A hora da verdade e a hora da mentira

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Memes que circulam nas redes sociais usam o caso Flavio Bolsonaro-Daniel Vorcaro para fazer troça ilustrando cartazes de séries e filmes conhecidos

A política, não canso de lembrar, é como nuvens. A cada olhada no céu, estão com um desenho. No momento, as nuvens ficaram carregadas para a candidatura a presidente do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A biruta virou depois que o site “Intercept Brasil” revelou, quarta-feira, 13 de maio, recados telefônicos, de novembro de 2025, no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, nos quais o senador pedia ao “meu irmão” os repasses que estavam atrasados para bancar os custos do filme “Dark Horse”, cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão, rodado nos Estados Unidos e que seria lançado no Brasil na primeira quinzena de setembro, como a “bala de prata” da campanha. O Tribunal Superior Eleitoral será cobrado por isso.

A pesquisa DataFolha, publicada nesse sábado (16), que deu empate de 45% entre Lula e Flávio, praticamente não captou o impacto das trapalhadas do candidato do PL, enrolado para explicar o inexplicável. O primeiro turno da eleição é em 4 de outubro. Aguardam-se novas pesquisas.

Há uma semana, Flávio estava surfando na liderança das pesquisas, jogando parado. O presidente Lula mantinha agendas no exterior, com destaque para o encontro com Trump na Casa Branca, após a dupla e acachapante derrota no Congresso, na indicação do AGU, Jorge Messias, e no seu veto à redução de penas de condenados nas ações golpistas que levaram à depredação das sedes dos três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. Flávio Bolsonaro chegou a decretar que o governo Lula “tinha acabado”.

Desde o seu retorno ao Brasil, no final da semana passada, Lula ativou agenda de ações visando a melhorar a avaliação de sua gestão. O Desenrola, para aliviar as dívidas de, pelo menos, 20 milhões de famílias, pequenos empresários e produtores rurais. Linhas de crédito mais baratas para motoristas de aplicativos (carros e moto). Fim do “imposto das blusinhas” e, ainda, reduções de impostos e subsídios para evitar que as altas do petróleo e dos combustíveis no exterior contaminem os preços da gasolina e do diesel para os consumidores brasileiros. E para culminar, entrou no ar a campanha para forçar o Congresso a reduzir a jornada semanal de trabalho de 6 X1 para 5 X 2.

As medidas começaram a ser mais bem assimiladas pela população (como mostrou a Pesquisa Quaest divulgada quarta-feira) e devem ser captadas nas próximas pesquisas eleitorais, também influenciadas pelo encontro com Trump. Enquanto isso, a perda de credibilidade de Flávio Bolsonaro abala a extrema direita e os partidos aliados. O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo, criticou a hipocrisia de o senador comemorar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o arquivamento da CPMI do Banco Master, quando estava em tratativas desabonadoras com Vorcaro – “um tapa na cara” do país.

Minas Gerais é o segundo colégio eleitoral do país, com 17 milhões de votos. Metade dos 35 milhões de São Paulo. Com os 13 milhões do Rio de Janeiro e mais o Espírito Santo, o Sudeste é responsável por pouco mais de 40% dos votos. Antes das revelações das relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, as pesquisas apontavam Flávio na frente em São Paulo e Rio de Janeiro, além dos estados do Sul e do Centro-Oeste. As nuvens se movem.

Os memes ridicularizando o clã de Bolsonaro (os adeptos não conseguiram reagir à altura, refletindo as dificuldades de explicações do senador) terão efeito. Antes, Lula vencia de pouco em Minas e de muito no Nordeste (à frente a Bahia, 4º colégio) e no Pará (9º colégio eleitoral do país).

 



A maneira como o caso será explorado pela mídia, sem respostas convincentes do candidato do PL, tende a complicar sua campanha, sobretudo em Minas, onde o ex-governador Romeu Zema (Novo), antes cotado a vice, bateu duro. Até em São Paulo, a reação reticente do governador Tarcísio de Freitas refletiu a dupla frustração da Faria Lima, que preferia Tarcísio e aderiu à candidatura de Flávio. No Rio de Janeiro, a operação da PF (busca e apreensão) contra o ex-governador Cláudio Castro caiu como uma bomba no estado onde Flávio contava com a segunda maior vantagem sobre Lula. As pesquisas da semana que vem contarão melhor a reação dos eleitores.

TSE diz que urnas são seguras
Assim como uma forte ressaca atingiu os litorais de São Paulo e Rio de Janeiro no começo da semana, na terça-feira à noite, na posse do ministro do Supremo Tribunal Federal, Kássio Nunes Marques, na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, a maré parece ter mudado para Flávio Bolsonaro.

Nunes Marques, o primeiro ministro a ser indicado por Jair Bolsonaro ao STF, em 2021, em seu discurso de posse, fez questão de garantir que as urnas eletrônicas são totalmente seguras, e que o sistema eleitoral brasileiro é dos mais modernos e confiáveis do mundo. Para quem não se lembra, ao longo de 2022, a partir do momento em que o TSE considerou Lula elegível e este começou a crescer nas pesquisas e a superar Jair Bolsonaro, que disputava a reeleição, dia sim e outro também, o então presidente questionava a lisura do voto eletrônico. Na vice-presidência do TSE, tomou posse outro ministro nomeado por Bolsonaro para o TSE, o ex-AGU André Mendonça, relator no STF do inquérito sobre o caso do Banco Master. Caberá à dupla presidir, com os demais componentes do TSE, o primeiro e o segundo turno da eleição (25 de setembro).

Políticos mentem, lançam “fake news” e fazem falsas promessas nas campanhas e no exercício dos mandatos. A hora da verdade é aferida nas urnas.

