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Quem é Karina Ferreira da Gama, elo entre os R$ 108 milhões da Prefeitura de SP e o filme de Bolsonaro
Por JORNAL DO BRASIL com Revista Fórum
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Publicado em 17/05/2026 às 08:59
Alterado em 17/05/2026 às 09:19
Karina Ferreira da Gama
Foto: reprodução/redes sociais
Por Henrique Rodrigues - As complexas investigações que cruzam os gabinetes de alta relevância da política nacional, os órgãos de controle do estado de São Paulo e o sistema financeiro transnacional ganharam uma personagem central. O nome de Karina Ferreira da Gama, até pouco tempo restrito aos bastidores de editais públicos e pequenas produtoras, converteu-se no ponto de inflexão de um dos maiores escândalos políticos e financeiros dos últimos anos. Ela surge como o elo definitivo entre um contrato de R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura de São Paulo e a opaca estrutura de captação de recursos para “Dark Horse”, a cinebiografia rocambolesca multimilionária voltada a recontar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Reportagens publicadas por inúmeros veículos nos últimos meses, inclusive pela Fórum, passaram a lançam luz sobre uma sofisticada engenharia de CNPJs comandada por Karina. Sob o manto de atuações sociais, educacionais e de conectividade digital, a empresária edificou uma rede corporativa que agora é alvo de pente-fino do Ministério Público de São Paulo e do Supremo Tribunal Federal. A suspeita que move os investigadores é contundente: uma estrutura pública de conectividade na maior metrópole da América Latina pode ter servido de base operacional e fluxo de caixa para um projeto cinematográfico de viés ideológico financiado, em parte, por capitais sob profunda suspeita criminal.
Teia de CNPJs: O ecossistema corporativo de Karina
Para compreender o alcance das investigações, é imperioso dissecar o ecossistema de entidades e empresas que orbitam em torno de Karina Ferreira da Gama. Longe de operar de forma isolada, a empresária utiliza um mosaico de pessoas jurídicas que compartilham os mesmos endereços físicos, sócios e procuradores, transitando com extrema fluidez entre o terceiro setor, a prestação de serviços tecnológicos e o mercado audiovisual internacional.
Instituto Conhecer Brasil (ICB)
Esta é a principal ferramenta jurídica de Karina em solo nacional. Registrado formalmente como uma associação privada sem fins lucrativos, o Instituto Conhecer Brasil apresenta-se institucionalmente como uma Organização Não Governamental (ONG) voltada ao desenvolvimento educacional, tecnológico e de inclusão social. Presidido diretamente por Karina, o ICB converteu-se na plataforma ideal para a celebração de vultosos convênios e contratos com a administração pública, mesmo sem possuir um histórico consolidado no mercado de telecomunicações ou um corpo técnico robusto de engenharia de redes.
GoUp Entertainment Ltda e GoUp Entertainment LLC
A marca GoUp representa o braço comercial e de entretenimento do grupo. No Brasil, a GoUp Entertainment Ltda está sediada no mesmo endereço físico do Instituto Conhecer Brasil: um edifício comercial de alto padrão na Avenida Paulista, coração financeiro de São Paulo. Cruzando fronteiras, a empresa ganha corpo na Flórida, EUA, sob a razão social GoUp Entertainment LLC. Nesta subsidiária norte-americana, Karina Ferreira da Gama divide a sociedade com o brasileiro naturalizado norte-americano Michael Brian Davis. A GoUp LLC é, legalmente, a produtora principal responsável pelo desenvolvimento de “Dark Horse”, servindo como a gaveta jurídica internacional para a recepção dos investimentos captados no exterior.
Conhecer Brasil Assessoria e Academia Nacional de Cultura
Completando a periferia da teia, figuram a Conhecer Brasil Assessoria e a Academia Nacional de Cultura. Esta última entrou de forma incisiva no radar das autoridades federais ao ser identificada como beneficiária final de repasses provenientes de emendas parlamentares federais emitidas por deputados radicalíssimos da ala mais ideológica do Partido Liberal (PL). De acordo com as representações enviadas aos órgãos de fiscalização, estas quatro entidades atuam de maneira coordenada, configurando um grupo econômico unificado sob comando único, desenhado para pulverizar o trânsito de capital e camuflar o rastreamento do fluxo de caixa.
O Imbróglio dos R$ 108 milhões na capital paulista
Muito antes de o nome de Karina Ferreira da Gama ser associado à biografia do clã Bolsonaro, suas operações já despertavam severas suspeitas de irregularidades nos órgãos de fiscalização paulistanos. O capítulo mais ruidoso dessa engrenagem envolve a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) da Prefeitura de São Paulo, sob a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
No ano passado, o Instituto Conhecer Brasil, capitaneado por Karina, sagrou-se vencedor de um chamamento público emergencial destinado à implementação, expansão e manutenção de 5 mil pontos de wi-fi gratuito na capital, um programa de forte apelo político em ano eleitoral. O valor total do contrato foi fixado na marca de R$ 108 milhões.
