Temor de que a Rússia volte ao caos garante apoio massivo a Putin

O cenário é desolador. Aparecimento de dezenas de partidos políticos e luta pelo poder entre grupos liberais e nacionalistas, como nos anos 90. O arsenal nuclear da Rússia passa a ser controlado pelos americanos. Os lideres da oposição assumem o controle das empresas estatais. As repúblicas do Cáucaso do Norte declaram sua independência e se transformam em um emirado. Geórgia sedia as Olimpíadas de Inverno de 2014, em Sochi (que deixa de ser território russo) e os atletas da Federação Russa são proibidos de participar do evento. 

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Grupos fascistas e máfias étnicas tomam conta do país. Este cenário tão apocalíptico é apenas uma parte do que os criadores do vídeo "Rússia sem Putin. Bem-vindo ao inferno" imaginam que possa acontecer no país caso Putin não seja eleito nas presidenciais deste domingo.

Com quase um milhão de visitas, o vídeo exageradamente pessimista joga com três fatores decisivos que garantirão a vitória de Putin nas eleições - o medo de que a Rússia volte à caótica década de 90, a cautela dos russos com qualquer intervenção externa e a crença num líder forte que organize o país.

Nesta campanha presidencial na Rússia, o pânico não ficou restrito à internet. Dois populares jornais da Rússia, Argumenty i Fakty e Komsomolskaya Pravda, publicaram um suplemento no mês de fevereiro intitulado "Que Deus não permita", com o subtítulo "Nós não estamos felizes com as autoridades, mas não pedimos uma revolução". Artigos do suplemento incluem: "Como não transformar março de 2012 em fevereiro de 1917?" e "(Ksenya) Sobchak é contra Putin? Então eu estou com ele". Ksenya Sobchak é a apresentadora do programa Dom-2, versão russa do Big Brother e conhecida como a Paris Hilton russa. A família de Sobchak é uma tradicional aliada do Kremlin e o país de Sobchak, primeiro prefeito de São Petersburgo depois da União Soviética, era amigo pessoal de Putin antes da sua morte em 2000, por causas ainda desconhecidas.

As primeiras manifestações da oposição, em dezembro do ano passado, tinham como lema "Por eleições justas", mas com o passar dos meses, os protestos passaram a ser focados na oposição à figura de Vladimir Putin, convertendo-se em atos que defendiam uma Rússia sem Putin. No entanto, o discurso anti-Putin não ofereceu uma alternativa aos eleitores russos. "Um dos principais pontos da vitória de Putin é a estabilidade que ele oferece. Sem Putin, não temos a ideia do que seria a Rússia. Os russos preferem o ruim conhecido à surpresa do desconhecido", explica Masha Lipman, do Carnegie Centre de Moscou. "Putin é a garantia da continuidade e a campanha dele está toda baseada nisto", conclui Lipman.

E engana-se quem pensa que este medo faz parte apenas do imaginário do russo pouco escolarizado e/ou que não vive nas grandes cidades. Muitos jovens moscovitas também temem que o país volte à situação que o país enfrentou nos anos 90, quando ainda eram crianças ou adolescentes.

"Eu faço parte desta classe média que surgiu nos últimos 12 anos. Quando penso no passado, lembro a época soviética e os sonhos de um futuro promissor. E o futuro promissor significava liberdade para viajar, lojas sem filas quilométricas, comida e roupa para todos e apartamentos separados (em vez dos comunais nos quais o espaço era dividido entre várias famílias). Eu acho que hoje vivemos este futuro e não quero arriscar a minha estabilidade", explica Kashif Ur-Rakhim, diretor de empresa de 31 anos. "Há 10 anos, eu queria me mudar para os Estados Unidos para ter melhores condições de vida. Hoje a Rússia é um país de oportunidades para pessoas com ambições e que queiram trabalhar. Putin é uma pessoa carismática e não me deixa envergonhado do meu país. O mundo o respeita", conclui Kashif.

Quando perguntados o que esperam do novo presidente, 57% dos russos dizem que desejam que a Rússia volte a ser uma superpotência. Apenas 34% citam as reformas sociais como prioridade. Num país cuja pensão média de um aposentado gira em torno de 8,5 mil rublos (500 reais) e o salário-base de um professor é de 13 mil rublos (770 reais) causa surpresa que o status de superpotência seja mais importante para o cidadão comum do que o contracheque no fim do mês. Inconscientemente, o russo ainda associa a estabilidade social ao poderio simbólico que o país pode ter na comunidade internacional, como se a primeira fosse consequência da segunda.

Em novembro de 2011, 18% dos russos tinham uma ideia negativa dos Estados Unidos. Dois meses depois, este índice chegava a 31%. E Putin sabe que a retórica anti-Estados Unidos ainda rende votos. Num comício que reuniu pelo menos 100 mil pessoas no fim de fevereiro, Vladimir Putin foi ovacionado quando disse que a Rússia "não vai permitir que ninguém interfira nos nossos assuntos internos ou impor o desejo deles sobre o nosso porque nós temos os nossos próprios desejos".

Putin também continua sendo visto como a única liderança capaz de defender os interesses da Rússia no cenário global e de unificar o vasto território do país sob um mesmo programa. "Vladimir Putin é um líder forte e a principal ideia dele é que a Rússia seja um dos centros do mundo, além de que sejam consolidadas alianças com os nossos vizinhos", explica Nikita Zabrodin, relações públicas, 25 anos. "Além disso, ele é o único político conhecido em todas as regiões da Rússia", completa Nikita.

As sondagens indicam que Vladimir Putin ganhará no primeiro-turno, com aproximadamente 60% dos votos. "É fácil sem contra Putin, mas quando o eleitor vê as alternativas da oposição, fica muito mais fácil ser a favor dele", ironiza um jovem moscovita que ficou conhecido nas redes sociais.