ECONOMIA

Digimais: Banco de Edir Macedo obteve aval do BC de Campos Neto para operar, e sócio de Vorcaro tentou comprar, diz PF

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Por PLÍNIO TEODORO, Revista Fórum
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Publicado em 24/06/2026 às 08:41

Alterado em 24/06/2026 às 08:48

Edir Macedo com Jair Bolsonaro e aliados na ritual da 'arca sagrada' no Templo de Salomão, da Igreja Universal, em São Paulo Foto: reprodução

Alvo da Operação Miragem, desencadeada nesta terça-feira (23) pela Polícia Federal, o Digimais foi autorizado a operar em 2020, durante a gestão de Roberto Campos Neto na presidência do Banco Central. O aval foi dado 11 anos após a instituição, chamada até então como Banco Renner, ter sido comprada e ficar sob o comando de Edir Macedo, líder da Igreja Universal e do grupo Record, e da esposa dele, Ester Bezerra.

A informação, que consta no relatório da Polícia Federal, revela que o caso foi semelhante ao do Banco Master, que obteve aval em 2019 do mesmo BC de Campos Neto para passar a operar, dois anos após Daniel Vorcaro comprar o Banco Máxima.

“Com efeito, o processo de alteração na composição societária da instituição teve início em outubro de 2009, ocasião em que o GRUPO RECORD comunicou a aquisição de uma participação correspondente a 40% (quarenta por cento) do capital do banco. A formalização desta operação de ingresso de novos acionistas obteve a confirmação do Banco Central do Brasil no ano de 2013 (quando foi adquirido o montante de 49% do capital da instituição, e não os 40% anunciados), registrando-se a participação de EDIR MACEDO BEZERRA e de sua esposa, ESTER BEZERRA, na qualidade de investidores com domicílio no exterior. A transição para o controle societário total ocorreu no ano de 20205, momento em que houve a aquisição da parcela remanescente das ações, culminando na saída dos fundadores da estrutura de administração da entidade”, diz o documento, assinado pelo delegado Daniel Penido de Britto.

Na representação, o delegado ainda afirma que “o BANCO DIGIMAIS, sob o controle de EDIR MACEDO, adotou práticas financeiras temerárias e estreitamente análogas às do extinto BANCO MASTER”, como a emissão de CDBs com taxas acima do mercado.

Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro, também teria tentado comprar o banco do grupo de Edir Macedo.

“O relatório também destaca que, em janeiro de 2025, houve uma tentativa de aquisição da instituição por MAURÍCIO ANTONIO QUADRADO, ex-sócio e executivo egresso do BANCO MASTER, por intermédio da holding BLUEBANK, tendo esta operação sido vetada pelo Banco Central do Brasil em virtude dos riscos relevantes associados ao histórico e aos vínculos do proponente”, diz o texto.

BTG Pactual
Conforme a Fórum noticiou, a PF destaca que o BTG Pactual também tentou fechar um acordo para comprar o Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo bispo Edir Macedo. O negócio, anunciado ao mercado em 9 de abril, consolida um modelo de salvamento bancário que ganha força no Brasil: a transferência da “parte boa” de um banco asfixiado para um gigante do setor, com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) atuando na retaguarda para absorver o impacto e viabilizar a transação.

A operação repete a mesma engenharia financeira desenhada após o recente derretimento do Banco Master. Ativos saudáveis e carteiras rentáveis mudam de mãos, enquanto o risco sistêmico e a parcela tóxica do balanço encontram amparo no suporte institucional do fundo para evitar uma quebra generalizada.

O Digimais respirava por aparelhos e já era monitorado de perto pelas autoridades monetárias. Conforme revelou a Fórum em fevereiro, Edir Macedo foi forçado a injetar R$ 250 milhões de seu próprio patrimônio na instituição. A manobra emergencial tentou blindar o banco das exigências de capital do sistema financeiro e conter o contágio gerado pela crise do Master. O fôlego milionário, contudo, não sustentou as portas abertas por mais de dois meses.