A contratação, contudo, ignorou os sucessivos alertas emitidos pelo corpo técnico do Tribunal de Contas do Município (TCM). Auditorias oficiais apontaram que o edital da prefeitura seguiu adiante mesmo após o TCM ter identificado pelo menos 20 graves inconsistências e irregularidades no desenho do certame, incluindo a ausência de ampla concorrência e a total falta de exigência de comprovação de capacidade técnica prévia por parte da entidade vencedora. O ICB, historicamente vocacionado a projetos genéricos de cunho cultural e pedagógico, foi a única entidade a apresentar proposta para gerenciar uma complexa e estratégica infraestrutura urbana de telecomunicações.
As investigações subsequentes revelaram que a execução do contrato passou a apresentar profundas distorções orçamentárias:
Descumprimento de metas: O plano de trabalho estipulava a entrega e pleno funcionamento de 5 mil pontos de acesso. Contudo, relatórios de fiscalização constataram que o ICB conseguiu instalar pouco mais de 3.200 roteadores, deixando as franjas periféricas da cidade desassistidas.
Superfaturamento por aditivos: Pelo cronograma físico-financeiro original, o instituto deveria receber cerca de R$ 43 milhões pela manutenção proporcional dos equipamentos efetivamente entregues. Todavia, por meio de três termos aditivos que alteraram prazos e regras de desembolso, a gestão municipal repassou à ONG de Karina o montante de R$ 69 milhões, uma diferença inexplicada de R$ 26 milhões pagos a mais por um serviço entregue de forma deficitária.
Os valores praticados pela administração municipal com o ICB superavam o dobro do que a prefeitura pagava anteriormente a grandes operadoras privadas do setor de telecomunicações para o mesmo tipo de serviço. O caso ensejou uma representação formal ao MPSP por parte de parlamentares de oposição, que culminou na abertura de um inquérito civil público por improbidade administrativa contra a cúpula da Secretaria de Inovação e o prefeito.
A conexão com Dark Horse e o fluxo transnacional
O ponto em que a história de Karina deixa de ser um caso de suposta improbidade municipal e ganha os contornos de um escândalo nacional reside na sobreposição cronológica e financeira entre as verbas do wi-fi paulistano e a produção de Dark Horse. Investigadores do MPSP e da Polícia Federal trabalham com a hipótese de que a estrutura do Instituto Conhecer Brasil funcionou como uma espécie de base de sustentação e fluxo de caixa indireto para a GoUp Entertainment. A confusão patrimonial e operacional é evidenciada pelo compartilhamento do mesmo quartel-general na Avenida Paulista.
O projeto cinematográfico, com um orçamento estimado na impressionante faixa de US$ 23 milhões a US$ 26 milhões, montante que rivaliza com grandes produções de Hollywood, transformou-se em um balcão de negócios internacional. De acordo com os documentos obtidos pelo The Intercept Brasil, a estrutura para captar esses recursos consistia na oferta de cotas de investimento de 500 mil dólares.
Para atrair grandes fortunas, a equipe de produção desenhou pacotes VIP com regalias inéditas no mercado de cinema:
O investidor que aportasse 1 milhão de dólares garantia um assento no conselho de produção, auferindo o poder de vetar e influenciar decisões criativas.
O pacote mais controverso, tabelado em 1,1 milhão de dólares, trazia como grande atrativo uma promessa explícita de “oportunidade de imigração”, vendendo o aporte financeiro no filme como um atalho legal para empresários estrangeiros obterem o visto de residência permanente (Green Card) nos EUA.
É nesse cenário de cifras astronômicas que surge o papel do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Atualmente detido preventivamente em Brasília sob a acusação da PF de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras que somam R$ 12 bilhões, Vorcaro comprometeu-se a aportar US$ 24 milhões no projeto do clã Bolsonaro. Desse montante negociado, pelo menos R$ 61 milhões (US$ 10,6 milhões) foram efetivamente pagos entre fevereiro e maio de 2025, por meio de seis operações internacionais estruturadas.
A rota desse dinheiro deveria ter um destino claro: a sede da GoUp Entertainment LLC, na Flórida. Os valores transitavam por meio da empresa Entre Investimentos e Participações e eram depositados nas contas do Havengate Development Fund LP, um fundo de investimentos estruturado no Texas, cujo agente legal registrado é o escritório do advogado Paulo Calixto, responsável pelo processo imigratório da família Bolsonaro nos EUA.
O problema é que a defesa de Karina Ferreira da Gama nega peremptoriamente qualquer recebimento de verbas oriundas de Vorcaro, afirmando que os investidores da GoUp LLC são empresas estritamente norte-americanas e resguardadas por sigilo contratual. A empresária sustenta que as negociações diretas feitas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro do Master constituíam apenas “iniciativas informais de um filho em busca de patrocínio”, que jamais teriam ingressado nas contas oficiais da produtora.
