Para que serve lavar os pés com bicarbonato e água morna: a mistura é usada em casa para tentar diminuir o chulé e amaciar a pele grossa, mas o efeito comprovado é limitado. Um estudo de laboratório mostra ação do bicarbonato de sódio contra fungos em placa de cultura, e as orientações da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) para o mau cheiro nos pés não citam o pó: falam em secar bem, arejar e tratar a causa.
O cuidado maior vale para quem transforma o banho em hábito diário e demorado e, principalmente, para quem tem diabetes.
Em resumo:

- Em laboratório, o bicarbonato freou o crescimento de fungos que causam micose de pele e de unha, mas o teste não foi feito em pés de pessoas.
- A solução de bicarbonato é alcalina, enquanto a superfície da pele é ácida; pele com pH acima de 5 tende a ter barreira pior e mais descamação.
- Para o chulé, a SBD indica arejar e secar os pés, ventilar os calçados e usar desodorantes ou talcos próprios; casos persistentes pedem dermatologista.
- Quem tem diabetes deve evitar deixar os pés de molho.
O bicarbonato tem ação contra fungos comprovada só em laboratório
Um estudo sobre o tema foi feito por pesquisadores franceses e publicado na revista Mycopathologia (2012 na versão on-line, 2013 na impressa). Eles testaram o bicarbonato de sódio contra 70 amostras de fungos que causam infecções superficiais, como os dermatófitos responsáveis pela frieira e pela micose de unha.
Na concentração de 10 gramas por litro, o pó inibiu o crescimento de 80% das amostras na placa de cultura. Em outra etapa, com 24 materiais retirados de pacientes infectados, o crescimento parou totalmente em 79% dos casos depois de sete dias. Os próprios autores escrevem que o mecanismo de ação ainda precisa ser estudado.
O resultado tem limites claros. Fungo em placa de laboratório não é o mesmo que fungo instalado entre os dedos ou embaixo da unha, e o estudo não testou o banho de bacia em pessoas. Por isso, o bicarbonato não substitui o antifúngico indicado pelo médico. A página da SBD sobre micoses orienta procurar ajuda médica na suspeita de micose e lembra que o tratamento das tineas usa antifúngicos locais ou orais.
O chulé vem de bactérias e de suor, e a SBD indica outras medidas
O cheiro forte nos pés tem nome médico: bromidrose. Segundo a SBD, o tratamento é decidido caso a caso e mira as bactérias que vivem na pele das regiões quentes do corpo, às vezes com produtos receitados, inclusive antibiótico tópico. A entidade recomenda consulta assim que o odor passa a incomodar.
Em um texto de orientação publicado no site da SBD, o dermatologista Jorge Mariz, então membro da entidade, explicou que o ambiente úmido dos sapatos fechados favorece as bactérias que geram mau cheiro. “Algumas pessoas têm tendência à bromidrose porque suam mais e o calçado torna esse efeito ainda maior”, disse ao site da sociedade. As recomendações dele para driblar o problema:
- arejar os pés o máximo possível;
- secá-los bem depois do banho;
- deixar botas, tênis e sapatilhas todos os dias em lugar ventilado ou com sol;
- usar desodorantes e talcos específicos, que servem como prevenção e tratamento.
Na mesma orientação, o dermatologista fala da pele grossa e dos calos: o tratamento usa, com prescrição, produtos com ácido salicílico ou ureia, e a esfoliação deve ser suave, semanal ou a cada 15 dias. “Se esfoliar com muita intensidade, pode prejudicar, deixando-os grossos”, afirmou.
A água com bicarbonato é alcalina, e a pele saudável é ácida
A Farmacopeia Brasileira, publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), fixa em até 8,6 o pH de uma solução de bicarbonato de sódio a 5%, ou seja, uma água alcalina. A pele funciona no sentido oposto.
Um estudo com 330 voluntários publicado no International Journal of Cosmetic Science estimou o pH natural da superfície da pele em cerca de 4,7. Os autores observaram que a pele com pH abaixo de 5 tinha barreira melhor, mais hidratação e menos descamação, e que até a água da torneira eleva o pH da pele por até seis horas.
A pesquisa não testou bicarbonato, mas ajuda a entender por que banhos alcalinos longos e frequentes podem deixar a pele dos pés mais seca e áspera. A SBD também lista, entre os hábitos de prevenção de micoses, evitar o contato prolongado com água e sabão e secar muito bem os dedos dos pés.
Quem tem diabetes deve evitar deixar os pés de molho
A cartilha de cuidados com os pés do paciente diabético do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio Grande (HU-Furg), da rede Ebserh, é direta: lavar os pés todos os dias com sabão neutro e água morna, nunca quente, e evitar colocá-los de molho, porque isso pode causar ressecamento. A mesma cartilha manda enxugar muito bem entre os dedos e hidratar os pés com creme diariamente, sem passar o produto entre os dedos. Para esse público, a orientação é evitar também o talco, que pode ressecar a pele.
Como usar o banho de pés sem atrapalhar a pele
- Use água morna, nunca quente.
- Prefira banhos curtos e ocasionais, e não diários.
- Seque bem, sobretudo entre os dedos, e passe hidratante na sola e no calcanhar.
- Se o chulé, a descamação ou a coceira continuarem, a causa pode ser micose ou suor excessivo, que têm tratamento específico.
O truque caseiro pode dar sensação de frescor, mas o que controla o chulé, segundo a orientação dermatológica, é manter pés e calçados secos e tratar a causa. Para dúvidas sobre o seu caso, sobretudo com diabetes, feridas ou mau cheiro que não passa, procure um dermatologista ou outro profissional de saúde.
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Informações conferidas em 29 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



