Líder comunitário diz que secretaria sabia desde março que Amarildo era ameaçado

"Nada foi feito, nenhuma providência foi tomada e agora o Amarildo sumiu”

Novas revelações no caso do pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido desde o dia 14 de julho da comunidade da Rocinha, Zona Sul do Rio, após ser conduzido por policiais militares para uma revista na UPP do local. O líder comunitário da Rocinha, Carlos Eduardo Barbosa, afirmou nesta quarta-feira, com exclusividade ao JB, que Amarildo já vinha sendo perseguido e ameaçado por policiais da UPP da comunidade desde o início do ano. Segundo Carlos Eduardo, esta denúncia já havia sido feita à Secretaria de Assistência Social do Estado em março. Na ocasião, ele teria sido recebido por uma funcionário que se identificou como Thaís, que anotou numa folha em branco os nomes dos moradores que estavam recebendo ameaças dos PMs, entre eles o de Amarildo de Souza, além das identificações dos policiais. “O policial identificado como Douglas Vital, conhecido como Cara de Macaco, era o que mais implicava com Amarildo", conta Carlos Eduardo, que ainda acrescentou: "Nada foi feito, nenhuma providência foi tomada e agora o Amarildo sumiu.”

A Secretaria de Assistência Social do Estado afirma desconhecer as denúncias de Carlos Eduardo, além de não possuir nenhuma funcionária chamada Thaís. A assessoria de comunicação do órgão disse ainda que ofereceu todos os recursos de segurança à família do pedreiro, como a inclusão no sistema de Proteção à Testemunha e outros benefícios socias, mas até o momento não recebeu nenhum retorno dos familiares.  

O líder comunitário e um dos filhos de Amarildo se reuniram com o subprocurador-Geral de Justiça de Direitos Humanos, Ertulei Laireano, e o procurador-geral, Marfrei Viana, para traçar novas linhas na investigação do caso. Após decorridos mais de 15 dias de investigação por parte de policiais da Delegacia da Gávea, o caso será encaminhado para a Divisão de Homicídios da Policia Civil, e será conduzido pelo delegado Rivaldo Barbosa. Pelo MP, as investigações serão acompanhadas pelo procurador Homero das Neves. Serão analisadas duas hipóteses: o crime ter sido praticado por PMs da UPP ou por traficantes da Rocinha  

A ação no Ministério Público do Estado que vai investigar o caso foi solicitada pelo deputado Estadual Geraldo Pudim (PDT), nesta quarta (31), após visitar a comunidade e conversar com diversas testemunhas das denúncias. Nesta quinta-feira (01/08), nova reunião de trabalho será realizada no MP do Rio, com a nova comissão de investigação, com familiares de Amarildo e amigos da vítima. O filho do pedreiro, Anderson Souza, afirmou que a família só tem duas certezas: "de que o meu pai não está mais vivo e nós não queremos que isso aconteça com mais nenhuma outra família da comunidade", disse ele. Quanto a hipótese de Amarildo ter sido executado por traficantes, Anderson acrescentou: "o meu pai foi levado por policiais militares da UPP". 

Protestos em Copacabana e novas investigações

A ONG Rio de Paz realizou na manhã desta quarta-feira (31) um ato de protesto na praia de Copacabana, em solidariedade à família de Amarildo. Voluntários da Ong  enterraram dez manequins cobertos por um manto branco nas areias da praia, como uma réplica de cemitérios clandestinos que existem em grande quantidade na cidade, segundo o fundador e coordenador do projeto, Antônio Carlos Costa. Amarildo de Souza desapareceu no dia 14 de julho da Rocinha, após passar por uma revista por policiais da UPP no local. Peritos do Instituto Carlos Éboli já colheram material genético de um dos filhos do pedreiro para confrontar com as manchas de sangue encontradas em uma das viaturas da UPP da Rocinha e que podem ser de Amarildo, segundo a polícia.   

>> Corpo encontrado na Rocinha não é de Amarildo 

A mulher de Amarildo, a dona de casa Elisabeth, não esteve presente no ato de protesto do Rio de Paz e nem no Ministério Público. Familiares estão mantendo Elisabeth sob efeitos de sedativos e em local desconhecido. Elisabeth está em estado de choque desde a noite desta terça-feira (30/07), quando foi encontrado um corpo não identificado na parte baixa da comunidade e que poderia ser do pedreiro.