Ronco alto pode, sim, indicar apneia obstrutiva do sono, principalmente quando quem dorme ao lado percebe que a respiração para por alguns instantes e depois volta com uma puxada de ar. O consenso de 2022 da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) manda investigar roncos e pausas presenciadas, e só um exame do sono, como a polissonografia, confirma o diagnóstico.
O ronco vira sinal de alerta quando a respiração para e volta com esforço
O ronco nasce da vibração dos tecidos da garganta com a passagem do ar durante o sono. Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, o ronco leve é considerado normal, sobretudo em quem dorme de barriga para cima. O problema começa quando ele é sinal da síndrome da apneia obstrutiva do sono, em que a via aérea se fecha e a respiração para. Cada pausa dura em média 20 segundos, pode chegar a dois minutos e se repete muitas vezes na mesma noite.
O consenso da SBPT, publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia, descreve a doença como o colapso frequente das vias aéreas superiores durante o sono. O Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue (NHLBI), dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), lista três sinais noturnos:

- respiração que para e recomeça;
- ronco alto e frequente, mais comum nos homens;
- arfar em busca de ar durante o sono.
O próprio NHLBI avisa que a pessoa pode não perceber nada disso até alguém comentar. Por isso o relato do parceiro, de um familiar ou de quem divide o quarto costuma ser o primeiro passo.
Cansaço de dia, dor de cabeça ao acordar e insônia também entram na lista
A apneia não aparece só à noite. Entre os sintomas diurnos citados pelo NHLBI estão:
- sonolência e cansaço durante o dia, que atrapalham a concentração e os reflexos;
- boca seca;
- fadiga, dor de cabeça e insônia, mais frequentes nas mulheres;
- queda da libido ou disfunção sexual;
- acordar várias vezes à noite para urinar.
O consenso da SBPT faz a mesma separação: nos homens, chamam mais atenção os roncos e as apneias presenciadas; nas mulheres, o cansaço, a fadiga, a dor de cabeça pela manhã e a insônia. A sonolência diurna excessiva é apontada como um dos principais sintomas. Em crianças, o NHLBI cita agitação, xixi na cama, piora da asma e dificuldade de atenção na escola.
Homens, pessoas com obesidade e mais velhos têm risco maior, mostra estudo em São Paulo
A apneia é mais comum do que parece. No Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo (Episono), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 1.042 adultos de 20 a 80 anos passaram uma noite inteira em laboratório fazendo polissonografia. O resultado, publicado em 2010 na revista Sleep Medicine, encontrou a síndrome em 32,8% dos participantes, cerca de um em cada três.
No mesmo estudo, a chance de ter apneia foi cerca de quatro vezes maior nos homens do que nas mulheres e dez vezes maior em pessoas com obesidade do que nas de peso normal. A associação cresceu com a idade e foi a mais alta no grupo de 60 a 80 anos.
O NHLBI acrescenta outros fatores de risco: histórico familiar, formato do crânio e da face, consumo de álcool (que relaxa os músculos da garganta), cigarro, amígdalas ou língua grandes e alterações hormonais, como o hipotireoidismo.
Polissonografia é o exame que confirma a apneia e mede a gravidade
Questionário nenhum fecha o diagnóstico. O consenso da SBPT afirma que “nenhum instrumento isoladamente é capaz de afastar ou confirmar a presença de AOS sem um estudo objetivo do sono”. Testes como o STOP-Bang servem para triagem e para decidir quem precisa do exame.
A polissonografia feita em laboratório, chamada de tipo 1, é tratada pelos pneumologistas como padrão ouro: monitora o sono com aparelhos durante a noite e conta quantas vezes por hora a respiração para ou diminui. A gravidade em adultos segue os cortes de 5, 15 e 30 eventos por hora. Aparelhos portáteis, usados em casa (tipo 3), são recomendados para quem tem grande probabilidade de apneia moderada a grave e não tem outras doenças sérias, mas tendem a subestimar o número de eventos.
Antes do exame, o médico pergunta sobre sintomas, histórico familiar e remédios em uso. Segundo a página de diagnóstico do NHLBI, ele pode pedir um diário do sono e exames de sangue, como os hormônios da tireoide, para descartar outras causas.
Sem tratamento, a apneia aparece ligada a pressão alta, AVC e acidentes de trânsito
O consenso da SBPT reúne dados que explicam a pressa em investigar. A pressão alta pode atingir até 50% das pessoas com apneia, e, entre quem tem hipertensão resistente aos remédios, a apneia pode chegar a cerca de 80%. A doença é fator de risco para diabetes tipo 2, está associada a arritmias como a fibrilação atrial e aparece em 30% a 70% de quem já teve acidente vascular cerebral (AVC). A chance de acidente de carro aumenta de duas a três vezes.
Há tratamento. Para a apneia moderada a grave, a SBPT indica a terapia com pressão positiva, feita com o aparelho conhecido como CPAP, que sopra ar pelo nariz ou pela boca e mantém a via aérea aberta. O NHLBI lista ainda aparelhos usados na boca durante o sono, cirurgias em casos selecionados e mudanças de hábito: manter o peso saudável, fazer exercício, limitar álcool, parar de fumar e dormir de lado.
Ao perceber ronco alto com pausas na respiração, sonolência durante o dia ou cansaço que não passa, vale anotar o que foi observado, pedir a quem dorme junto que descreva as noites e levar esse relato à consulta. Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação individual: procure um médico ou outro profissional de saúde para saber se você precisa do exame do sono e qual tratamento faz sentido no seu caso.
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Informações conferidas em 19 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



