MEIO AMBIENTE

Comunidades vulneráveis criam soluções contra a crise climática

Relatório mostra iniciativas em vários estados e alerta para a dificuldade de acessar recursos para adaptação

Por JB AMBIENTAL
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Publicado em 31/07/2026 às 16:51

Alterado em 31/07/2026 às 16:51

Temporal em São Paulo Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

As populações mais afetadas por enchentes, secas e ondas de calor no Brasil são também as que encontram mais barreiras para acessar políticas públicas e recursos de adaptação. Segundo o relatório As soluções dos territórios: Adaptação Climática Baseada em Comunidades, elaborado pelo Greenpeace Brasil com apoio do Laboratório de Estudos do Clima e do Ambiente (UERJ) e da Brisa Soluções Ambientais, essas comunidades não apenas sofrem os impactos da crise, como também vêm construindo respostas próprias para enfrentá-la.

Comunidades negras, indígenas, quilombolas, periféricas e rurais estão entre as mais expostas aos eventos extremos. Para o Greenpeace, a crise climática precisa considerar desigualdades históricas de acesso à moradia, saneamento, saúde, mobilidade e infraestrutura, já que é justamente nesses territórios que os danos tendem a se concentrar com mais força.

Exemplos de soluções já em prática

O relatório reúne experiências de diferentes regiões do país para mostrar que a adaptação pode nascer dos próprios territórios. Em Macapá, no Amapá, o Coletivo Utopia Negra atuou com a comunidade da Vila do Carmo do Maruanum para instalar uma fossa séptica biodigestora, tecnologia de baixo custo que trata o esgoto por biodigestão e reduz a contaminação do solo e da água em áreas alagáveis.

No Rio de Janeiro, a comunidade do Horto desenvolve ações por meio do projeto Horto Natureza, com mutirões de limpeza, plantio de árvores e educação ambiental. A iniciativa ajudou a garantir coleta regular de lixo, saneamento básico e a despoluição do Rio dos Macacos, resultado de um processo de organização comunitária e parceria com autoridades públicas.

Em Recife, a Vila Arraes construiu um plano comunitário de contingência, adaptação e mitigação dos efeitos das chuvas, com apoio do Espaço GRIS Solidário e da Universidade Federal de Pernambuco. A comunidade também recebeu formações com a Defesa Civil sobre emergências durante enchentes do Rio Capibaribe e riscos de eletrocussão.

Impactos nas cidades e no campo

O documento cita ainda o avanço dos impactos climáticos em diferentes territórios. Em Recife, comunidades como Ilha de Deus, Coque e Mustardinha enfrentaram alagamentos severos nos últimos anos. Em Belém e na Ilha do Marajó, a combinação entre enchentes, marés altas, falta de drenagem e saneamento afeta principalmente povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas.

No Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, as temperaturas internas das moradias podem ficar até 8°C acima da média urbana, com sensação térmica superior a 60°C. Já no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, comunidades quilombolas convivem com longos períodos de estiagem, que prejudicam cultivos como milho, feijão e mandioca e afetam diretamente a segurança alimentar.

Falta de recursos ainda limita a adaptação

Apesar das experiências bem-sucedidas, o relatório aponta que um dos maiores entraves é o acesso ao financiamento. De acordo com o Greenpeace, a maior parte dos recursos da agenda climática chega por instrumentos de crédito, o que dificulta a participação de comunidades e organizações locais. A burocracia para elaborar, submeter, gerir e prestar contas de projetos também aparece como uma barreira importante.

A organização defende que ampliar a adaptação climática não depende apenas de mais verba, mas de uma mudança no modelo de distribuição dos recursos. A proposta é garantir acesso direto às comunidades, fortalecer iniciativas que já funcionam nos territórios e transformar soluções locais em políticas públicas de alcance nacional.

Autoridade Climática pode ser um passo nesse sentido, assim como o debate sobre justiça climática nas cidades.

Especialistas já alertam que ondas de calor e chuvas fortes podem durar mais com a mudança climática, enquanto a saúde de pessoas vulneráveis já é afetada pelo aumento das temperaturas.

Em resposta, cresce a pressão por medidas urgentes, como mostram os países mais vulneráveis e as propostas de adaptação baseada em ecossistema.

O tema também aparece em discussões mais amplas sobre vulnerabilidade no Norte e Nordeste e sobre a necessidade de resposta internacional à crise. (com Agência Brasil)