Pesquisadores de universidades brasileiras que estudaram o estômago da lagartixa-de-parede (Hemidactylus mabouia) chegaram a conclusões parecidas: ela é uma caçadora noturna de baratas, aranhas e insetos, inclusive a aranha-marrom. E, ao contrário do que muita gente imagina, ela não foge da luz: costuma ficar perto das lâmpadas, porque é ali que os insetos se juntam à noite.
Baratas e aranhas estão no topo do cardápio da lagartixa
Um estudo sobre a dieta da espécie no Sudeste, com lagartixas que viviam entre rochas numa fazenda de Valinhos (SP), foi feito pelos ecólogos C. F. D. Rocha e L. A. Anjos, do Departamento de Ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicado em 2007 no Brazilian Journal of Biology. Os dois analisaram o conteúdo do estômago de lagartixas e encontraram um padrão claro:
- Baratas foram o grupo que mais ocupou volume no estômago, com 29,4% do total;
- Aranhas foram a presa mais numerosa (22,4% dos itens) e apareceram em 44% dos animais examinados;
- Gafanhotos, larvas de insetos e cupins completaram a lista.
Em Mato Grosso do Sul, uma equipe do Laboratório de Zoologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Corumbá, examinou outra população e descreveu a lagartixa como uma generalista que se alimenta principalmente de insetos. Lá, aranhas e formigas dividiram o primeiro lugar em número de presas, com 16,33% cada, seguidas por besouros.

E os mosquitos? O guia de animais de Trinidad e Tobago da Universidade das Índias Ocidentais, onde a mesma espécie é comum, registra que, ao anoitecer, ela come principalmente mariposas, moscas e mosquitos. Ou seja, o bicho é um controle de pragas gratuito, embora não substitua a limpeza da casa nem o combate aos criadouros do mosquito da dengue.
Em laboratório, uma lagartixa comeu seis aranhas-marrons num só dia
A relação com a aranha-marrom, aranha de picada perigosa e bem adaptada às cidades brasileiras, foi testada em Curitiba, cidade onde o loxoscelismo é um problema de saúde pública. Os biólogos E. N. Ramires e G. M. Fraguas, da Universidade Tuiuti do Paraná, observaram 12 lagartixas em laboratório, em estudo publicado em 2004 no Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases. Todas comeram as aranhas.
O ataque era uma corrida rápida seguida de uma mordida no abdômen ou nas pernas da presa, evitando a parte da frente, onde ficam as presas venenosas. Uma lagartixa comeu três aranhas em 30 minutos e seis em um único dia. Fezes de lagartixa recolhidas numa casa de Curitiba tinham restos de aranha-marrom.
O estudo também mostra o limite: duas lagartixas morreram picadas pelas aranhas. Os autores concluem que o réptil pode ajudar no controle biológico da aranha-marrom dentro de casa, mas dizem que ainda faltam estudos de campo para medir esse efeito. Em 2007, a Agência FAPESP apontou a escassez de lagartixas em Curitiba como uma das explicações levantadas por pesquisadores para a abundância da aranha na capital paranaense.
A lagartixa não evita a luz: ela espera os insetos perto da lâmpada
A lagartixa-de-parede é um animal noturno. No estudo da UFMS, o pico de atividade ficou entre 18h e 19h, com 44,9% dos registros. Uma dissertação de mestrado da Universidade Federal de Viçosa (UFV), de 2011, resume que ela “pode ser facilmente encontrada perto de fontes de luz”.
A explicação está no cardápio. Os pesquisadores da Uerj citam trabalhos segundo os quais as lagartixas da cidade comem muitos insetos com asas, que “provavelmente são atraídos pela iluminação artificial das residências”, em tradução livre. O serviço de extensão da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, descreve a mesma cena: as lagartixas ficam perto das luzes da varanda esperando mariposas e baratas.
Não há veneno, e os especialistas pedem para não matar
O manual médico MSD afirma que os dois únicos lagartos reconhecidamente venenosos são o monstro-de-gila e o lagarto-de-contas. A lagartixa doméstica não está entre eles.
O Instituto Butantan vai além. Na publicação educativa Animais venenosos, de 2017, a lista de cuidados para evitar acidentes com aranhas, escorpiões e lacraias inclui: “Preservar os inimigos naturais: coruja, joão-bobo, lagartos, sapos, galinhas, gansos e quatis”.
Ela veio da África, e o cuidado necessário é lavar as mãos
A espécie não é brasileira. A base de espécies invasoras da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) registra que ela é nativa da África continental, e os pesquisadores da Uerj escrevem que a chegada às Américas provavelmente ocorreu em navios negreiros, durante a colonização. Por aqui, ela é tratada como invasora e pode comer outras lagartixas, incluindo as da própria espécie, como registrou o estudo da UFMS.
Dentro de casa, o ponto de atenção é a higiene. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) alerta que répteis, mesmo saudáveis, costumam carregar a bactéria Salmonella no intestino. Na prática:
- Não pegue a lagartixa com a mão nem deixe crianças brincarem com ela;
- Lave as mãos com água e sabão depois de limpar fezes do animal em bancadas e paredes;
- Diminua os insetos dentro de casa: a extensão da Universidade da Flórida lembra que tirar as fontes de alimento ajuda a evitar que as lagartixas se instalem;
- Para mantê-las do lado de fora, a mesma fonte recomenda vedar frestas de janelas e portas.
Se a lagartixa aparecer de novo atrás do quadro da sala, a ciência dá um bom motivo para deixá-la trabalhar em paz durante a noite.
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Informações conferidas em 19 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



