Cem miligramas por decilitro (mg/dl). É a partir desse número, medido na glicemia de jejum, que a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) deixa de considerar o resultado normal: de 100 a 125 mg/dl, a diretriz da entidade classifica o quadro como pré-diabetes, e de 126 mg/dl para cima, como diabetes. A hemoglobina glicada segue a mesma lógica, com pré-diabetes entre 5,7% e 6,4% e diabetes a partir de 6,5%.
A tabela da diretriz separa normal, pré-diabetes e diabetes em cinco exames
Os valores estão no capítulo de diagnóstico da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, com última revisão registrada em julho de 2024. A tabela de critérios traz os seguintes cortes:
- Glicemia de jejum: normal abaixo de 100 mg/dl; pré-diabetes de 100 a 125; diabetes a partir de 126.
- Hemoglobina glicada (HbA1c): normal abaixo de 5,7%; pré-diabetes de 5,7% a 6,4%; diabetes a partir de 6,5%.
- Glicemia 1 hora depois da sobrecarga de glicose: normal abaixo de 155 mg/dl; pré-diabetes de 155 a 208; diabetes a partir de 209.
- Glicemia 2 horas depois da sobrecarga: normal abaixo de 140 mg/dl; pré-diabetes de 140 a 199; diabetes a partir de 200.
- Glicemia ao acaso, colhida a qualquer hora: 200 mg/dl ou mais, com sintomas típicos, indica diabetes.
Para a diretriz, jejum é ficar de 8 a 12 horas sem ingerir calorias. A sobrecarga é o teste de tolerância à glicose oral (TTGO), em que a pessoa toma o equivalente a 75 gramas de glicose diluída em água e faz novas coletas depois.

Um único resultado alterado precisa ser repetido antes do diagnóstico
Um número fora da faixa normal não fecha o diagnóstico sozinho. A recomendação da SBD é direta: “Se somente um exame estiver alterado, este deverá ser repetido para confirmação”. Há duas exceções previstas no texto:
- quando a glicemia de jejum dá 126 mg/dl ou mais e a glicada dá 6,5% ou mais na mesma amostra de sangue, o diabetes já fica estabelecido;
- quando a glicemia ao acaso dá 200 mg/dl ou mais e a pessoa tem sintomas típicos de açúcar alto, também não é preciso repetir.
A glicada, que reflete a média do açúcar no sangue dos meses anteriores, também tem limites. A diretriz lista situações em que o resultado pode não bater com a glicemia real, como anemias, hemoglobinopatias e variantes de hemoglobina, gestação e pós-parto, transfusões, insuficiência renal crônica, uso de antirretrovirais e de eritropoetina. O texto acrescenta que pessoas afrodescendentes podem ter glicada mais alta do que o esperado, com risco de falso-positivo.
A diretriz também dá destaque à curva de 1 hora. Segundo a SBD, esse ponto do teste “é superior ao TTGO-2h em detectar indivíduos com risco para desenvolvimento de DM2”, além de ser mais curto e prático.
O rastreamento é indicado para todos a partir dos 35 anos
A diretriz recomenda pesquisar o diabetes tipo 2 em todas as pessoas com 35 anos ou mais, mesmo sem sintomas. Abaixo dessa idade, o exame é indicado para adultos com sobrepeso ou obesidade que tenham pelo menos mais um fator de risco, entre eles:
- pai, mãe ou irmão com diabetes tipo 2;
- hipertensão arterial ou história de doença cardiovascular;
- HDL abaixo de 35 mg/dl ou triglicerídeos acima de 250 mg/dl;
- síndrome dos ovários policísticos ou acantose nigricans, o escurecimento da pele em dobras como pescoço e axilas;
- sedentarismo;
- pré-diabetes em exame anterior;
- diabetes na gestação ou bebê nascido grande para a idade gestacional.
Os exames iniciais indicados são a glicemia de jejum e a glicada, conforme a disponibilidade. A diretriz também cita o questionário finlandês FINDRISC, recomendado pelo Ministério da Saúde para estimar o risco de diabetes tipo 2.
A frequência de repetição depende do resultado. Com pré-diabetes, a orientação é refazer os exames após 12 meses. Com só um exame no nível de diabetes e os outros normais, a reavaliação é em 6 meses. Com exames normais, o intervalo é de 12 meses para quem tem três ou mais fatores de risco e de 3 anos para quem tem menos.
O Ministério da Saúde trata o pré-diabetes como uma fase que ainda pode ser revertida
Na página do Ministério da Saúde sobre diabetes, o pré-diabetes é descrito como o estado em que “os níveis de glicose no sangue estão mais altos do que o normal”, mas ainda abaixo do patamar da doença. O órgão chama a condição de sinal de alerta, comum em pessoas com obesidade, hipertensão ou alterações de colesterol e triglicerídeos, e afirma que esta é a única etapa do diabetes que ainda pode ser revertida.
O mesmo texto informa que cerca de metade das pessoas com diagnóstico de pré-diabetes acaba desenvolvendo a doença, e aponta mudanças na alimentação e prática de exercícios como os principais fatores de controle. Entre os sintomas do diabetes, o ministério cita fome e sede excessivas e vontade de urinar várias vezes ao dia.
Com o resultado em mãos, o próximo passo é levar o laudo à consulta
- Confira no laudo qual exame foi feito (jejum, glicada ou curva) e compare com a faixa correspondente da tabela.
- Lembre se o jejum foi de 8 a 12 horas: menos tempo pode alterar a glicemia de jejum.
- Se só um exame veio alterado, a diretriz prevê repetição antes de qualquer diagnóstico.
- Anote os fatores de risco da família e os seus para contar ao médico.
- Nas unidades básicas de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) é possível pedir avaliação e os exames.
Os números da tabela servem de referência, e a interpretação de cada caso cabe a um médico ou outro profissional de saúde, que pode orientar exames e cuidados individuais.
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Informações conferidas em 19 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