A entrada do BTG não é uma simples compra de oportunidade no livre mercado. Em janeiro, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou novas regras que permitiram ao FGC atuar diretamente na transferência de controle de bancos à beira do colapso, evitando o trauma de uma intervenção federal.

O fundo deixa de ser apenas um pagador de seguros para correntistas e passa a viabilizar negócios para os grandes atores do mercado. O suporte pode envolver o alongamento de prazos para o pagamento de dívidas ou o oferecimento de linhas de liquidez. Na prática, é uma estrutura que barateia drasticamente a compra para o BTG e evita o impacto de uma liquidação extrajudicial clássica.

O foco estratégico do negócio reside na escolha do que é absorvido. O Banco Digimais, que operava sob a alcunha de Banco Renner no passado, detém uma fatia considerável e rentável no financiamento de veículos automotores. Para o BTG, que avança agressivamente sobre o crédito de varejo, herdar essa base de clientes ativos representa um atalho altamente lucrativo.

O banco de André Esteves consolida sua posição absorvendo o “filé” do Digimais, enquanto as pontas soltas da gestão que levou a instituição de Edir Macedo ao limite são diluídas no grande acordo chancelado pelo mercado.

Como o FGC atua sob a fiscalização rígida do Banco Central do Brasil (BCB), a transação exige a aprovação do Estado. O comunicado oficial aos investidores confirma que o negócio depende da chancela da autoridade monetária e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que avalia concentrações de mercado.

As regras do CMN exigem ainda a abertura formal para o recebimento de propostas concorrentes. Trata-se de um rito procedimental para dar transparência e competitividade ao repasse de ativos socorridos pelo sistema, embora o BTG já desponte como o controlador natural. Reforçando a opacidade típica dessas operações, o valor final da transação é mantido em absoluto sigilo pelas partes.

R$ 250 milhões do próprio bolso
Alvo de suspeitas em meio ao escândalo do Master, o Clava Fort Bank, de André Valadão, da Igreja da Lagoinha, não é a única instituição financeira ligada a pastores midiáticos a ser tragada pelas investigações na Faria Lima. Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, teve que tirar R$ 250 milhões do próprio bolso para evitar que seu banco, o Digimais, entre em colapso.

O aumento de capital visa blindar o banco de uma investigação do Banco Central, já que a instituição do pastor, dono da Record, está com um capital próprio de 6,35%, segundo dados de setembro. O Digimais também teria um índice de capital – ativos do controlador – abaixo da média do mercado, que fica sempre acima dos 12%.

Sócio de Macedo, Roberto Campos Marinho Filho diz que o Digimais teve um prejuízo de cerca de R$ 500 milhões ao aceitar papéis podres do da Fictor, da Reag e do Banco Master como lastro de participação no fundo de investimento EXP1.

Os títulos das instituições, que quebraram com as investigações sobre a organização de Daniel Vorcaro, foram usados pelo banco de Edir Macedo para comprar 80% do fundo. Marinho, que é dono da Yards Capital, ficou 20%.

A Yards é a gestora do fundo, que foi à bancarrota após o estouro do Banco Master, e entrou com ação judicial para que Edir Macedo compre a carteira de R$ 462,2 milhões do fundo para cobrir o rombo.

O líder da Universal usou R$ 316,6 milhões em títulos podres do Master e da Reag, fundo que é controlado pelo também pastor Fabiano Zettel, da Igreja da Lagoinha – de Valadão, que é cunhado de Vorcaro.

Os outros títulos seriam do Fictor, que é investigado por participar do ecossistema do Banco Master.

Antigo Banco Renner, o Digimais foi comprado pela holding do pastor evangélico Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e dono da RecordTV.

Macedo planejava vender a instituição, que já tinha um comprador definido. A proposta seria justamente do Bluebank, de Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. A negociação emperrou diante das investigações do escândalo.

Em 2025, o Nubank, que tem na direção Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, chegou a sondar o banco de Edir Macedo. Mas, desistiu da aquisição diante da avalanche que viria logo adiante.

 

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