Alguém atravessa o gramado de uma praça, e um quero-quero começa a gritar a dezenas de metros. Segundos depois, a ave passa voando baixo sobre a cabeça da pessoa, gira e volta para o mesmo ponto. Estudos de biólogos sobre o quero-quero (Vanellus chilensis) mostram que esse ataque é defesa: entre o fim do inverno e o início do verão, ele protege ovos e filhotes que ficam em um ninho raso, direto no chão.
O rasante é um aviso de que há ovos ou filhotes por perto
O comportamento foi descrito em detalhe por Diego Gallegos Luque no estudo “Aspectos de la biología reproductiva del Tero Común“, publicado em 1984 na revista científica El Hornero, da Argentina, onde a ave é chamada de tero. O pesquisador listou pessoas a pé, cavaleiros, veículos e aves de rapina entre os intrusos que disparam o alarme e anotou que os quero-queros costumavam reagir antes mesmo de ele chegar a cerca de 150 metros.
A defesa tem etapas, segundo o mesmo trabalho:

- Alarme: o grito é ouvido de longe, e os vizinhos repetem o aviso; o autor registrou até doze aves reunidas sobrevoando o intruso;
- Voo rasante: a ave pode descer em mergulho baixo sobre o intruso, gritando, embora isso não ocorra com tanta frequência;
- Investida: um dos adultos avança de frente para o intruso, mesmo que ele seja muito maior;
- Falso ninho e asa ferida: a ave se agacha como se chocasse ovos em outro ponto ou finge estar machucada para atrair o intruso para longe.
Ou seja, o lugar onde o quero-quero parece estar chocando nem sempre é o ninho de verdade.
A reprodução vai do fim do inverno ao início do verão, com o ninho no chão
A época varia de região para região. Em um trabalho de estudantes da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), publicado nos anais de um congresso na revista do Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo, o período reprodutivo aparece como de julho a dezembro. Em Brasília, a pesquisa de mestrado de Eduardo da Silva Alves dos Santos na Universidade de Brasília (UnB) acompanhou ninhos em duas temporadas, de 3 de agosto a 6 de dezembro de 2007 e de 8 de agosto a 16 de outubro de 2008. No Sul, a Prefeitura de Porto Alegre lembra que esses casos “se repetem a cada primavera”.
O ninho é simples. O guia de fauna da Universidade das Índias Ocidentais descreve buracos rasos em áreas de campo, perto de onde as aves se alimentam, com postura de 2 a 4 ovos e incubação de 26 a 27 dias, dividida entre machos e fêmeas. Na UnB, as ninhadas tinham de 1 a 4 ovos, em média 3,2, e os filhotes são precoces, capazes de andar pouco depois de nascer. O mesmo guia lembra que a espécie ocupa ambientes urbanos, como parques, jardins e aeroportos, e é por isso que o encontro com pessoas acontece tanto na cidade.
Esporões nas asas e ajuda do grupo tornam a defesa mais forte
O quero-quero tem esporões no ângulo das asas, que, segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da Sustentabilidade de Porto Alegre (Smams), são usados como arma de ataque e defesa. A pesquisa da UnB mostrou ainda que a ave muitas vezes não cria os filhotes só em casal: há grupos com um par reprodutor e um ou mais indivíduos extras, que ajudam a defender ativamente os ninhos contra predadores.
A distância conta. No campus da UFRB, os ataques foram mais frequentes quando o intruso estava a menos de cinco metros do filhote, e as defesas com ataque predominaram por causa do período reprodutivo. Na revista Iheringia, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que observaram a espécie por um ano em Torres (RS) registraram aumento dos comportamentos agonísticos e reprodutivos na estação de reprodução.
Destruir o ninho ou maltratar a ave é crime ambiental
O quero-quero é fauna silvestre nativa. A Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, a Lei de Crimes Ambientais, pune no artigo 29 quem mata, persegue, caça ou apanha espécimes da fauna silvestre sem autorização, com detenção de seis meses a um ano e multa. Na mesma pena incorre, pelo § 1º, quem “modifica, danifica ou destrói ninho, abrigo ou criadouro natural” e quem impede a procriação da fauna sem licença.
Foi com base nessa lei que a Smams avisou, em setembro de 2020, que quem fosse flagrado incomodando um grupo de quero-queros com ninhos na Orla Moacyr Scliar poderia ser enquadrado. Em vez de remover as aves, a prefeitura cercou a área. “Retirá-las de lá seria quase uma sentença de morte devido a sua fragilidade”, explicou na ocasião a bióloga Soraya Ribeiro, coordenadora da equipe de Faunas.
Como passar perto sem levar rasante
- Desvie: se a ave gritar ou voar baixo, mude o caminho e ganhe distância, já que os ataques se concentram perto dos filhotes;
- Olhe para o chão: o ninho é só um buraco raso no gramado e passa despercebido, então ande com atenção onde há aves alarmadas;
- Segure o cachorro: a bióloga da Smams pediu atenção especial a quem circula com cães perto dos ninhos;
- Não mexa no ninho: mudar os ovos de lugar, cobrir ou destruir o ninho é crime pela Lei nº 9.605;
- Avise o órgão ambiental: se o ninho estiver em área de muito movimento, procure a secretaria de meio ambiente da cidade, que pode isolar o local até os filhotes ficarem independentes, como fez a Smams em Porto Alegre.
Os estudos mostram que a agressividade se concentra na estação reprodutiva. Manter distância até os filhotes ganharem independência resolve o problema para os dois lados.
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Informações conferidas em 13 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



