"A Polícia Militar não é um balcão de negócios", diz comandante geral da PM

Nesta sexta-feira (26), a cúpula da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro se pronunciou publicamente a respeito das denúncias e prisões de policiais envolvidos em um suposto esquema de propina. É a primeira vez que os oficiais vêm a público comentar o caso. A coletiva, que aconteceu na manhã desta sexta-feira (26) no Quartel General da Corporação – no Centro – , reuniu o comandante geral da PM, coronel José Luís Castro Menezes, o chefe do Estado-Maior Geral Operacional, coronel Paulo Henrique Azevedo de Moraes, e o chefe do Estado-Maior Geral Administrativo, coronel Ricardo Coutinho Pacheco.

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Eles garantiram apoio às investigações que correm no Ministério Público (MP). Para José Luís Castro Menezes, a denúncia de que, entre 2010 e 2011, todos os batalhões pagavam o quantitativo de 15 mil reais de propina ao Estado-Maior, "é uma traição ao comando da corporação e também à sociedade".

Na quinta-feira (25), a 2ª Promotoria de Justiça do Ministério Público do Rio de Janeiro instaurou uma investigação criminal contra a alta cúpula da Polícia Militar, acusada de envolvimento com arrecadação de propina. O suposto envolvimento da chefia da PM foi revelado por um policial preso durante a operação Amigos S/A. Serão investigados o comandante-geral da Polícia Militar, o chefe do Estado-Maior Operacional e o chefe do Estado-Maior Administrativo.

Na semana passada, uma operação reunindo o Ministério Público do Rio e a Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública (SSP) prendeu 24 policiais acusados de corrupção. Entre os presos estava o coronel da PM Alexandre Fontenelle Ribeiro de Oliveira, chefe do Comando de Operações Especiais, a quem estão subordinados os batalhões de Operações Especiais (Bope), de Choque e de Ações com Cães. A partir das investigações, ficou constatado o envolvimento de PMs e civis na cobrança de propina aos comerciantes, empresários e ambulantes da zona oeste da capital fluminense. 

O coronel José Luís Castro Menezes também admitiu, durante a coletiva desta sexta-feira, que foi um erro nomear o capitão Walter Colchone Netto para reassumir o Comando de Operações Especiais (COE), já que Walter chegou a ser preso em 2013 por envolvimento com a máfia de caça-niqueis. O comandante geral da PM ressaltou que Colchone “não poderia ser escolhido". Contudo, em outro momento da entrevista, garantiu cautela na nomeação de oficiais. “Sempre procuramos tomar um cuidado extremo na escolha de todos os comandantes. Esses nomes sempre passaram pelo crivo do sistema de inteligência e, diante do nada opor, essas pessoas eram nomeadas”, falou sobre a escolha de comandantes dos batalhões.

O comandante geral afirmou ainda que as denúncias que correm no MP aconteceram antes de sua administração e disse que foi “surpreendido pelas investigações”. Se defendendo, ele alegou que "houve o vínculo com a atual administração, "como se nós tivéssemos responsáveis pela arrecadação". "No ano de 2010 eu era comandante do Batalhão de Angra dos Reis e nunca meu comandante intermediário, o chefe do Estado Maior ou o comandante geral pediram ou insinuaram que para eu continuar no comando do batalhão eu tivesse que contribuir com R$ 15 mil”.

O coronel Ricardo Pacheco também se defendeu dizendo que, no período investigado, estava servindo na Guarda Municipal.  “Nossos nomes têm sido veiculados, nossas fotografias têm sido exibidas em cadeia nacional. Me causa estranheza eu ser mencionado em um esquema de corrupção, fazendo parte de um esquema de propina, em um período em que o coronel Ricardo Pacheco não estava na PM. Somos plenamente favoráveis à investigação por qualquer órgão. Já colocamos em disponibilidade todos os nossos dados. A hora em que o MP e a CGU [Corregedoria Geral Unificada] solicitarem, podem verificar a nossa evolução patrimonial. Não tenho nada pra esconder”, contestou.

O coronel José Luís Castro Menezes afirmou ainda que determinou a instauração do inquérito. “Minha responsabilidade é mandar apurar essa notícia, senão eu estaria me omitindo. Eu determinei a instauração de um inquérito. A Polícia Militar não é um balcão de negócios”, disse.

Renúncias descartadas

Cumprindo agenda de campanha na manhã desta sexta-feira (26) no Leblon, Zona Sul do Rio, o governador Luiz Fernando Pezão já havia adiantado que manteria José Luís Castro Menezes no comando geral da PM. O político disse que o coronel tem “direito de defesa”. Sobre mudanças no comando da corporação, o governador lavou as mãos. “O secretário Beltrame tem autonomia para escolher seus subordinados”, mas emendou: “Eu não fujo à minha responsabilidade e não vou fugir nunca. Jamais o secretário teve autonomia nesse estado. Chegando na minha mão a investigação, se a pessoa cometeu delitos, a gente tem demitido. Eu não tenho problema de tomar medidas duras.”

Durante a coletiva de imprensa, os oficiais confirmaram as palavras de Pezão e garantiram que não deixarão os cargos. "Todos os nossos dados, sejam eles bancários, patrimoniais, de telefone, estão à disposição. Isso demonstra a nossa total tranquilidade. Nós estamos aqui para reafirmar a nossa crença nas investigações que estão sendo realizadas, porque para nós é uma questão de honra que se demonstre claramente a nossa lisura e o nosso comprometimento com a causa pública", afirmou o coronel Paulo Henrique.

Delação premiada

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O policial militar que delatou um suposto esquema que envolve a cúpula da PM afirma que os batalhões são obrigados a pagar aos superiores quantias diversas. O MP pediu para que a Corregedoria Geral Unificada (CGU) abra um processo administrativo e de sindicância contra o comando do Estado Maior, mas não teve o pedido atendido. O delator, que não foi identificado, afirmou que o ex-chefe do Comando de Operações Especiais (COE), coronel Alexandre Fontenelle recebia parte da propina arrecadada por policiais com empresários  comerciantes e cooperativas da região de Irajá, onde fica o 41º BPM.

* Do Programa de Estágio do JB