Em Uberlândia (MG), um sapo-cururu atacado por um cachorro foi parar no Hospital Veterinário da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em 18 de setembro de 2026, segundo o jornal Estado de Minas. O caso mostra quem costuma levar a pior nesse encontro: o cururu não persegue nem morde ninguém, mas a mordida do cão espreme as glândulas atrás dos olhos do sapo e libera um veneno que pode matar o cachorro. Pela literatura veterinária, o primeiro cuidado é lavar a boca do animal com água, sem deixar que ele engula, e levá-lo com urgência ao veterinário.
O sapo não ataca, e o veneno só sai quando a glândula é apertada
Os sapos-cururus pertencem ao gênero Rhinella. Atrás dos olhos, eles têm duas bolsas salientes, as glândulas paratoides, cheias de secreção tóxica. Um estudo do Instituto Butantan publicado em 2009 na revista Toxicon, liderado pelo biólogo Carlos Jared, descreveu como o sistema funciona: quando ameaçado, o sapo infla os pulmões e inclina o corpo na direção do predador, expondo as glândulas, mas a descarga do veneno depende de uma pressão mecânica, como a de uma mordida. Só então a secreção sai em jato fino.
Um trabalho posterior do mesmo grupo, publicado em 2018 na Frontiers in Zoology com quatro espécies brasileiras do grupo do cururu, resume a regra: o veneno não pode ser inoculado porque o sapo não tem aparelho para isso, e o envenenamento só acontece quando o agressor ataca e morde o anfíbio. É a chamada defesa passiva. Uma revisão publicada em 2022 na revista Ciência Animal repete a conclusão: o veneno “só pode ser liberado via pressão mecânica”.

Na boca do cachorro, a toxina atinge o coração
Quando o cão morde, a secreção entra em contato com a mucosa da boca e é absorvida. Um relato de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Unesp, publicado em 2008 na revista Ciência Rural, explica que as substâncias do veneno, chamadas bufogeninas e bufotoxinas, agem de forma parecida com as toxinas digitálicas e podem provocar fibrilação ventricular. Os autores registram que a morte pode ocorrer cerca de 15 minutos depois do início dos sinais.
O artigo descreve o caso de uma buldogue francesa de 2 anos e meio encontrada morta sem ter apresentado sinais antes. Os exames toxicológicos de rotina deram negativo, e só a análise por cromatografia, usando a secreção da glândula do sapo como referência, confirmou o veneno como causa. Os pesquisadores lembram que o risco é maior no verão, na primavera e no outono, à noite e depois da chuva, e que os sapos se alimentam à noite, por isso o tutor muitas vezes não vê o momento do contato.
Baba em excesso, vômito e convulsão estão entre os sinais
Os sinais aparecem rápido. A lista reunida no artigo da Ciência Rural e na revisão da Ciência Animal inclui:
- salivação excessiva e mucosa da boca muito avermelhada;
- vômito, apatia ou ansiedade;
- respiração acelerada e alterações nos batimentos do coração;
- pupilas dilatadas, movimentos involuntários dos olhos e cegueira;
- andar cambaleante, convulsões e, nos casos graves, coma.
A revisão da Ciência Animal aponta que cães jovens são mais suscetíveis, pela curiosidade e falta de experiência, e que os de pequeno porte sofrem mais. Entre os artigos analisados pelos autores, 67% relatavam mortes de cães intoxicados.
Os primeiros minutos contam, e o tratamento é na clínica
O passo que pode ser feito em casa é reduzir a quantidade de veneno absorvida. A revisão da Ciência Animal cita a lavagem da cavidade oral do cão “para diminuição da absorção das toxinas” e relata um caso fatal em que não houve rapidez para levar o animal à clínica. A orientação da RSPCA de Queensland, entidade de proteção animal da Austrália, onde o sapo-cururu amazônico (Rhinella marina) virou praga, detalha o roteiro:
- Lave a boca com água, com delicadeza, mantendo a cabeça do cão inclinada para baixo, com a boca virada para o chão, para que ele não engasgue nem engula a água;
- Passe uma toalha úmida na boca várias vezes, lavando o pano entre uma passada e outra;
- Procure atendimento veterinário logo em seguida, principalmente se surgirem sinais, mesmo que você não tenha visto o sapo.
Remédio caseiro não substitui o atendimento. O tratamento descrito na literatura, com medicamentos para o coração e controle das convulsões, é feito pelo veterinário de acordo com os sinais de cada animal. A boa notícia vem de um trabalho da Universidade Federal de Pelotas (UFPel): a intoxicação é uma emergência pelo risco de morte, mas tem baixa letalidade quando tratada adequadamente. Num levantamento da Flórida citado na revisão da Ciência Animal, 4 de 94 cães atendidos morreram.
Matar o sapo não é a solução, e a prevenção começa no quintal
No caso de Uberlândia, o veterinário-chefe do hospital da UFU, Márcio Bandarra, lembrou ao Estado de Minas que os sapos comem insetos e ajudam a controlar mosquitos que transmitem dengue e chikungunya, e por isso são “fundamentais para preservar também a nossa saúde”. O sapo atacado se recuperou e, segundo o jornal, seria solto perto de um rio ou lagoa.
A orientação passada na mesma ocasião é não tentar capturar nem manipular o sapo, afastar os animais domésticos e procurar ajuda especializada. Quem encostar no bicho sem querer deve lavar bem as mãos com água e sabão e evitar levar as mãos aos olhos e à boca. Como o risco cresce à noite e depois da chuva, segundo o artigo da Ciência Rural, vale redobrar a atenção ao soltar o cão no quintal nesses momentos.
Se o cachorro abocanhou um sapo ou mostra baba excessiva, tremores ou convulsões, só um médico-veterinário pode avaliar o caso e indicar o tratamento adequado.
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Informações conferidas em 19 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



