Rocinha: moradores ainda não têm confiança na polícia, dizem especialistas 

A morte do cabo Rodrigo Alves, ocorrida esta semana na Rocinha, alerta para da onda de violência que tem atingido a comunidade. Na terça-feira, uma reportagem do JB mostrou que os moradores da favela se queixavam de que, desde a ocupacao, o clima de  inseguranca havia aumentado na comunidade. Rodrigo Alves foi enterrado nesta quinta-feira, com honras militares.

Para o sociólogo João Trajano da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a normalização da vida na comunidade pode demorar, e é necessário "paciência e firmeza" das autoridades para lidar com os percalços da área. Trajano associa a onda de violência à prisão do antigo chefe do tráfico na comunidade, Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem:

“Sempre que há um episódio em que o chefe morre ou é preso, surge a disputa pelo controle”.

>> Cabo da PM é enterrado com honras militares

Para o sociólogo, a desconfiança dos moradores da Rocinha com a polícia é reflexo de anos em que os policiais, em vez de  neutralizar, perpetuavam o tráfico, ao negociar com os bandidos. O especialista afirma que o problema é desassociar a polícia das práticas tradicionalmente aplicadas.

“Historicamente, existe uma relação muito promíscua entre o tráfico e a polícia. Os moradores não são bobos, testemunham, sabem os antigos pontos de recebimento de propina”, analisa Trajano.

Para Cecília Coimbra, professora de psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente do grupo Tortura Nunca Mais, a imagem da polícia ainda traz insegurança em parte dos moradores porque, na favela, não existia enfrentamento, mas extermínio.

“Psicologicamente falando, o que as ações da polícia produzem na população é medo, terror”, aponta. “Os jovens crescem vendo a morte desde cedo, a violência desde cedo. Assim, você produz um ser violento.”

A psicóloga acredita que é necessário contextualizar a violência nesse momento pelo qual o Rio passa, no qual é empregada a política de extermínio, e o medo é produzido para controlar as pessoas.

“Não acredito que a presença ostensiva da polícia diminua a questão da violência, pois muitas vezes ela é despertada pelos agentes do estado”, analisa. “Crescer rodeado de armas, de bandidos ou policiais, é um péssimo exemplo para os mais jovens”.

Apuração: Renan Almeida