Editorial, Jornal do Brasil
RIO - Deve-se chegar a um ponto que una os ministros do Meio Ambiente e de Minas e Energia
A dicotomia entre cuidar rigidamente do meio ambiente e agilizar a concessão de licenças para indústrias e, principalmente, usinas hidrelétricas ganha, por vezes, contornos de disputa pessoal, em que eventuais vitórias colhidas em declarações à imprensa não significam nada além de atraso para o país. No fim de dezembro, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, reuniu-se como seu colega de Minas e Energia, Edison Lobão, depois que, em semanas anteriores, os dois trocaram farpas via mídia por causa do licenciamento da usina de Belo Monte, no Rio Xingu (PA). Segundo Minc, as diferenças estavam aparadas porque as pessoas não brigam, as ideias é que têm de brigar .
Não é bem assim. Ainda que a frase estivesse correta no sentido do que aconteceu, o Brasil em nada tem se beneficiado dessa briga de ideias , na qual pouco ou nada se avança no sentido de conciliar preservação ambiental com progresso. Mas nem no factual o comentário de Minc vale. Prova de que as diferenças estão longe de acabar é a última entrevista do ministro de Minas e Energia à imprensa paulista, na qual Lobão afirma que o Brasil não pode ficar refém dos humores do (Ministério do) Meio Ambiente. (...) Mas, como estamos sujeitos aos humores do Meio Ambiente, podemos ter dificuldades no futuro .
Exagera o ministro quando coloca o país como refém. Mas é válido seu alerta de que é preciso colocar em cima da mesa o dado sobre a importância de manter em bom estado e ampliar as fontes de energia hidrelétrica, mais barata e menos poluente. Mais válido é ainda o alerta quando se sabe que a reserva imediata em caso de problemas com essa fonte são as geradoras térmicas, bem mais prejudiciais ao meio ambiente.
Mas também importa que aqueles que buscam as licenças ambientais tenham absolutamente claras as condições que precisam ser cumpridas para que mais à frente o barato não saia caro. Primeiro, dizia-se que a então ministra Marina Silva era intransigente e não conseguia enxergar nada além da preservação das florestas. Depois foi colocado no cargo o ministro Minc, sabidamente mais maleável e melhor negociador. Só que os problemas continuam, e Minc não está concedendo as licenças com a velocidade que se esperava. Parece difícil que duas pessoas do porte de Marina e de Minc estejam erradas ou simplesmente apelando para picuinhas antidesenvolvimentistas.
Parece este um caso clássico do uso daquela famosa solução popular alguém tem de ceder , e trocá-la por todos têm de ceder . O caminho mais rápido para progredir sem causar danos ao planeta seria que industriais e o Ministério de Minas e Energia negociassem com a cabeça de um ambientalista. E que os ecologistas e o Ministério do Meio Ambiente se sentassem à mesa com o olhar de quem quer um Brasil próspero e pujante.
Colocar-se, por cinco minutos que seja, no lugar do outro é sempre um caminho bom para avançarmos. O projeto de Belo Monte é exemplar: desde que caiu na análise da equipe de Minc, foi melhorado no que se refere à navegação do rio, à preservação dos peixes e à manutenção de boas condições de vazão na Volta Grande do Xingu. Bacana. Agora é a hora da contrapartida da liberação. Só o Brasil pode sair vitorioso dessa discussão, se ela chegar a bom termo. Nem Minc nem Lobão conseguirão vencer sozinhos.