POLÍTICA

'Guaidó tupiniquim': Flávio Bolsonaro divulga carta golpista em Miami e acusa eleição de fraude

Senador agradece a Trump e Milei, questiona o resultado do segundo turno e diz ter sido alvo de perseguição política

Por POLÍTICA JB
Reportagem ampliada com informações da Agência Estado

Publicado em 28/10/2026 às 18:00

Alterado em 28/10/2026 às 19:12

Flavio Bolsonaro disse que vai presidir o 'Brazil' a partir dos EUA Foto: reproduções das redes sociais

Após deixar o Brasil e viajar para Miami, nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou nesta quarta-feira, 28, uma carta em que agradece aos presidentes Javier Milei, da Argentina, e Donald Trump, dos Estados Unidos. No texto, o senador, derrotado na disputa presidencial, se autodeclara o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, se copara a Rui Barbosa, e faz críticas ao resultado das urnas.

A manifestação circulou em três versões. A primeira trazia um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, referência antiga à Proclamação da República, e depois foi corrigida por aliados. Na versão final, publicada nas redes sociais, Flávio suavizou o tom e passou a se apresentar como “o líder do Brasil”, mantendo as críticas ao processo eleitoral.

Acusações ao resultado da eleição

Na carta, o senador repetiu a tese de fraude eleitoral sem apresentar provas e voltou a atacar a decisão do ministro Cristiano Zanin, que prorrogou por duas horas o horário de votação no segundo turno após pedidos das duas chapas concorrentes. Segundo ele, a medida teria favorecido Lula, que foi reeleito com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% de Flávio.

O senador afirmou que a extensão do prazo da votação teria acrescentado milhões de votos ao adversário, repetindo argumentos já usados por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro após a derrota de 2022. 

Referências políticas e discurso de exílio

Ao longo do manifesto, Flávio se compara a figuras históricas que deixaram seus países em meio a crises políticas, citando nomes como Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí, Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado. Ele usa esses exemplos para sustentar a narrativa de que estaria sendo perseguido e impedido de agir politicamente no Brasil.

O senador também responsabiliza o Supremo Tribunal Federal e fala em “regime de exceção”, sem citar diretamente o ministro Alexandre de Moraes. A Polícia Federal havia pedido a suspensão de seus passaportes no domingo, após o segundo turno, em um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e risco de fuga ligado a investigações sobre transações no exterior.

Saída do Brasil e repercussão política

Flávio, a mulher, Fernanda Bolsonaro, e as filhas deixaram o país de carro pela fronteira com a Argentina e embarcaram depois em um jato particular rumo a Miami. A PF já havia cancelado os documentos brasileiros do senador, que não poderiam ser usados, enquanto ele entrou na Argentina com passaporte italiano e nos Estados Unidos com passaporte diplomático.

Antes da viagem, o discurso era diferente: o senador havia prometido pedir a anulação do segundo turno e tentar a cassação da chapa de Lula e Geraldo Alckmin. Após a divulgação da carta, o episódio ampliou a tensão política em torno do resultado da eleição e das investigações que envolvem o nome de Flávio Bolsonaro.

Guaidó tupiniquim

O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, publicou o seguinte nas redes sociais:

“Brazil? com Z? Eu não sei se todo mundo reparou, mas o discurso golpista do Guaidó Tupiniquim vem com um brasão da República tão fake que está escrito Brazil. Sim” Com Z!“

A íntegra da carta de Flávio Bolsonaro
"Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil.

Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.

Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno.

Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível. E as nulidades não são o único problema.

Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.

A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime.

Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento.

Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.

Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do impeachment.

Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.

Não vou submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança.

Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.

Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.

Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.

Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania.

Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação. Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar.

O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim.

Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam.

À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado como normal. Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr. E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil.

Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil.

Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista. Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar.

Que Deus abençoe o Brasil.

Flávio Bolsonaro"

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