'El País': Protofascismo defende morte de presos no Brasil

Artigo de Juan Arias diz que mortes em prisões revelaram subconsciente fascista da população

Editorial de Juan Arias para El País publicado nesta quinta-feira (12) analisa que as matanças de presos no início deste ano, perpetradas nas penitenciárias de Manaus e Roraima, com um saldo de 91 detentos mortos, decapitados e esquartejados pelas diferentes facções rivais que nelas convivem, revelou, de fato, o subconsciente fascista de boa parte da população, em todos os níveis sociais, simbolizado nesta frase: “Bandido bom é bandido morto”.

Arias lembra que inclusive chegaram a expressá-la publicamente tanto políticos como simples cidadãos, que não só não parecem ter se comovido com a tragédia humana dos mortos e das famílias, mas também chegaram a justificá-la e a defendê-la. Às vezes, até a aplaudi-la.

O governador do Amazonas, José Melo, chegou a dizer que entre os presos sacrificados brutalmente “não havia santos”, destaca o autor para El País. E o então secretário nacional da Juventude do Governo Temer, Bruno Júlio, já afastado do cargo, afirmou que “tinham que fazer uma chacina por semana”.

> > El País Ese protofascismo que defiende la muerte de los presos en Brasil

No que diz respeito às pessoas comuns, basta atualmente tomar um ônibus ou entrar num bar para escutar as queixas sobre a presidenta do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia, que pediu indenização às famílias dos presos mortos por não terem sido protegidos pelo Estado. As redes sociais estão repletas de indignas aprovações das chacinas, ressalta Juan Arias em seu texto para El País.

“E quem é que indeniza as famílias das vítimas perpetradas por esses presos quando estavam em liberdade?”, gritava um senhor, de classe média, tentando contagiar com sua indignação os outros passageiros do ônibus, conseguindo apenas o beneplácito dos presentes.

Talvez a chave desse substrato fascista, dessa atitude de deixar de se preocupar com o outro e de chegar até o ódio contra os presos, com os quais ninguém se preocupa, nem que sejam tratados pior que animais, esteja nesse excesso de violência com que o brasileiro, sobretudo nas grandes cidades, é obrigado a viver todos os dias, analisa em seu artigo Juan Arias.

Tenho escutado pessoas, até mesmo de grande sensibilidade cultural e humana, justificando o fato de que, em certos lugares, a polícia, ao prender um assaltante ou estuprador, execute-o sem maiores escrúpulos e sem se preocupar em entregá-lo à Justiça, “que o acabará soltando”, relata Juan Arias.

O jornalista afirma que nunca vai se esquecer da declaração de José Eduardo Cardozo quando era ministro da Justiça de Dilma Rousseff. Confessou que ele, pessoalmente, preferiria “perder a vida a passar anos num presídio do Brasil”. E ele era, naquele momento, o responsável pelos mais de meio milhão de presos que vivem em presídios superlotados e perigosos. A pergunta era óbvia: “O que ele fazia para mudar a situação?” Vemos hoje a resposta na situação infernal que os reclusos vivem, uma situação que, ao que parece, nem as autoridades imaginavam.

Há um traço do Brasil que talvez explique também muitas coisas. “Você precisa entender que a ideia que o Estado tem do cidadão comum é que é um bandido em potencial. Você é que tem que demonstrar que não é.”

Ao contrário de outros países mais maduros democraticamente, o Estado aqui exige que você prove que não é um criminoso, descreve Juan Arias e questiona: Onde está então a presunção de inocência? A de que você é uma pessoa decente, que não engana, não rouba nem mente até que se demonstre o contrário?

O autor aponta que o Estado está tão acostumado a ver os cidadãos como possíveis transgressores que ele mesmo se transforma, tantas vezes, em um elemento de violência oficial. E se para ele todos somos possíveis ladrões ou assassinos, o que pensará da população carcerária? Para que tantos escrúpulos com essas pessoas? Que apodreçam aí. E se puderem se matar entre si, será menos trabalho para o Estado, que não precisará abrir longos e dispendiosos processos penais para eles.

