Moderno, popular e perigoso

Acidente na Etiópia, que deixou 157 mortos, é o segundo com novo modelo do Boeing 737 em cinco meses

ADIS ABEBA - Em cinco meses, dois acidentes aéreos com o novo modelo do avião mais vendido do mundo, o Boeing 737, deixaram 346 mortos. Em outubro de 2018, uma aeronave com três meses de uso da Lion Air caiu no mar pouco após decolar de Jacarta, matando as 189 pessoas a bordo. Ontem, um avião da Ethiopian Airlines com destino a Nairóbi, no Quênia, sofreu um acidente logo após a decolagem em Adis Abeba, na Etiópia, deixando 157 mortos.

A semelhança das quedas pode indicar a mesma causa para a tragédia. No caso da Indonésia, as investigações não foram concluídas, mas relatórios preliminares afirmam que o sistema automático do avião recebeu leituras incorretas de sensores que teriam forçado o nariz da aeronave para baixo contra a vontade dos pilotos, que lutaram contra a situação até que o 737 caiu no oceano.

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Acima, homem inspeciona área onde o avião da Ethiopian Airlines caiu, a 60km da capital etíope, Adis Abeba, matando 157 pessoas. Ao lado, o popular modelo 737 MAX da americana Boeing (Foto: Fotos: AFP)

O avião em uso nas duas ocasiões era o Boeing 737 MAX, modelo que realizou seu primeiro voo em janeiro de 2016, e que passou a operar no ano seguinte. Cerca de 350 unidades foram entregues a seus compradores, de um total de 5.011 pedidos registrados pela companhia americana. O 737 MAX é destinado a voos curtos e de média distância.

A Boeing pretende aumentar o ritmo de produção do modelo em 2019, de 52 para 57 aparelhos por mês. Desde o acidente na Indonésia, no entanto, a comunidade aeronáutica se interroga sobre a falta de informação das companhias e dos pilotos sobre o sistema de aviso de perda de sustentação do modelo, que teria sido a causa da tragédia da Lion Air.

Também há questionamentos sobre uma possível falha das sondas que captam a velocidade, assim como sobre a duração da formação de pilotos para se habituar ao novo sistema, considerada curta.

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20100126 Created (Foto: AFP)

O modelo tem quatro variações: MAX 7 (172 assentos), MAX 8 (210), MAX 200 (220) e MAX 9 (230). O valor de cada unidade oscila entre US$ 99,7 milhões e US$ 129 milhões. Seu alcance é de 6.610 a 7.130 quilômetros. Tanto no caso do acidente da Ethiopian Airlines como no da Lion Air o modelo usado era o 737 MAX 8. Se forem consideradas todas as gerações do Boeing 737, cujo primeiro voo data de 1967, foram feitas 10 mil unidades, recorde para um aparelho destinado a voos comerciais.

No voo de ontem, o piloto da Ethiopian Airlines reportou "dificuldades" durante o voo e pediu para retornar para o aeroporto internacional de Bole, na capital etíope, disse o presidente da companhia aérea, Tewolde GebreMariam. "O piloto mencionou que tinha dificuldades e que queria regressar", os controladores "autorizaram-no" a dar meia-volta e retornar para Adis Abeba, declarou ele.

Gigante do setor

Controlada pelo Estado, a Ethiopian Airlines passou por forte expansão nos últimos anos. Sua frota, a mais importante do continente africano, tem mais de 100 aeronaves. Segundo estudo de 2018, Adis Abeba superou Dubai como primeiro aeroporto de trânsito para passageiros que chegam à África subsaariana.

O avião da companhia etíope decolou às 8h38 locais (3h38 de Brasília) de Adis Abeba e "perdeu contato" seis minutos depois. Os 149 passageiros e o os oito tripulantes morreram. As condições meteorológicas eram boas na capital da Etiópia. O avião caiu na região de Bishoftu, a 60 quilômetros ao sul de Adis Abeba.

As vítimas são de 32 nacionalidades diferentes, a maioria do Quênia. Há ainda 18 canadenses, nove etíopes, oito italianos, oito chineses, oito americanos, sete franceses, sete britânicos, seis egípcios, cinco holandeses e quatro indianos. Pelo menos quatro passageiros eram funcionários da ONU.

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, manifestou "profundas condolências às famílias dos que perderam seus parentes no voo". O presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, também lamentou o acidente.

A Boeing disse que estava "profundamente triste" com a morte dos passageiros. A empresa informou que tem "uma equipe técnica preparada para dar assistência técnica a pedido e sob a direção da Junta Nacional de Segurança do Transporte dos Estados Unidos" (NTSB) para descobrir as causas do acidente.

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Acima, homem inspeciona área onde o avião da Ethiopian Airlines caiu, a 60km da capital etíope, Adis Abeba, matando 157 pessoas. Ao lado, o popular modelo 737 MAX da americana Boeing