Para pesquisadores de comportamento animal, comer grama é um costume comum de cães saudáveis, e não um pedido de socorro do estômago. Uma pesquisa da Universidade da Califórnia em Davis (UC Davis), publicada em 2008, ouviu donos de 1.571 cães que comem plantas e concluiu que só 22% deles vomitam com frequência depois. Vômito repetido, sangue, apatia e perda de peso, porém, são sinais que pedem consulta.
O estudo concluiu que comer plantas é comportamento normal do cão
O trabalho, assinado por Karen Sueda, Benjamin Hart e Kelly Cliff, saiu na revista científica Applied Animal Behaviour Science com o título “Characterisation of plant eating in dogs”, registrado na base de dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Os pesquisadores fizeram duas etapas:
- na primeira, 47 donos de cães saudáveis atendidos no hospital veterinário da universidade responderam a um questionário, e 79% disseram que o animal já tinha comido grama ou outras plantas;
- na segunda, um questionário pela internet reuniu 1.571 respostas válidas de donos de cães que comem plantas;
- nesse grupo, 68% dos cães comiam plantas todos os dias ou toda semana, e a grama era a planta mais consumida por 79% deles;
- só 9% pareciam doentes com frequência antes de comer as plantas, e 22% vomitavam com frequência depois.
Os autores não encontraram relação clara entre o hábito e sexo, castração, grupo de raça ou tipo de ração. A idade, sim, fez diferença: cães mais novos comiam plantas com mais frequência, comiam mais plantas que não eram grama e mostravam menos sinais de doença antes e menos vômito depois. A conclusão do artigo é que comer plantas é um comportamento normal do cão doméstico.

A principal hipótese dos pesquisadores vem dos ancestrais selvagens
Num artigo escrito para a revista profissional dvm360, voltada a médicos-veterinários, Benjamin Hart, professor emérito da Escola de Medicina Veterinária da UC Davis, resume a hipótese do grupo. Para ele, o hábito reflete uma predisposição herdada dos canídeos selvagens. Uma das ideias é que, nesses animais, comer plantas ajudava a expulsar vermes do intestino de forma contínua. O próprio Hart ressalva que são necessários mais estudos para confirmar essa explicação.
O professor também lembra um dado que derruba a crença de que o cão só come grama quando está passando mal: a maioria dos animais da pesquisa não mostrava nenhum sinal de doença antes de ir para o gramado. Para ele, comer grama é comum em cães normais e não tem relação com doença.
O American Kennel Club (AKC), entidade americana de criadores de cães, lista outras razões possíveis num guia sobre o assunto: instinto, busca de fibra para a digestão, tédio de quem passa muito tempo sozinho no quintal, sede e até o gosto da grama nova. O guia cita o veterinário-chefe da entidade, Jerry Klein, segundo quem a espuma amarela vomitada costuma ser bile e indica estômago vazio. Nesses casos, uma refeição pequena antes de dormir ou logo cedo pode ajudar.
Os riscos estão no que vem junto com a grama
Mesmo sendo um hábito normal, o gramado pode esconder problemas. O AKC e Hart chamam a atenção para três deles:
- Agrotóxicos: grama tratada com herbicida ou inseticida pode intoxicar o cão. Hart recomenda manter o animal longe de gramados com produtos químicos.
- Vermes: a grama pode estar contaminada por fezes de outros animais e transmitir parasitas intestinais, como lombrigas e ancilóstomos. O veterinário pode pedir exame de fezes ou de sangue.
- Plantas tóxicas: o cão que mastiga grama também pode mastigar outras plantas. A comigo-ninguém-pode (gênero Dieffenbachia), comum em vasos no Brasil, aparece como tóxica para cães na lista da central de controle de envenenamento da ASPCA, entidade americana de proteção animal, e pode causar irritação intensa na boca, salivação excessiva, vômito e dificuldade para engolir.
Vômito frequente, sangue e apatia pedem consulta
O Manual Veterinário Merck, na versão para donos de cães, explica que o vômito ocasional ou de curta duração em geral não vem acompanhado de outras alterações. Já o vômito que acontece mais de uma ou duas vezes por dia, ou que vem com sangue, dor na barriga, desidratação, fraqueza, febre ou perda de peso, exige um exame mais detalhado.
O guia do AKC acrescenta outros motivos para procurar o veterinário:
- o cão come grama com muita frequência ou em grande quantidade;
- aparecem diarreia, fezes com sangue, menos apetite, perda de peso ou cansaço fora do normal;
- o animal fica lambendo os lábios;
- ele mastigou uma planta de casa que pode ser tóxica.
Hart vai na mesma linha: se o animal parece doente antes de comer plantas ou se o vômito persiste, é hora de levá-lo a uma consulta.
O que observar no passeio e no quintal
Na maior parte dos casos, não é preciso impedir o cachorro de comer grama. O cuidado está em escolher onde ele faz isso e em acompanhar o que acontece depois. Prefira gramados sem aplicação de produtos químicos, evite áreas com fezes de outros animais, converse com o veterinário sobre o controle de vermes e deixe água fresca disponível também no quintal. Vale ainda conferir quais plantas há em casa e deixar as tóxicas fora do alcance.
Anote com que frequência o cão come grama e se vomita depois. Se o hábito aumentar de repente ou vier acompanhado de qualquer um dos sinais de alerta, leve o animal a um médico-veterinário, que pode avaliar o caso e indicar exames.
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Informações conferidas em 19 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