E se muitos desses detentos, ainda não julgados, forem inocentes, questiona Arias. Para os políticos e governos, essas são apenas considerações de almas piedosas. Eles, que sabem como pensa a maioria da sociedade sobre os direitos humanos dos presos, sabem que sua defesa “não dá votos”, como me confessava candidamente um deputado bem conhecido.

No entanto, do ponto de vista humano, nada justifica essa atitude de cunho fascista que a sociedade respira e que explica esse desprezo e essa vontade de vingança contra os presos.

Arias cita a filósofa e escritora Márcia Tiburi, autora, entre muitas outras obras, de Como Conversar com Um Fascista (Record), dizendo que esta analisou muito bem a sombra que todos temos dentro de nós. Essa sensação de que “sou alguém se transformo o outro em ninguém”. Parodiando o “cogito ergo sum” do filósofo francês René Descartes, poderíamos dizer: “humilho, logo existo”. Isso nos leva a nos considerarmos vítimas, quando, no fundo, somos todos carrascos em potencial.

Se o fascismo pressupõe o desinteresse pelo outro e o poder para solapar os direitos humanos desse outro, é fácil chegar a lhe negar até a existência e se sentir livre para humilhá-lo.

Se o outro é o espelho em que nos olhamos, não é difícil projetarmos nele, conscientes ou não, essa sombra que habita até os melhores.

A diferença está entre considerar isso normal ou lutar para nos desfazermos do fantasma, e aceitar que, talvez, não sejamos potencialmente melhores do que aqueles que desprezamos, tememos e preferiríamos aniquilar.

*Protofascismo

O protofascismo, versão pós-moderna do fascismo, ganha adeptos porque sabe como despertar potencialidades do indivíduo ou do grupo até então negligenciadas. Para tal, usa recursos diversos: discurso agressivo e falacioso, gestos teatrais, abraços e beijos inautênticos, o gesto de tomar uma criança ao colo para ser fotografado, etc.

O discurso proto fascista geralmente seduz os incautos e os náufragos de alguma ideologia messiânica. Para essa audiência não importa confrontar a retórica com a prática, nem sua coerência e razoabilidade, nem importa reconhecer suas atitudes “imorais” postas a serviço de uma moral cínica. Na análise de Sloterdijk (apud Zizek, 1992) “eles sabem perfeitamente o que fazem [mal], e, no entanto o fazem”, e ainda procuram justificar que fazem assim para o bem coletivo.

O protofascismo não é razoável nos atos e palavras. Sua razão instrumental é cínica, jamais ingênua, principalmente quando se trata de travar luta pelo poder político. Assim, um governante com vocações totalitárias faz uso cínico dos dispositivos próprios da democracia – por exemplo, através de um plebiscito calculado – visando ganhar mais-poder e/ou a perpetuação no poder. 

O protofascista usa a razão e moral cínicas a serviço da imoralidade justificando-a como se fosse moral. Chomsky conta que mesmo os carrascos nazistas negaram ter cometido genocídio, mesmo após as provas, após verem os filmes, com milhares de corpos empilhados e nus retirados dos campos de concentração. No julgamento de Nuremberg, somente um oficial nazista assumiu a culpa pelo genocídio. Até mesmo um intelectual como Heidegger pode ter reconhecido um erro sua ligação com o nazismo, mas sequer aceitou falar disso para sua amiga por 50 anos, a judia Hannah Arendt.

No início, o fascismo fazia a apologia da guerra, do homicídio, da luta pela luta. Tudo lhe era válido para tomar e se manter no poder político, inclusive o derramamento do sangue. (Diferente do terrorismo que é essencialmente puro ato criminoso e não tem projeto político de tomar o poder).

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