Nova bomba: Eduardo Bolsonaro na gestão do dinheiro
O cenário, que já se apresentava altamente complexo e desfavorável para Karina, sofreu uma guinada definitiva com a revelação trazida com exclusividade pelo portal The Intercept Brasil. Documentos contratuais com assinaturas digitais válidas desmoronaram a tese de que a família do ex-presidente mantinha apenas um vínculo de imagem com a produção.
O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) foi identificado formalmente como o produtor-executivo de Dark Horse, assumindo plenos poderes legais e administrativos sobre a gestão financeira do projeto. O contrato de produção, datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo em 30 de janeiro de 2024, coloca o parlamentar na cabine de comando do orçamento, dividindo a função com o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e com a própria GoUp Entertainment de Karina. Ou seja, há ligação entre a produtora e as funções atribuídas a Eduardo Bolsonaro, suspeito de ser o destino final dos milhões liberados por Vorcaro.
A assinatura eletrônica de Eduardo Bolsonaro chancela sua responsabilidade direta sobre a elaboração de portfólios para investidores e a tomada de decisões estratégicas sobre como os recursos seriam captados e gastos. Mais do que isso, minutas contratuais de fevereiro de 2024 qualificam Eduardo sob a condição expressa de financiador do filme, autorizando o manejo de recursos por ele investidos.
O envolvimento do filho “zero dois” na engenharia financeira internacional ficou materializado em trocas de mensagens datadas de março de 2025, interceptadas pelas investigações. Em diálogo com o empresário Thiago Miranda, que atuava como intermediário junto ao banqueiro Daniel Vorcaro, Eduardo demonstra profunda imersão nos mecanismos de trâmite de divisas estrangeiras:
'O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos. Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?', diz Eduardo Bolsonaro no trecho de diálogo revelado pelo The Intercept Brasil.
A cronologia das mensagens coincide com o exato período em que Eduardo anunciou seu afastamento temporário da Câmara dos Deputados para fixar residência nos EUA, sob o argumento de articular sanções políticas internacionais. Os dados sugerem que a movimentação do parlamentar cassado em solo norte-americano estava umbilicalmente ligada à supervisão dos repasses milionários gerenciados pela estrutura internacional montada por Karina Ferreira da Gama.
O cerco de Brasília e o triângulo de emendas
Enquanto o Ministério Público de São Paulo aperta o cerco em torno dos R$ 108 milhões do Wi-Fi, o Supremo Tribunal Federal abriu uma frente de combate focada no desvio de finalidade de emendas parlamentares que abasteciam a rede de Karina. Sob a relatoria do ministro Flávio Dino, o STF investiga o direcionamento de verbas orçamentárias federais carimbadas por deputados da bancada bolsonarista para o Instituto Conhecer Brasil e para a Academia Nacional de Cultura.
O principal foco da Suprema Corte recai sobre o deputado Mario Frias, sócio-parceiro de Eduardo Bolsonaro na produção-executiva do filme. Frias destinou pelo menos R$ 2 milhões em emendas parlamentares federais diretamente para o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina. O fato de o parlamentar destinar dinheiro público para uma entidade cuja proprietária gerencia a produtora de seu filme nos EUA levantou suspeitas imediatas de triangulação ilícita de capitais.
A gravidade do quadro institucional escalou quando o STF confirmou que tenta, há mais de um mês, localizar e intimar formalmente Mario Frias para que ele preste esclarecimentos sobre as irregularidades na execução desses recursos. O parlamentar estaria evitando o recebimento das notificações judiciais.
Enquanto as autoridades avançam no rastreamento das contas e na análise dos contratos, as defesas dos envolvidos tentam desatar os nós jurídicos. Eduardo Bolsonaro recorreu às redes sociais para afirmar que sua participação limitava-se à cessão de direitos de imagem e que o escritório do Texas gerenciava apenas trâmites burocráticos. A assessoria jurídica de Mario Frias nega categoricamente que o deputado tenha recebido qualquer valor decorrente do fundo de investimentos do filme, enquanto Thiago Miranda reforça que sua atuação limitou-se a aproximar pretensos investidores dos interessados.
A reportagem da Fórum entrou em contato com Karina Ferreira da Gama questionando-a sobre as suspeitas que pairam em relação às atividades das empresas e organizações presididas por ela, alvos de investigações do Ministério Público de São Paulo e por parte do Supremo Tribunal Federal, assim como sobre as alegações de que dinheiro da Prefeitura de São Paulo e repasses do banqueiro Daniel Vorcaro teriam sido destinados à produção de “Dark Horse”, presumivelmente passando por contas de suas produtoras. Até o momento não recebemos retorno, mas o espaço segue aberto para que a empresária se manifeste.