NAS QUADRAS

O que deu certo (e o que não deu certo) no NBB 2025/2026

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Por PEDRO RODRIGUES
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Publicado em 26/07/2026 às 16:01

Alterado em 26/07/2026 às 16:01

Pinheiros mostrou um caminho para um NBB pesado e escondido Imagem: Pedro Rodrigues/feita com IA

Completar 18 anos costuma representar a entrada na vida adulta. Para o NBB, porém, a maioridade trouxe um paradoxo. A temporada 2025/2026 foi a maior da história da competição em número de participantes, mas também uma das mais discretas desde a criação da liga. Nunca se jogou tanto. Paradoxalmente, poucas vezes se viu tão pouco.

O balanço desta temporada exige um olhar diferente daquele utilizado na análise da NBA da semana passada (confira aqui). Lá, acompanhamos um espetáculo global pelas telas. Aqui, vivemos o campeonato de perto. Vemos o suor, a frustração e os triunfos. É justamente essa proximidade que torna a cobrança maior. Afinal, este é o nosso basquete.

A temporada deixou histórias que merecem ser celebradas, problemas que já não podem mais ser ignorados e personagens que ajudam a explicar por que o NBB continua evoluindo em alguns aspectos, mas ainda encontra dificuldades para dar o salto de qualidade que seu público espera. Entre acertos e erros, o saldo é positivo, especialmente pelo que funcionou.

O que funcionou
Esporte Clube Pinheiros
A campanha histórica do Pinheiros em 2025/2026 não surgiu por acaso. O trabalho vinha sendo construído desde a temporada anterior, quando a jovem equipe azul e preta já havia chamado atenção ao levar o Sesi Franca ao limite nas quartas de final dos playoffs.

A diretoria soube interpretar os sinais. Para comandar o projeto, trouxe Gustavo De Conti, um dos treinadores mais vitoriosos da história recente do basquete brasileiro, multicampeão por Paulistano e Flamengo e ex-técnico da Seleção Brasileira. Dentro de quadra, reforços pontuais completaram um elenco que já possuía uma base promissora. Entre eles, destacou-se Felipe Gregate. Contratado junto ao Mogi aos 22 anos, o ala-armador foi eleito o Melhor Defensor do NBB, tornando-se apenas o sexto jogador da história a receber a premiação. Ao seu lado chegaram a experiência de Betinho, aos 38 anos, e a presença física do pivô Matheus Maciel. A combinação encontrou equilíbrio na juventude formada em casa, representada por nomes como Cauã Pacheco e Pedro Pastre.

O resultado apareceu rapidamente. O Pinheiros terminou o primeiro turno com a melhor campanha da competição, encerrou a fase regular na segunda colocação geral, com 30 vitórias em 38 partidas, e alcançou, pela primeira vez, a decisão da Copa Super 8. A derrota para o KTO Minas na final pouco diminuiu o sentimento de evolução. Ainda na cerimônia de premiação, Gustavo De Conti resumiu o momento ao afirmar: "Estou mais feliz do que com alguns títulos que eu ganhei".

Nos playoffs, o desempenho confirmou que a excelente campanha não havia sido obra do acaso. O Pinheiros eliminou o Rio Claro por 3 a 0 nas oitavas de final, repetiu o placar diante do Paulistano nas quartas e superou o Corinthians por 3 a 1 na semifinal, garantindo uma inédita vaga na decisão da era moderna do NBB.

Na final, porém, estava do outro lado uma dinastia consolidada. O Sesi Franca venceu os dois primeiros jogos da série, incluindo uma virada improvável no Ginásio Henrique Villaboim após estar mais de 20 pontos atrás no placar. Quando parecia que o desfecho seria inevitável, o Pinheiros mostrou novamente a personalidade que marcou toda sua campanha. Diante do Ginásio Poliesportivo Henrique Villaboim lotado, venceu o Jogo 3 por 94 a 92, impulsionado pelos 30 pontos de Betinho e pela maturidade do jovem Cauã Pacheco, responsável pela cesta decisiva.

