O copo roxo de beterraba com cenoura batidas no liquidificador virou figurinha fácil nas receitas de “suco para a pressão”, e a ciência dá parte da razão a essa fama: uma revisão com sete ensaios clínicos encontrou queda média de 4,95 mmHg na pressão sistólica (a “máxima”) de pessoas com hipertensão que tomaram suco de beterraba. O efeito é modesto e não transforma o suco em remédio. Quem tem cálculo renal, diabetes ou toma medicamentos para pressão precisa olhar a receita com mais atenção, segundo as fontes conferidas em 13 de outubro de 2026.
O que as revisões encontraram sobre a pressão arterial
A revisão sistemática mais direta sobre o tema foi feita por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e publicada em 2022 na revista Frontiers in Nutrition. O grupo reuniu sete estudos randomizados com 218 pessoas com hipertensão, que tomaram de 70 a 250 ml de suco de beterraba por dia, durante 3 a 60 dias.
- Pressão sistólica: queda média de 4,95 mmHg considerando todas as medições.
- Pressão diastólica: redução de 0,90 mmHg, sem diferença estatística em relação aos grupos de comparação.
- Medida de 24 horas: a queda sistólica no monitoramento ambulatorial (2,68 mmHg) também não foi estatisticamente significativa.
A conclusão dos autores é curta: o nitrato do suco de beterraba “reduz a PAS, mas não a PAD” em pacientes com hipertensão arterial (PAS e PAD são as pressões sistólica e diastólica). Eles apontam limites: estudos pequenos, participantes com perfis e remédios diferentes e acompanhamento de no máximo cerca de dois meses, o que deixa em aberto a segurança por longo prazo.

Os estudos testaram suco só de beterraba; a mistura com cenoura não foi avaliada.
Uma metanálise anterior, publicada em 2017 na Advances in Nutrition, chegou a números parecidos, num grupo que incluía também pessoas sem hipertensão: redução de 3,55 mmHg na sistólica e de 1,32 mmHg na diastólica. O trabalho sugere que parte do efeito pode vir de outros compostos da beterraba, como os polifenóis, e não só do nitrato.
Como o nitrato age no corpo e o que se sabe sobre o fôlego
A beterraba é rica em nitrato, que o organismo usa para produzir óxido nítrico, uma molécula que ajuda a relaxar a musculatura dos vasos sanguíneos. É esse mecanismo que os pesquisadores associam à queda da pressão.
Uma revisão sistemática espanhola publicada em 2017 na revista Nutrients analisou 23 artigos com atletas e concluiu que o suco de beterraba pode melhorar a resistência cardiorrespiratória ao aumentar a eficiência, com menor gasto de oxigênio em esforço moderado e mais tempo até a exaustão. Os autores ressalvam que a literatura é contraditória, que o número de trabalhos é limitado e que os ganhos vistos em alguns testes podem não se repetir em atletas de elite.
Um detalhe prático aparece nessa revisão: o enxaguante bucal antisséptico pode atrapalhar o aumento de nitrito no sangue, porque parte da conversão do nitrato depende de bactérias da boca.
O papel da cenoura no copo
A cenoura entra na receita também pelo betacaroteno, que o intestino converte em vitamina A. Pela tabela do Escritório de Suplementos Dietéticos dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), meia xícara de cenoura crua fornece 459 microgramas de equivalente de atividade de retinol, cerca de 51% do valor diário de referência. A recomendação para adultos é de 900 microgramas por dia para homens e 700 para mulheres.
O mesmo documento descreve a carotenodermia, quando a pele fica amarelo-alaranjada pelo excesso prolongado de betacaroteno. A condição é considerada inofensiva e regride quando o consumo diminui.
Quem deve tomar cuidado com a receita
- Quem tem cálculo renal: a National Kidney Foundation inclui a beterraba entre os alimentos com teor muito alto de oxalato, ao lado de espinafre e acelga. Para quem forma pedras de oxalato de cálcio, a entidade orienta limitar apenas as fontes muito ricas, consumir cálcio nas refeições e beber líquido suficiente para urinar cerca de 2,5 litros por dia.
- Quem tem diabetes: no suco coado, as fibras ficam para trás. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica os açúcares naturalmente presentes em sucos de fruta como açúcares livres, a serem limitados a menos de 10% da energia do dia. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomenda reduzir bebidas com açúcares naturais ou adicionados para prevenir o diabetes tipo 2 e, para adultos que já têm a doença, consumir ao menos 25 gramas de fibras por dia. Bater sem coar preserva parte da fibra dos vegetais.
- Quem toma remédio para pressão: os estudos testaram o suco como complemento. Somar uma queda extra a um tratamento em curso é assunto para conversar com o médico, e o suco não substitui medicamento.
Há ainda um susto comum que não costuma ser problema: a urina avermelhada depois de comer beterraba. O fenômeno tem nome, beterrúria, e aparece em 10% a 14% da população, segundo a revisão da base StatPearls, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. Na maioria das pessoas é benigno, mas é mais frequente em quem tem deficiência de ferro. Urina vermelha sem relação com a beterraba precisa de avaliação, porque um exame de urina é o que diferencia o pigmento de sangue.
Como encaixar o suco numa alimentação equilibrada
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, trata sucos de frutas sem adição de açúcar como alimentos minimamente processados e coloca a beterraba entre as hortaliças do dia a dia, no prato do almoço.
Na prática, o suco pode ser uma forma de variar o consumo de vegetais, sem açúcar e, de preferência, sem coar. No controle da pressão, ele é coadjuvante do acompanhamento médico, da redução do sal e da atividade física. Com cálculo renal, diabetes ou uso de remédios, procure um médico ou nutricionista antes de transformar o copo em hábito.
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Informações conferidas em 13 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



