Muita gente já viu a cena: alguém da casa enche o pote de ração todo dia, mas o gato passa a noite no colo de outra pessoa, a que conversa com ele e faz carinho. Pesquisas da Universidade Estadual do Oregon, nos Estados Unidos, ajudam a explicar o comportamento: num teste de preferência, metade dos gatos escolheu interação com gente antes da comida, e em outro estudo eles passaram mais tempo perto da pessoa que prestava atenção neles.
No teste de preferência, metade dos gatos escolheu gente antes de comida
O primeiro estudo saiu em 2017 na revista científica Behavioural Processes, assinado por Kristyn Vitale Shreve, Lindsay Mehrkam e Monique Udell. A equipe testou gatos de casa e gatos de abrigo depois de duas horas e meia sem comida e sem contato social. Cada animal recebeu opções de quatro categorias: interação com uma pessoa, comida, brinquedo e cheiros.
Depois, os favoritos de cada categoria foram oferecidos juntos para ver qual o animal procurava mais. Dos 38 gatos analisados (19 de casa e 19 de abrigo), 19 preferiram a interação social com humanos, ou seja, 50%. A comida foi a favorita de 14, cerca de 37%.

Há um detalhe importante: a diferença entre interação e comida não foi estatisticamente significativa, e os resultados variaram bastante de um gato para outro. O resumo publicado conclui que a interação social com humanos foi a categoria preferida pela maioria dos gatos, seguida pela comida, tanto entre os de casa quanto entre os de abrigo.
Gatos ficam mais tempo perto da pessoa que presta atenção neles
Na edição de janeiro de 2019 da mesma revista, Vitale e Udell publicaram um segundo trabalho, sobre sociabilidade. Os pesquisadores mediram quanto tempo o gato ficava perto de uma pessoa, em contato com ela e quantas vezes miava, em duas situações: com a pessoa atenta ao animal e com a pessoa desatenta. O resultado apareceu nos dois grupos testados: tanto os gatos de casa quanto os de abrigo passaram significativamente mais tempo perto da pessoa atenta.
O mesmo estudo trouxe outra informação curiosa. Entre os gatos de casa, a familiaridade com a pessoa não mudou de forma significativa o comportamento: o que pesou foi a atenção recebida durante o teste. Os autores registraram ainda uma grande variação individual, o que significa que existem gatos muito sociáveis e outros bem mais reservados.
Os estudos não mediram diretamente uma “pessoa favorita” dentro de cada casa, mas mostram que a atenção humana pesa muito para o animal.
Dois em cada três gatos têm apego seguro ao tutor, como os bebês
O estudo mais citado sobre o tema saiu em 23 de setembro de 2019 na revista Current Biology, com Kristyn Vitale, Alexandra Behnke e Monique Udell. Segundo o comunicado da Universidade Estadual do Oregon, a equipe usou o chamado teste da base segura, adaptado de pesquisas com bebês e cães. O gato passava dois minutos numa sala desconhecida com o tutor, dois minutos sozinho e mais dois minutos depois do reencontro.
Entre os 70 filhotes classificados, 64,3% mostraram apego seguro e 35,7%, apego inseguro. Num grupo de 38 gatos adultos, com 1 ano ou mais, a divisão foi parecida: 65,8% seguros e 34,2% inseguros. A universidade compara o número com o de bebês humanos, dos quais cerca de 65% têm apego seguro a quem cuida deles.
O gato com apego seguro fica menos estressado na volta do tutor e segue explorando o ambiente. O inseguro mostra sinais de estresse e depois evita a pessoa ou se agarra demais a ela. Segundo Vitale, no mesmo comunicado, a maioria dos gatos usa o humano como fonte de conforto em situações de estresse, e o estilo de apego tende a ficar estável com o tempo, mesmo depois de um curso de socialização de seis semanas.
Piscada lenta e reação ao próprio nome são sinais medidos em laboratório
Outras pesquisas ajudam a reconhecer o vínculo no dia a dia. Um estudo da Universidade de Sussex, no Reino Unido, publicado em 2020 na Scientific Reports, analisou a piscada lenta: uma série de meias piscadas seguida de olhos semicerrados ou fechados. Quando os tutores piscavam devagar para os gatos, os animais respondiam com mais meias piscadas. Num segundo teste, com uma pesquisadora desconhecida, os gatos se aproximaram mais da mão dela depois da piscada lenta do que quando ela mantinha o rosto neutro. Os autores concluem que o gesto pode funcionar como uma forma de comunicação emocional positiva entre gatos e humanos.
Já um estudo japonês publicado em 2019 na mesma revista mostrou que gatos de casa distinguem o próprio nome de outras palavras. Depois de ouvir uma série de substantivos comuns ou nomes de outros gatos, os animais voltavam a reagir quando escutavam o próprio nome, mesmo quando quem chamava era uma pessoa desconhecida.
Juntando os trabalhos, os sinais de vínculo que a ciência já observou são estes:
- procurar a pessoa e ficar perto dela quando ela está atenta;
- usar o tutor como porto seguro num lugar novo e voltar a explorar depois do reencontro;
- responder à piscada lenta com olhos semicerrados ou se aproximar depois dela;
- reagir ao próprio nome, mexendo orelhas, cabeça ou cauda.
Atenção vale mais do que só encher o pote
Para quem quer se aproximar do gato, os estudos apontam um caminho simples: dar atenção quando ele chega perto, chamar pelo nome e experimentar a piscada lenta à distância, deixando que o animal decida se quer contato. A comida continua importante, mas os resultados indicam que ela não é a única coisa que conta para o gato.
Vale lembrar que cada gato tem seu jeito, como os próprios pesquisadores destacam. Se o comportamento muda de repente, com isolamento, agressividade ou falta de apetite, a orientação é levar o animal ao médico-veterinário.
Informações conferidas em 13 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



