Diz a crença popular que, quando uma mariposa preta do tamanho de um morcego pousa dentro de casa, alguém da família vai morrer. A visitante é a Ascalapha odorata, conhecida no Brasil como bruxa, bruxa-preta ou mariposa-bruxa, e o Instituto Butantan a descreve como um inseto inofensivo e importante para a biodiversidade. Segundo pesquisadores que registraram a espécie no Rio de Janeiro, ela entra porque é atraída pela luz e, ao amanhecer, procura cantos escuros.
O essencial sobre a bruxa:
- Nome científico: Ascalapha odorata, da família Erebidae;
- Tamanho: envergadura que pode chegar a cerca de 18 centímetros, segundo o museu da Universidade do Colorado;
- Risco para pessoas: nenhum; ela não pica, não morde e não transmite doenças;
- Quando aparece: voa à noite, é atraída por lâmpadas e se esconde em locais escuros durante o dia.
A fama de mensageira da morte atravessa séculos e países
O medo da bruxa não é só brasileiro. O Museu de História Natural da Universidade do Colorado (CU Museum) registra que, no México, ela é chamada de mariposa de la muerte em espanhol e de Micpapalotl em náuatle, nomes que significam borboleta da morte. Desde a época dos astecas, acredita-se ali que, se a mariposa entra numa casa onde há alguém doente, essa pessoa vai morrer. No sul do Texas, nos Estados Unidos, a versão local exige que ela visite antes os quatro cantos da casa.

No Equador, um estudo publicado em 2021 na revista Ethnoscientia, da Universidade Federal do Pará (UFPA), ouviu 40 idosos na Plaza Grande, no centro histórico de Quito: 35% dos entrevistados associaram a espécie ao anúncio de morte e 22,5% à atração de má sorte. Os autores concluem que o temor leva muita gente a matar ou espantar o inseto por superstição.
Há também versões menos sombrias. A estação de campo da Universidade de Wisconsin em Milwaukee (UWM) lista crenças que ligam a mariposa à boa sorte, sobretudo com dinheiro, e cita que, no Havaí, ela é vista como a alma de alguém que morreu há pouco e veio se despedir. O nome maia dela, X-mahan-nah, quer dizer algo como a que pede a casa emprestada.
Segundo o Instituto Butantan, a fama de bruxa vem da cor escura e dos pequenos desenhos nas asas, não de qualquer comportamento perigoso.
A bruxa é uma das maiores mariposas das Américas
O CU Museum descreve a Ascalapha odorata como o maior inseto da parte continental dos Estados Unidos, com envergadura de até 7 polegadas, perto de 18 centímetros. As fêmeas são maiores que os machos, e os dois sexos têm manchas em forma de vírgula nas asas da frente. As asas longas fazem a mariposa parecer um morcego em voo, e um registro científico feito em Rio das Ostras (RJ) cita “mariposa morcego” entre os nomes populares da espécie no Brasil.
Esse registro, publicado em 2013 na Revista Souza Marques, informa que a espécie ocorre do sul dos Estados Unidos ao Brasil e migra para o litoral do Rio de Janeiro de novembro a janeiro. Os autores observaram um exemplar se alimentando de uma goiaba madura, com a probóscide enfiada numa rachadura da fruta, por volta das 20h.
A lagarta come folhas de leguminosas, como acácias e cássias. O adulto vive poucas semanas: o CU Museum afirma que, por isso, são gerações sucessivas que completam a migração rumo ao norte, entre junho e outubro, puxada pelo início da estação chuvosa nos trópicos.
Lâmpada acesa e busca por abrigo escuro explicam a visita
A explicação para a bruxa aparecer na sala é bem menos sobrenatural. No registro de Rio das Ostras, os pesquisadores anotaram que as mariposas “são atraídas pela luminosidade” e viram muitas delas reunidas nas paredes e no telhado de uma casa em janeiro de 2009. Ao amanhecer, elas procuram locais mais escuros, muitas vezes fora da casa.
O motivo de os insetos ficarem presos ao redor de uma lâmpada foi testado num estudo publicado em 30 de janeiro de 2024, uma terça-feira, na revista Nature Communications, com participação do Imperial College London. Os pesquisadores filmaram o voo de insetos e viram que eles não seguem em linha reta até a luz: viram as costas para ela, porque usam o céu claro como referência para saber onde é o alto. Perto de uma lâmpada, esse reflexo faz o inseto girar em volta da fonte e ficar preso ali.
Ela não pica, não morde e ajuda a natureza
O entomólogo Mike Quinn, autor de um levantamento sobre a história natural e cultural da espécie publicado no portal Texas Entomology, afirma que a mariposa não morde, não pica e não carrega doenças. No máximo, ela assusta quem a tira do esconderijo durante o dia.
O Instituto Butantan, que guarda dois exemplares no Laboratório de Coleções Zoológicas, acrescenta que a bruxa serve de alimento para outros animais e participa da polinização. Na revista Ethnoscientia, os autores a descrevem como polinizadora importante de plantas que florescem à noite e como presa de pequenos mamíferos, aves e morcegos.
Como tirar a bruxa de casa sem machucá-la
- apague as luzes do cômodo e deixe uma janela ou porta aberta para o lado de fora, de preferência perto de uma luz externa;
- se ela estiver parada, cubra com um pote ou caixa e deslize uma folha de papel por baixo para levá-la para fora;
- evite pegar pelas asas, que são frágeis;
- à noite, mantenha cortinas fechadas ou telas nas janelas dos cômodos iluminados.
Matar a mariposa não protege ninguém de nada. A bruxa que aparece no canto da sala é só um inseto grande, de passagem, que confundiu a lâmpada de casa com o céu.
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Informações conferidas em 13 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



