Dá para matar o gambá que se escondeu no forro de casa? Não: o gambá, também chamado de saruê, é um animal da fauna silvestre brasileira, e a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605, de 1998) pune quem mata, persegue ou apanha esses bichos sem autorização. A orientação dos órgãos de meio ambiente é outra: abrir caminho para ele sair, fechar as entradas depois e, se nada der certo, chamar o resgate.
Matar ou prender o gambá sem autorização é crime ambiental
O artigo 29 da Lei 9.605/1998 prevê pena de detenção de seis meses a um ano, e multa, para quem “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente”. A mesma lei define como silvestres todas as espécies que tenham todo ou parte do ciclo de vida no território brasileiro, o que inclui os gambás do gênero Didelphis.
Há um detalhe que pesa justamente no caso do forro: o parágrafo 1º do artigo aplica as mesmas penas a quem “modifica, danifica ou destrói ninho, abrigo ou criadouro natural”. Ou seja, a fêmea com filhotes escondida no teto também está protegida.

A Prefeitura de Porto Alegre, em orientação publicada em 3 de outubro de 2025, resume a regra: os gambás são animais silvestres protegidos por lei e não devem ser mortos nem maltratados.
O passo a passo dos órgãos ambientais para o bicho sair sozinho
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo (Semil) publicou um guia sobre o assunto em 10 de maio de 2016. O texto explica que o gambá entra nas casas atrás de comida, como lixo mal guardado e restos de ração, e de lugares tranquilos para fazer ninho, como os forros. As orientações práticas:
- Não encurrale o animal: segundo a Semil, “não é recomendável acuar o animal, o ideal é que ele encontre o caminho para fuga”;
- Espere a noite: o gambá costuma procurar um canto escuro para se esconder e sair quando escurece, com mais segurança;
- Improvise uma rampa: se ele estiver no quintal, perto de árvores, o morador pode colocar uma madeira simulando uma escada para facilitar a saída;
- Não tente prender para soltar no mato: o guia diz que essa “não é a melhor opção”;
- Feche as entradas depois: a recomendação é vedar aberturas entre telhado e forro, guardar o lixo corretamente e retirar sobras de ração.
Quando o animal não sai espontaneamente, a Semil orienta, na cidade de São Paulo, pedir ajuda à Guarda Civil Metropolitana; em outras localidades, a órgãos especializados em resgate. Em Porto Alegre, por exemplo, o canal é o telefone 156 ou o WhatsApp da Equipe de Fauna da prefeitura, (51) 3289-7517. Nas demais cidades, vale procurar a secretaria municipal de meio ambiente ou o serviço de zoonoses.
A dieta inclui escorpiões, insetos e frutas
O gambá é onívoro e come quase de tudo. A página de espécies da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo cita insetos, vermes, cobras pequenas e ovos de aves, com as frutas respondendo por cerca de um quarto da dieta. Um estudo da Universidade La Salle e da Univates, publicado na revista Biota Neotropica, encontrou frutos em 96% das amostras de fezes do gambá-de-orelha-branca analisadas no Rio Grande do Sul, de 18 espécies de plantas, e classificou o animal como frugívoro-onívoro. Por isso ele também espalha sementes e ajuda a regenerar áreas verdes.
Os escorpiões entram na lista. O folheto de 2025 sobre escorpiões do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria da Saúde de São Paulo inclui os saruês entre os predadores naturais do aracnídeo, ao lado de sapos, corujas, lagartos e galinhas. A Prefeitura de Porto Alegre acrescenta que os gambás ajudam a controlar pragas urbanas como baratas, carrapatos e escorpiões.
A fama de comer milhares de carrapatos vem de um estudo contestado
Nas redes, circula a ideia de que o gambá devora milhares de carrapatos por semana. Esse número saiu de um experimento de 2009 nos Estados Unidos com o gambá norte-americano, outra espécie, mantido em cativeiro. Segundo a extensão da Universidade de Illinois, uma pesquisa de 2021 revisou 23 estudos de dieta e não achou evidência de carrapatos adultos ou ninfas comidos pelo animal; nos estômagos de 32 gambás examinados, não havia partes de carrapato. Ou seja, o gambá pode até ajudar, mas não substitui o cuidado com cães, gatos e quintal.
Gambá não solta mau cheiro como o cangambá, mas pede cuidados de higiene
Muita confusão vem do nome. “É importante lembrar que, diferente do cangambá, os gambás não soltam mau cheiro”, disse a bióloga Soraya Ribeiro, coordenadora da Equipe de Fauna Silvestre de Porto Alegre. O odor forte só aparece quando o gambá é acuado: segundo a Semil, ele arreganha os dentes, solta uma secreção fétida e pode fingir-se de morto, como forma de defesa, e “não é um animal violento, que parte para o ataque”.
Ainda assim, não é bicho para pegar com a mão. A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo alerta que a urina pode transmitir leptospirose, as fezes podem transmitir verminoses e a mordida pode transmitir raiva. A recomendação é limpar os locais por onde ele passou com água, sabão e álcool.
Os encontros ficam mais comuns na primavera, época de reprodução da espécie, quando as fêmeas procuram abrigo para os filhotes. Nesse período, a paciência é a melhor ferramenta: deixar a saída livre, esperar a noite e só depois fechar o caminho de volta.
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Informações conferidas em 19 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



