RIO

Maraey em Maricá: projeto de luxo vira foco de disputa ambiental e territorial

Megaempreendimento na restinga reúne promessas de desenvolvimento, mas enfrenta resistência de comunidades tradicionais, pesquisadores e órgãos de controle

Por JORNAL DO BRASIL
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Publicado em 21/07/2026 às 15:45

Alterado em 21/07/2026 às 15:45

[Restinga de Maricá] O terreno conhecido como Fazenda de São Bento da Lagoa foi comprado em 2006 pelo grupo IDB Brasil Désirée Freire/Agência Brasil

O empreendimento Maraey prevê um complexo turístico-residencial de alto padrão na restinga de Maricá, na Região Metropolitana do Rio. O projeto inclui hotéis, residências, equipamentos de lazer e infraestrutura viária, com promessa de investimentos bilionários, geração de empregos e atração de visitantes.

A empresa responsável e a prefeitura defendem a proposta como um modelo de desenvolvimento sustentável. Já críticos afirmam que a obra avança sobre uma região ambientalmente frágil, com espécies ameaçadas, pesquisas científicas consolidadas e comunidades tradicionais que vivem no território há gerações.

Comunidades tradicionais no centro da disputa

Na área do projeto estão a comunidade pesqueira de Zacarias e as aldeias guaranis Mata Verde Bonita e Morada dos Pássaros. Pescadores e indígenas relatam incerteza sobre o futuro, contestam propostas de regularização individual e cobram garantias jurídicas que assegurem permanência e proteção coletiva do território.

As lideranças afirmam que o avanço do empreendimento pode provocar deslocamentos, pressão imobiliária e perda de modos de vida associados à pesca, à agricultura, ao artesanato e às práticas culturais e espirituais. Os moradores também dizem que ainda faltam definições seguras sobre a posse da terra e sobre alternativas apresentadas pelo poder público.

Questionamentos sobre licenças e impactos ambientais

O projeto é alvo de ações judiciais no STJ e no STF, além de pedidos do Ministério Público para impedir ou limitar obras. As contestações atingem o zoneamento da área, o licenciamento ambiental e a atualização dos estudos de impacto, considerados desatualizados por parte dos opositores.

Pesquisadores e entidades ambientais alertam para efeitos sobre fauna, flora, recursos hídricos, dinâmica costeira, sítios arqueológicos e saneamento. Também há preocupação de que a supressão da vegetação de restinga aumente a vulnerabilidade do litoral a ressacas e agrave os efeitos das mudanças climáticas.

O que diz a empresa e o poder público

A Maraey/IDB Brasil afirma que possui licenças ambientais válidas, que o processo seguiu os ritos legais e que o projeto foi ajustado com base em estudos técnicos. A empresa sustenta que apenas uma pequena parcela da área será ocupada por edificações e que o restante será preservado ou recuperado com vegetação nativa.

A prefeitura de Maricá também sustenta que o projeto trará emprego, turismo e regularização fundiária, além de ampliar o apoio às aldeias. Para os críticos, no entanto, a principal questão continua sendo a mesma: como compatibilizar um megaempreendimento privado com um território de alta relevância ambiental, histórica e social.

Restinga de valor científico e histórico

A restinga de Maricá abriga pesquisas acadêmicas, vestígios arqueológicos e fragmentos importantes da história indígena e colonial da região. Especialistas afirmam que a área é um dos últimos grandes remanescentes contínuos desse ecossistema no estado e que sua preservação é estratégica para a ciência e para a memória do litoral fluminense.

Por isso, organizações civis defendem soluções alternativas, como mosaicos de unidades de conservação, reserva extrativista para os pescadores, território coletivo para as aldeias e um parque público voltado a pesquisa, lazer e turismo de baixo impacto. O impasse, porém, segue sem consenso e com novas frentes na Justiça. (com informações de Rafael Cardoso, da Agência Brasil)