O tênis passou a noite no chão da área de serviço, a criança enfia o pé de manhã e grita com uma dor forte e imediata: a cena é hipotética, mas é exatamente o tipo de picada que o Ministério da Saúde descreve, porque o escorpião se esconde em roupas e sapatos e ferroa quando é apertado contra o corpo. A orientação oficial é acalmar a criança, lavar o local com água e sabão e levá-la sem demora a um serviço de saúde, sem amarrar, cortar ou passar nada na picada. O tratamento com soro antiescorpiônico é feito só na rede de hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) e é inteiramente gratuito.
Em emergência, a recomendação do ministério é ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), no 192, ou para o Corpo de Bombeiros, no 193. O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da sua região também orienta por telefone.
Lavar a picada e buscar atendimento é tudo o que se deve fazer em casa
Nas perguntas frequentes sobre escorpiões do Ministério da Saúde, o passo a passo é curto: “A primeira coisa a ser feita é acalmar a pessoa e afastá-la do escorpião causador do acidente”. Depois, limpar o local com água e sabão e encaminhar a vítima, “sem demora, para o ponto de atendimento médico de referência da região”.

O Manual de Controle de Escorpiões, publicado pelo ministério em 2009, acrescenta que a orientação médica deve ser a mais próxima do local (unidade básica, posto de saúde ou hospital de referência) e que, se for possível, vale capturar o escorpião e levá-lo junto, porque identificar o animal ajuda no diagnóstico. A captura só deve ser tentada com segurança: o ministério sugere cobrir o bicho com um pote fundo de boca larga, passar um papel grosso por baixo e fechar com tampa de rosca.
Torniquete, corte e receita caseira estão na lista do que não fazer
O mesmo manual traz uma lista direta do que não fazer depois da picada:
- não amarrar o membro nem fazer torniquete;
- não cortar, perfurar ou queimar o local da picada;
- não aplicar nenhuma substância sobre a ferida (o texto cita fezes, álcool, querosene, fumo, ervas e urina) nem fazer curativo que feche o local, porque isso pode favorecer infecção;
- não dar bebida alcoólica nem outros líquidos como álcool, gasolina ou querosene, que não têm efeito contra o veneno e podem piorar o quadro.
A página de perguntas frequentes reforça que não há evidência científica de que ervas medicinais, borra de café, “garrafada”, querosene ou gasolina tratem os efeitos da picada. Para a dor em adultos, quando ela não é muito intensa, o manual cita compressas mornas; gelo e água gelada costumam aumentar a dor e não são indicados.
Crianças pequenas concentram os casos graves
A página de acidentes por escorpiões do Ministério da Saúde explica que a dor aparece logo após a picada em praticamente todos os casos e pode vir com formigamento, vermelhidão e suor no local. De minutos a duas ou três horas depois, “principalmente em crianças”, podem surgir sinais no corpo todo: suor intenso, agitação, tremores, náuseas, vômitos, salivação excessiva, alteração da pressão, arritmia, edema pulmonar e choque. O texto resume: “Crianças constituem o grupo mais suscetível ao envenenamento sistêmico grave”.
Na situação epidemiológica publicada pelo ministério, a maioria dos casos tem evolução benigna, mas casos graves e mortes são mais frequentes em crianças menores de 10 anos, principalmente quando o responsável é o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), espécie de ampla distribuição no país e adaptada à vida nas cidades. O manual é claro sobre o sinal de alerta: em criança, náuseas e vômitos exigem encaminhamento imediato a um serviço de saúde, para que o soro seja aplicado o mais rápido possível, dada a rápida progressão do envenenamento.
O soro é aplicado no hospital, pelo SUS e sem custo
O tratamento específico é o soro antiescorpiônico ou, na falta dele, o soro antiaracnídico, sempre em ambiente hospitalar e com supervisão médica. Nem toda picada leva soro: nos casos leves, com dor e formigamento só no local, o ministério não indica ampolas. Nos moderados, a tabela oficial prevê de 2 a 3 ampolas, e nos graves, de 4 a 6.
Nem todo hospital tem o soro. Segundo o ministério, as Secretarias Estaduais de Saúde indicam quais unidades fazem a soroterapia, e a lista de hospitais de referência por estado está disponível no portal do governo federal. A página de animais peçonhentos afirma que o SUS oferece gratuitamente os antivenenos, conforme a necessidade. Por isso, vale saber de antemão qual é o hospital de referência mais perto de casa.
Outubro e novembro costumam ser o pico, e a prevenção começa dentro de casa
Segundo o ministério, com o aumento das chuvas na primavera, as notificações de picada crescem e costumam “culminar nos meses de outubro e novembro”. A série histórica do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) mostra a escala do problema: o país passou de 12.552 acidentes em 2000 para 183.738 em 2022, número ainda sujeito a revisão.
As medidas de prevenção listadas pelo ministério são caseiras: manter o lixo em sacos ou recipientes fechados para não atrair baratas, que servem de alimento ao escorpião; limpar quintais e não acumular entulho, folhas secas ou material de construção perto da casa; usar telas em ralos de chão, pias e tanques e soleiras nas portas; vedar frestas em paredes e rodapés; afastar camas e berços das paredes e não deixar a roupa de cama encostar no chão. Sacudir e olhar roupas e calçados antes de vestir, hábito que vale ensinar às crianças, evita a picada da cena do tênis.
Este texto é informativo e não substitui o atendimento: diante de uma picada de escorpião, sobretudo em criança, procure imediatamente um serviço de saúde ou ligue 192 para orientação e avaliação individual por um profissional.
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Informações conferidas em 19 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



