Uma vaca da raça Nelore deu à luz quatro bezerros de uma só gestação, dois machos e duas fêmeas, numa fazenda de gado de corte em Maria Helena, no noroeste do Paraná. O caso foi divulgado pela imprensa regional na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, quando os animais tinham cerca de dois meses e estavam saudáveis. Pelos números da literatura veterinária, um parto assim aparece em poucos casos a cada 100 mil nascimentos de bovinos.
Quem acompanhou tudo foi o administrador da fazenda, Claudemir Ricardo. “Na hora do parto, todos ficamos surpresos”, contou. “Quando tirei o terceiro e o quarto, todo mundo ficou em choque.” Segundo o relato publicado, os quatro mamam na mãe e também recebem mamadeira.
Quatro bezerros de uma vez é um evento de poucos casos em 100 mil partos
A vaca é considerada uma espécie unípara: o normal é um bezerro por gestação. Um relato de caso de pesquisadores da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), publicado em 30 de junho de 2026 na revista Ars Veterinaria, resume a frequência de gêmeos: menos de 1% das gestações em vacas de corte e em vacas de leite de menor produção, e de 3% a 5% em vacas leiteiras de alta produção.

Acima de dois, os números despencam. Um artigo de pesquisadores argentinos publicado em 2020 na revista científica Reproduction in Domestic Animals afirma que gestações de trigêmeos representam 0,015% dos nascimentos de bovinos, e as de quadrigêmeos, 0,004%. Na prática, são cerca de 4 partos com quatro bezerros a cada 100 mil, ou 1 em 25 mil.
A explicação mais comum é a vaca liberar vários óvulos ao mesmo tempo
Gestações múltiplas em bovinos têm origem, na maior parte das vezes, na ovulação de mais de um folículo do ovário, como explica o relato da UENP. Cada óvulo fecundado vira um bezerro diferente, por isso os quatro podem ter sexos distintos, como em Maria Helena.
A fazenda paranaense usa a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), um protocolo com hormônios que sincroniza o cio do rebanho. O veterinário Jefferson Silvestre levantou a hipótese de uma superovulação: “Não foi feito propositalmente. Ela teve uma resposta natural exagerada ao protocolo”. Os próprios estudos reconhecem esse efeito. Pesquisadores europeus que analisaram gêmeos num grande rebanho leiteiro, em artigo publicado na revista Animals, excluíram vacas sincronizadas com hormônios justamente porque isso pode aumentar a chance de gestação múltipla.
O relato da UENP cita trabalhos em que a gestação com quatro fetos apareceu em 0,5% a 1% das vacas tratadas com gonadotrofinas, hormônios usados para estimular a ovulação. O caso descrito pelos pesquisadores paranaenses, porém, mostra que nem sempre há essa ligação direta: a vaca, uma mestiça Angus com Nelore de Avaré (SP), passou por IATF sem o hormônio eCG e ainda assim gerou quatro machos.
Existe também um caminho bem mais raro, quando um único embrião se divide. Foi o que os pesquisadores argentinos confirmaram por DNA numa vaca Braford, que teve quadrigêmeos idênticos em monta natural, sem nenhum tratamento hormonal. Segundo eles, só cerca de 5% a 14% dos gêmeos bovinos são idênticos.
O útero da vaca tem limite, e cada bezerro a mais aumenta o risco
Um estudo de um centro de pesquisa em produção animal do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), publicado em 1992, levantou a hipótese de que o útero bovino tem uma capacidade máxima de fetos e, ao contrário do da porca, não consegue reabsorver só os excedentes. Quando há fetos demais, a gestação inteira corre perigo.
Os números reunidos pela UENP mostram o tamanho do problema:
- perdas de cerca de 35% em gestações de trigêmeos, comparadas às de um só bezerro, entre 42 e 72 dias;
- queda de 20% a 30% na sobrevivência dos recém-nascidos em gestações de três a quatro fetos;
- peso ao nascer em geral 25% menor que o de bezerros nascidos sozinhos;
- mais partos difíceis e retenção de placenta nas vacas com gêmeos.
No caso de Avaré, a gestação durou 301 dias e o parto levou cerca de cinco horas. Os dois primeiros bezerros nasceram sem ajuda e os dois últimos precisaram ser puxados manualmente. Todos mamaram o colostro, sobreviveram e foram desmamados aos 10 meses.
Bezerras nascidas junto com machos podem ter problema de fertilidade
Há ainda um detalhe que interessa a quem cria gado. Quando uma fêmea divide o útero com um irmão macho, a troca de sangue pela placenta pode comprometer seus órgãos reprodutivos, condição chamada de freemartinismo. Um relato de caso da Embrapa Clima Temperado aponta que essa má-formação aparece em torno de 90% das fêmeas nessa situação.
Por isso, bezerras nascidas com machos costumam ser avaliadas por um veterinário antes de virarem matrizes. Em Maria Helena, o destino já está traçado: segundo Claudemir, depois do desmame os quatro “já poderão ser comercializados para recria”.
Para o produtor, a lição é prática: o diagnóstico de gestação por ultrassom e o acompanhamento veterinário no parto fazem diferença quando a barriga da vaca sai do padrão, como mostrou o caso de Avaré, em que os dois últimos bezerros só nasceram com ajuda.
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Informações conferidas em 29 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