O sonho terminou no Jogo 4, no Pedrocão, em uma partida marcada pela polêmica marcação de uma falta antidesportiva nos segundos finais. Ainda assim, o resultado da série não diminui o tamanho da temporada pinheirense.

Mais do que chegar à final, o Pinheiros devolveu ao NBB algo que parecia perdido havia algumas temporadas: a capacidade de surpreender. Isso com um basquete competitivo e uma equipe muito bem treinada e madura, apesar da pouca idade de seus principais jogadores. Disparado a melhor história do último NBB.

O que não funcionou
20 clubes
Inchado, pesado e arrastado. Assim foi o NBB com 20 equipes. É preciso ser honesto: hoje, o basquete brasileiro não dispõe de jogadores suficientes para sustentar uma liga desse tamanho sem perda de qualidade técnica. E, se falta talento disponível no mercado interno, muito menos há recursos financeiros para buscar reforços no exterior. O resultado apareceu dentro de quadra. A temporada regular perdeu intensidade, aumentou o número de partidas pouco atrativas e, em diversos momentos, pareceu longa demais para quem acompanhava o campeonato.

Essa queda de qualidade ficou ainda mais evidente pela forma como a competição foi apresentada ao público. Mais uma vez, o NBB não conseguiu transmitir todas as partidas. Pior do que isso, a Liga Nacional deixou de publicar em seu site os tradicionais resumos dos jogos, abrindo mão de um importante registro histórico da competição. Sem transmissão, sem documentação e sem transparência, o campeonato perde alcance, dificulta análises e enfraquece a construção da própria memória. Em uma época em que conteúdo também faz parte do espetáculo, deixar jogos e histórias sem registro é desperdiçar um patrimônio que nenhuma liga deveria abrir mão de preservar. E nem vamos falar do público nos ginásios, já que tirando umas exceções como o União Corinthians, a coisa ficou bem abaixo do esperado para a quantidade de marcas relevantes que o NBB tem.

O calendário inflado também produziu consequências fora das quatro linhas. A combinação entre excesso de jogos, estrutura limitada e comunicação insuficiente contribuiu para episódios que jamais deveriam fazer parte do noticiário do basquete, como a agressão sofrida pelo árbitro Diego Chiconato durante a partida entre Pato Basquete e Caxias do Sul. Ao mesmo tempo, o aumento no número de participantes abriu espaço para projetos sem a solidez necessária para disputar uma competição nacional. Vieram as crises administrativas, as dificuldades financeiras e, mais preocupante, a sombra das apostas esportivas. O caso envolvendo o Rio Claro, que culminou com a suspensão da autorização de residência de um dirigente pelo Ministério da Justiça, além de outras investigações envolvendo clubes do Rio de Janeiro, expôs uma fragilidade institucional que ainda carece de respostas mais claras.

Quando a temporada começou, esta coluna levantou uma dúvida: a expansão fortaleceria o NBB ou acabaria se tornando um peso até a chegada dos playoffs? Infelizmente, prevaleceu a segunda hipótese. Para 2026/2027, o próprio mercado já começa a corrigir esse movimento. Vasco da Gama e Rio Claro, ao que tudo indica, não disputarão a próxima edição, reduzindo novamente o número de participantes para 18 equipes. Caso a Liga Nacional volte a apostar em um campeonato com 20 clubes no futuro, será indispensável oferecer uma estrutura compatível com essa ambição. Isso significa investir mais em comunicação, ampliar a cobertura das partidas, fortalecer os mecanismos de transparência e oferecer melhores condições de trabalho aos seus profissionais, especialmente à arbitragem. Um campeonato maior não se faz apenas com mais equipes em quadra. Exige, acima de tudo, uma organização igualmente maior fora delas.

Personagens
Sergio 'Oveja' Hernández
Na sua segunda passagem pelo basquete nacional, a primeira foi como Brasilia em 2013, o técnico Sergio "Oveja" Hernández passou por extremos nestes 14 meses no comando do Flamengo.

Apresentado em fevereiro de 2025 como o substituto de Gustavo De Conti, o treinador argentino chegou ao clube carregando um currículo que poucos técnicos sul-americanos possuem: medalha de bronze olímpica em Pequim-2008 e vice-campeonato mundial com a Argentina em 2019. Na apresentação, definiu o convite rubro-negro como "um objetivo de carreira". E cumpriu essa expectativa logo de saída.

Sob seu comando, o Flamengo conquistou a Basketball Champions League Americas diante de sua torcida, no Maracanãzinho, superando Franca e Boca Juniors na fase decisiva. Parecia o início de um ciclo promissor.

Ficou na promessa. O Flamengo da temporada 25/26 sofreu demais com lesões, altas expectativas e calendário apertado.

Essa combinação fez com que o Rubro-Negro terminasse a fase regular apenas na quinta colocação, com 28 vitórias e dez derrotas — a pior campanha do clube desde a criação do NBB. Foi um Flamengo cansado, lesionado e pressionado que perdeu para times como Cruzeiro e Pato Basquete. Jogos que normalmente um time que almeja ser campeão venceria. As tristes eliminações para o Minas na semifinal da Copa Super 8, dentro do Maracanãzinho e para o Boca Juniors na semifinal da Champions League Américas selaram o destino do lendário técnico.

Dois dias depois, após a derrota para o Nacional na disputa do terceiro lugar da BCLA. em 18 de abril, Flamengo e Oveja anunciaram a rescisão do contrato em comum acordo, às vésperas do início dos playoffs.

Mais tarde, o treinador revelou que soube da decisão logo após conceder uma entrevista coletiva durante o Final Four da competição continental.

"Não estava nem nos meus planos, nem nos deles. Foi muito duro."

Na despedida, veio também uma frase que resumiu a temporada atribulada do Flamengo.

"O esporte é assim. Às vezes dá. Às vezes não dá."

Arbitragem
Toda temporada tem um personagem que ninguém gostaria de ver no centro das atenções. No NBB 2025/2026, esse personagem foi a arbitragem.

Não porque os árbitros tenham decidido o campeonato sozinhos, mas porque voltaram a ocupar espaço demais justamente nos momentos mais importantes da competição. Quando isso acontece, normalmente há algo errado.

No Jogo 4 das Finais, com sete segundos restantes e o título praticamente decidido, a marcação de uma falta antidesportiva contra a defesa do Pinheiros encaminhou o pentacampeonato do Sesi Franca na linha do lance livre e provocou a expulsão de Gustavo De Conti após a reclamação.

Não foi um episódio isolado.

Dez dias antes, no quinto jogo da semifinal entre Franca e Brasília, Crescenzi sofreu um claro contato de Georginho na disputa pelo rebote que poderia mudar o destino da partida. A arbitragem mandou o jogo seguir. Como esta coluna registrou na ocasião, foi mais um daqueles "soluços" que, de tempos em tempos, insistem em aparecer justamente quando o campeonato mais precisa de segurança em suas decisões.

A ironia é que a lembrança remete ao famoso lance da bola presa entre Flamengo e Bauru na final do NBB de 2016. Dez anos depois, a sensação continua sendo a mesma: o campeonato evoluiu em muitos aspectos, mas algumas discussões permanecem exatamente onde estavam.

Também é preciso olhar para o outro lado.

Os árbitros foram vítimas do mesmo problema que atingiu clubes, jogadores e torcedores. Um campeonato com calendário cada vez mais longo, disputado em um país de dimensões continentais e atendido por um quadro reduzido de profissionais dificilmente entregará decisões sem desgaste.

Melhorar as condições de trabalho da arbitragem talvez seja o primeiro passo para tirar o NBB dessa eterna "bola presa". Mas esse é apenas um dos desafios.

A temporada que marcou a maioridade do campeonato mostrou que o NBB cresceu em tamanho. Agora, precisa provar que também consegue crescer em qualidade, organização e transparência.

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