Após estupro, índia quer suspender casamento marcado para janeiro

Traumatizada, ela diz que sente raiva dos homens, inclusive do companheiro com quem vive

A indígena da etnia Pankararu, de 45 anos, que foi estuprada por um segurança da empresa Confederal Rio Vigilância, na madrugada do domingo (23), dentro do Colégio Pedro II, em  São Cristóvão, está de tal forma traumatizada que pensa em desmarcar seu casamento com o companheiro com quem já vive, marcado para o próximo dia 8 de janeiro, conforme revelou ao Jornal do Brasil.

"Não tenho mais vontade de fazer nada, não saio de casa. As brigas com meu marido se tornaram constantes, a nossa relação está abalada. Ele me pergunta se houve estupro ou teve meu consentimento. Estou tomando remédio para depressão todos os dias. Além disso, muitas pessoas ficaram sabendo que sou eu a vítima. É muita vergonha", relatou, demonstrando sinais nítidos de depressão.

O estupro ocorreu durante uma confraternização do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Desde então, segundo relata a vítima, ela se sente a pior mulher do mundo a ponto de ter passado a ter raiva de homens:  

- Cada dia que passou cresceu a minha raiva contra os homens. Tudo que vem deles me irrita, não consigo nem olhar por muito tempo um homem que me dá raiva, confessa.

A índia, que há 12 anos mora no Rio, morava anteriormente em São Lourenço da Mata (PE). Aos 12 anos foi estuprada quando já não estava mais na sua tribo. Dela, foi retirada ainda criança pela mãe, para tentar a vida na cidade.

Na madrugada do dia 23, segundo relata, ela procurava a saída do colégio quando resolveu perguntar o caminho ao vigilante. "Ele foi muito educado, me deu a mão e me conduziu fazendo perguntas sobre a minha tribo. Quando vi que algo estava errado, já estava contra uma parede, num canto escuro", revelou, desmentindo que estivesse bêbada, como divulgou o programa "Balanço Geral", do deputado estadual Wagner Montes (PSD).

"Tudo aconteceu tão rápido que não lembro muito bem da cara dele. A única coisa que lembro era que usava farda, tinha cabelo liso, usava óculos. Além disso, ele dizia: "Não adianta você gritar, você vai morrer de qualquer jeito'", confessou.

O que a salvou de toda esta situação foi o fato de o professor e diretor do Sindicato dos Servidores do Colégio Pedro II (Sindiscop), Alexandre Samis, que a levou para a festa, ter reparado quando ela foi levada para o canto pelo segurança. Por achar estranho, ele acionou outro segurança da mesma firma para chamar o colega pelo rádio, conforme o próprio relatou ao JB.

Quando a indígena conseguiu se desvencilhar do estuprador, foi amparada por  Samis que ao vê-la com a parte de cima da roupa rasgada e a calcinha nas mãos, chamou a Polícia Militar que conduziu o vigilante para a delegacia, levando o professor como testemunha. A prisão em flagrante do vigilante, pelo crime hediondo de estupro de vulnerável, já foi distribuída à 17ª Vara Criminal do Rio. O juiz Luiz Eduardo Cavalcanti Canabarro decretou a prisão preventiva dele, encaminhando-o para a penitenciária de Bangu II.

*Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil