abaixo assinado de 1500 assinaturas em apoio à campanha ‘Chame a polícia para Santa Teresa’. “Nós queremos, ao menos, ter o que nós tínhamos de efetivo. Nesta semana, vamos nos reunir com o coronel Camargo em busca de uma solução”, finaliza.