A hora da mentira
Na tarde da quarta-feira, 13 de maio, data em que se comemorava 138 anos da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, que pôs fim a mais de 300 anos de escravidão, o site “Intercept Brasil” já tinha publicado as trocas de mensagens de Flávio com Daniel Vorcaro, inclusive com a voz gravada do pedido, cheio de rapapés, do senador. Instado numa cerimônia, por repórter do “Intercept”, a comentar o fato, o pré-candidato do PL à Presidência, tentou negar três vezes. Primeiro, reagiu dizendo: “você é militante, não é jornalista”; ante a apresentação de detalhes da publicação, soltou uma gargalhada, saiu bradando que “era tudo mentira”, e abandonou a cerimônia para escapar do cerco da imprensa.

Mas o caso já era manchete dos principais sites de notícias. Diante da realidade, soltou nota oficial dizendo que era “um filho solicitando dinheiro privado para um filme privado" que visava "homenagear o pai” [com tanto empresário amigo, escolheu logo Vorcaro!?]. E pedia “a retomada da CPMI do Banco Master”, que ajudou a arquivar com Davi Alcolumbre (União-AP), também respingado pelos escândalos do banco de Vorcaro, pois o gestor do fundo de previdência dos funcionários públicos do Amapá, estado do presidente do Congresso, que aplicou R$ 600 milhões em papéis do Master, fora indicado por Alcolumbre.

Entrevistado pela GloboNews, o senador Flávio Bolsonaro foi mudando as versões à medida que era apertado pelos comentaristas. Na quinta-feira, já mudava as versões anteriores. Mas, sexta-feira, o cerco se fechou de dois lados. A cada revelação bombástica, Flávio Bolsonaro se contradiz nas respostas. Não seria melhor abrir o jogo e reconhecer as relações com Daniel Vorcaro e seus parceiros?

O gordo sonegador Ricardo Magro
Na sexta-feira, 15 de maio, a Polícia Federal, cumprindo mandado do ministro Alexandre de Moraes, amanheceu na casa de outro grande aliado do clã Bolsonaro. O ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (União-RJ). É o oitavo governador do estado enrolado com a polícia, por corrupção, no milênio. Seu governo aplicou mais de R$ 1,4 bilhões em papéis do Master, sendo R$ 1 bilhão via fundo de previdência dos servidores do estado, e R$ 400 milhões via Cedae.

Acusado de ser reeleito com uso de dinheiro do Estado do Rio na contratação de milhares de cabos eleitorais que foram lotados no Ceperj (espécie de IBGE fluminense), Castro, que estava sendo julgado pelo TSE e deixou para renunciar ao cargo no último dia, almejava concorrer ao Senado para garantir imunidade de oito anos. Ele faria aliança com Flávio Bolsonaro no Estado do Rio, contra a chapa liderada pelo ex-prefeito da capital, Eduardo Paes (PSD), que dividirá o palanque com o presidente Lula.

Castro já tinha costurado aliança com o sucessor, o presidente da Alerj. Sem vice, pois Thiago Pampolha (MDB) ganhou o cargo vitalício de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, a sucessão cairia no colo do aliado do União Rodrigo Bacellar). Mas Bacellar foi cassado e preso por suposto envolvimento com o Comando Vermelho. O Plano B foi replicar o esquema com o deputado Douglas Ruas (PL-RJ), eleito presidente da Alerj num pleito relâmpago. A eleição foi anulada e Ruas, novamente, foi eleito.

Só que, neste ínterim, o quarto nome na sucessão estadual, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, assumiu o governo. E, na ausência de definição clara do TSE sobre a necessidade de eleição direta ou indireta, foi ampliando a faxina no Estado. Semana passada, trocou a diretoria do Detran (uma caixa de corrupção) e afastou funcionários da Secretaria de Fazenda e da Procuradoria do Estado, que fizeram corpo mole às sonegações fiscais da Refit.

O presidente da Refit, o advogado Ricardo Magro, reside há muitos anos na Flórida, e foi alvo de pedido especial do presidente Lula ao presidente Trump de colaboração no combate ao narcotráfico e à sonegação. O “maior devedor [R$ 50 bilhões] do Brasil” (sonega impostos de gasolina importada dos Estados Unidos e lava dinheiro no estado de Delaware, o de menor carga tributária dos EUA) teve mandado de prisão expedido da PF à Interpol.

Além do ex-governador Cláudio Castro, cujo governo foi acusado de facilitar as sonegações de ICMS pela Refit (ex-Refinaria de Manguinhos), que envolviam sonegações também em São Paulo e lavagem de dinheiro para postos do PCC, a PF prendeu o ex-secretário de Fazenda Juliano Pasqual, o desembargador afastado do TJ-RJ Guaraci Vianna e o ex-procurador do Estado Renan Saad. Na casa de um policial civil foram encontrados R$ 580 mil em dinheiro. Na revista da Polícia Federal na casa do lobista Álvaro Barcha, acusado de atuar para defender os interesses da Refit junto ao poder público no Estado do Rio de Janeiro, o montante foi de R$ 1,1 milhão em notas de reais, dólares e euros.

O entendimento direto e saneador do governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, com a Polícia Federal e o ministro Alexandre Moraes, acendeu o sinal de alerta na articulação da campanha de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro, base eleitoral do clã Bolsonaro. Há duas semanas, quando vazaram as trocas de mensagem que levaram à busca e apreensão na residência do presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), que mora em um imóvel de Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro tentou negar que tinha convidado o ex-chefe da Casa Civil de seu pai para ser vice na sua chapa. Ciro estava costurando uma aliança com o União Brasil, de Antônio Rueda.

A ação da PF atingiu duplamente os dois principais partidos aliados do PL no terceiro colégio eleitoral, reduto do clã Bolsonaro.