“Meu caminhãozinho é pequeno”, diz D. Geraldo sobre papado

Ele é um dos 5 cardeais brasileiros a votar na eleição

Dom Geraldo Majella é um dos cinco cardeais brasileiros que vão participar da eleição do novo papa. Sua condição de votante, portanto, o torna automaticamente um dos papáveis. Mas isso na teoria. Na prática, a proximidade dos 80 anos tira o mineiro de Juiz de Fora da lista. Sem falar em outras questões práticas e políticas. “Além do mais, o meu caminhãozinho é muito pequeno para tanto peso”, brincou o arcebispo emérito de Salvador ao falar ao Terra dias antes do seu segundo Conclave. Em 2005, ele foi um dos 117 sacerdotes que participaram da eleição de Bento XVI. 

Majella nasceu em 19 de outubro de 1933, saindo da sua cidade natal aos 15 anos para cursar o ensino médio em Pirapora do Bom Jesus, interior de São Paulo. Seu destino poderia ter sido o mesmo de muitos de seus colegas de infância, que estudaram, fizeram carreira, constituíram família. Mas a vida lhe levou pelos caminhos da espiritualidade. Aos 23 foi ordenado padre, antes dos 40 defendeu tese de doutorado em Teologia em Roma, aos 66 se tornou arcebispo metropolitano de Salvador e Primaz do Brasil e, aos 69, cardeal.

Majella carrega em sua trajetória sacerdotal o lema “Caridade com Fé”. Entre os amigos próximos, a característica mais citada é a tranquilidade diante das adversidades e o forte comprometimento com os que estão à sua volta. “Ele é um amigo muito fiel, simples e humano. Um homem sem máscaras”, analisa o monsenhor Ademar Dantas, amigo de Dom Geraldo há 13 anos. Foi dele a função de ecônomo e vigário geral da arquidiocese no episcopado do mineiro. “Não o conhecia pessoalmente e passamos a trabalhar juntos. Foi um imenso aprendizado pessoal e profissional, e também o nascimento de uma amizade estreita. Nos falamos todos os dias.”

Durante seu mandato como arcebispo primaz, Majella enfrentou um dos seus maiores desafios pastorais: comandar a Igreja brasileira na transição entre os papados de João Paulo II e Bento XVI. “Foi um momento difícil. Não sabíamos como alguém poderia substituir um papa tão carismático, mas foi uma surpresa incrível”, revela. A novidade se confirmou numa visita à Santa Sé, quando outro cardeal lhe confidenciou que, com Ratzinger, as catequeses de quarta-feira na Praça de São Pedro passaram a ter mais público do que no tempo de Karol Wojtyla. “Aprendemos que esse não é um Papa para se ver, mas para se ouvir”, conclui.

Estigma da renúncia

Mais do que o cardinalato, Majella e Ratzinger dividem outro estigma: o da renúncia. A diferença é que, no caso do brasileiro, o pedido de saída do cargo veio aos 75 anos, seguindo as normas da cúria romana para os arcebispos diocesanos. “Depositamos a renúncia ao Papa e aguardamos que ela seja aceita.” Essa resposta só veio em 2011, quando assumiu o cargo o catarinense Dom Murilo Krieger. “Para nós é muito mais tranquilo. Mas no caso do Papa é uma decisão totalmente individual, cuja responsabilidade ele não pode dividir com ninguém”, avalia.

Krieger, que está com 70 anos, faz questão de destacar a capacidade de diálogo do antecessor. “Ele tem facilidade para escutar e sempre expõe seus pontos de vista com tranquilidade e firmeza, mesmo que seja totalmente diferente da outra pessoa”, elogia.

Dom Carlos Petrini lembra com detalhes do período da renúncia de Majella à Arquidiocese de Salvador: 'Ele estava mais calado, recolhido'

Bispo auxiliar de Salvador à época da renúncia de Dom Geraldo, Dom Carlos Petrini - hoje à frente da diocese de Camaçari, interior da Bahia - se lembra com detalhes do período da renúncia. “Ele estava mais calado, recolhido. Nós percebíamos, mas não se falava abertamente do assunto. Mas um tempo depois que ele deixou a diocese, foi como se tivesse rejuvenescido. O peso do cargo é muito grande.”

Reforma no Vaticano é "imprescindível"

Na visão de Majella, o grande desafio do novo Conclave é uma espécie de “reforma política” na Cúria Romana. A partir do Concílio Vaticano II, que durou de 1965 a 1962, a estrutura da instituição cresceu e a sua hierarquia também, favorecendo um menor controle das decisões por parte do sucessor de Pedro, e também muitas distorções no exercício da autoridade. Segundo ele, a reestruturação já era necessária desde o papado anterior, mas agora é imprescindível. “Eu espero um papa corajoso para realizar uma grande ‘dança das cadeiras’, não só nos altos escalões, mas também nas estruturas intermediárias, onde estão os maiores problemas. Não será fácil”, pontua.

Seguindo o que tem sido dito por vaticanistas em torno do mundo, o arcebispo emérito não acredita que a Igreja Católica vá ganhar um chefe liberal, disposto a capitanear grandes mudanças. “Certas definições não vão mudar, até porque nem o Papa tem autoridade para alterar o que diz o evangelho. Mas questões de disciplina podem mudar, sim”, afirma, sem entrar em detalhes.

Novos concílios, como o Vaticanto II, que tirou a obrigatoriedade da celebração de missas em latim e colocou os sacerdotes de frente para os fiéis, também não são vistos como uma realidade por Majella. O último, que teve quatro constituições e 12 capítulos, ainda não é vivido em plenitude pela Igreja. Segundo ele, pontos como a formação da nova geração de padres católicos, já previstos no documento, precisam ser aprofundados.

Disposição para encarar questões polêmicas

Durante os 12 anos à frente da Arquidiocese de Salvador, ele ordenou 70 sacerdotes, uma média de cinco por ano. Apesar do bom número, Majella ainda acredita que a formação dos pastores é deficiente, e deve ser um foco da preocupação do novo papa. “É necessária uma reformulação enérgica na preparação dos novos sacerdotes, bem como uma disposição da igreja em encarar questões como a pedofilia, destituir essas pessoas de suas funções na instituição e apresentá-las abertamente à sociedade”, aponta.

Sob o seu ponto de vista, a catequese dos fiéis também deverá ser vista com maior atenção nos próximos anos. O motivo é o número crescente de “católicos não praticantes”, bem como daqueles que só vão à missa aos domingos e sequer sabem as motivações de determinadas posições da Igreja, como a negativa ao uso de preservativos, ao casamento de sacerdotes e à ordenação de mulheres. “Para serem firmes, as pessoas precisam saber a razão da própria fé”, provoca.

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