Trabalhadores do Comperj fazem manifestação contra empreiteiras no Rio 

Funcionários estão sem receber salários e demitidos não tiveram os direitos trabalhistas respeitados

Cerca de 200 trabalhadores do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro ( Comperj) e representantes da Central Única dos Trabalhadores - CUT/RJ - fazem manifestação na manhã desta quinta-feira (22/1) em frente a sede da Petrobras, na Avenida Chile, no Centro. O ato é para exigir das empreiteiras contratadas pela estatal para as obras no complexo o pagamento dos salários atrasados e rescisões feitas no final do ano passado. 

Desde setembro do ano passado, as construtoras estão dispensando os  seus funcionários no Comperj, sem pagar, no entanto, os direitos trabalhistas, além de estar atrasando os salários dos outros 2.500 que ainda estão contratados, mas em estado de greve. A pior situação é da empresa Alumini, que já possui bloqueio judicial das suas contas bancárias por decisão da Justiça em Pernambuco, onde funciona o Complexo de Abreu Lima, cujo consórcio também vem encontrando dificuldades em manter em dia os salários dos trabalhadores.

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Empregados nas Empresas de Montagem e Manutenção Industrial da Cidade de Itaboraí (Sintramon), Paulo Cesar Quintanilha, o ato desta quinta (22) é para exigir o cumprimento de uma decisão da Justiça do Trabalho em Niterói, que determinou que a empresa Alumini faça o pagamento da terceira parte do acordo trabalhista feito com os funcionários demitidos nos três últimos meses de 2014, além da segunda parcela do décimo terceiro e salário referente ao mês de dezembro daqueles que permanecem com contratos ativos no Comperj. "As empreiteiras estão descumprindo o acordo com a Justiça e tem muito trabalhador passando necessidades. Precisamos de uma decisão urgente", disse.

Quintanilha complementou ainda que a Alumini tinha as contas bloqueadas e, em função disso, não podia fazer os pagamentos. Porém, com a recuperação judicial sacramentada na última terça-feira (20/1), as contas foram desbloqueadas. "Agora, queremos que ela [construtora Alumini] dê prioridade ao pagamento dos trabalhadores", disse. 

Pelas estatísticas do sindicato, cerca de 18 mil trabalhadores de 16 construtoras mantém as atividades no Comperj. Entre elas está a GDK S.A, com 250 empregados, atualmente, mas com uma média de 120 já demitidos no final do ano passado. Já no caso da Alumini, os números apontam para 490 demitidos neste período. No total, uma média de 4.200 pessoas foram dispensadas de setembro até o momento.  

A Petrobras, contratante da Alumina, vai emitir uma nota sobre a situação nas próximas horas. A Polícia Militar reforçou a segurança na entrada da estatal. Cerca de 50 policiais estão no local em viaturas e ônibus da corporação.

Entenda o cenário no Comperj

Desde setembro do ano passado, após as denúncias de corrupção contra a estatal que desencadearam uma forte crise financeira com reflexos nas empreiteiras, os canteiros de obras no Comperj estão sendo esvaziados. O quadro ficou mais evidente no dia seis de janeiro, com o retorno dos trabalhadores do recesso de fim de ano, que teve início em 19 de dezembro. Neste dia, os ônibus que levavam os funcionários até os locais das obras não apareceram no ponto de embarque e o complexo ficou paralisado.  Um dia antes, mais de 200 empregados das empresas foram dispensados, segundo informações do Sintramon. A Associação Brasileira de Empresas de Serviço de Petróleo, com base no Rio de Janeiro, divulgou em dezembro que cerca de 10 mil pessoas já foram demitidas no setor neste período. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos (Dieese) também publicou um estudo preliminar sobre o impacto que uma interrupção nos investimentos da Petrobras pode causar na economia.

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Por causa do corte no fornecimento do transporte para a área interna do complexo, da alimentação, além da falta de pagamento dos salários, funcionários da Alumini resolveram no dia 8 de janeiro iniciar um bloqueio aos canteiros de obra, que durou oito dias. A decisão foi tomada somente depois que o juiz André Correa Figueira, da 1ª Vara do Trabalho de Itaboraí, se reuniu com Paulo Cesar Quintanilha e diretores do sindicato para tratar da questões e buscas soluções. Nesta quinta (22), Quintanilha confirmou que duas reuniões foram realizadas com o juiz e uma terceira estaria acontecendo naquele momento, com o corpo jurídico do sindicato, com o intuito de apresentar um parecer do órgão descrevendo as dificuldades financeiras dos trabalhadores das empresas e pedir que os pagamentos sejam feitos com caráter de urgência, já que foi decretada a recuperação judicial da Alumini.

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O operário Marcos Mendes, de 26 anos, reclama que está com dois meses de aluguel atrasado e deve receber aviso de despejo na próxima semana. "A Alumini não me paga e, assim, não tenho como acertar o aluguel. Para me alimentar e pagar outras contas estou contando com a ajuda de amigos", diz ele. Mendes saiu de Minas Gerais, em 2012, para trabalhar como lixador em obras da empreiteira no Comperj. 

Situação semelhante acontece com outro funcionário da empresa, Diego Silva, de 24 anos, que não sabe como vai pagar os estudos da filha pequena. "No mês que vem as aulas começam. Como vou pagar a mensalidade. Já estou todo enrolado e pagando os juros das contas atrasadas há dois meses", conta. Segundo o soldador demitido pela Alumini, José Domingos, de 44 anos, desde julho a empresa não paga o FGTS dos operários. Domingos conta que, tanto funcionários na ativa quanto os demitidos, estão encontrando grandes dificuldades para pagar as contas e se alimentar. 

De acordo com Quintanilha, o sindicato entregou cestas de alimentos para operários em situação financeira crítica e está negociando com pousadas, onde alguns deles estão hospedados, para pagamento posterior das suas despesas.