O nome científico é Siphonops maria, e o apelido sugerido pelos próprios pesquisadores é ainda mais simples: cecília-maria. A nova espécie de anfíbio, encontrada na Mata Atlântica do Rio de Janeiro, foi descrita em artigo publicado on-line em 1º de setembro de 2026 no Zoological Journal of the Linnean Society. A escolha de Maria homenageia uma mulher escravizada que ajudou a reflorestar a Floresta da Tijuca no século 19 e, ao mesmo tempo, as milhões de brasileiras que carregam o nome mais comum do país.
Maria, a mulher sem sobrenome que plantou a Floresta da Tijuca
A primeira Maria da história é específica. Segundo a nota divulgada pelo Museu Paraense Emílio Goeldi em 11 de setembro, ela foi uma das 11 pessoas escravizadas que participaram do reflorestamento da área hoje abrangida pelo Parque Nacional da Tijuca. O museu explica que ela não tinha sobrenome porque o sistema escravocrata negava às pessoas escravizadas identidade individual.
O trecho do artigo reproduzido pelo museu resume o trabalho: “Entre 1861 e 1874, sob ordem do imperador Dom Pedro II, Maria e outras 10 pessoas escravizadas plantaram mais de 100 mil árvores, contribuindo para a restauração da floresta e das nascentes que abasteciam a então capital do Brasil, que havia sido severamente afetada pelo desmatamento”.
A segunda homenagem é coletiva. O primeiro autor do estudo, Adriano Oliveira Maciel, pesquisador do Museu Goeldi, em Belém, contou à Agência FAPESP: “Acabou sendo também uma homenagem às mulheres do Brasil, uma vez que é o nome mais popular do país e um dos mais utilizados no mundo. Aqui há mais de 12 milhões de Marias. Todo mundo conhece uma; por exemplo, a minha mãe e quase todas as minhas tias se chamam Maria”. Segundo o museu, o nome também está nas famílias de vários autores, entre mães, irmãs, tias, avós, uma bisavó e uma esposa.
O Censo 2022 confirma Maria como o nome mais comum do país

Os números do painel Nomes no Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), feito com dados do Censo Demográfico 2022, sustentam a homenagem. Maria aparece em primeiro lugar no ranking geral de primeiros nomes, com 12.284.478 registros, mais que o dobro de José, o segundo colocado, com 5.164.752.
Entre as mulheres, são 12.224.470 Marias, cerca de 12% da população feminina. O segundo nome feminino mais comum, Ana, soma 3.929.951 registros, menos de um terço disso. O artigo científico fala em “mais de 11 milhões de mulheres”, segundo o resumo do Museu Goeldi; a contagem do Censo 2022 vai além disso.
A cecília-maria mede até 19 centímetros e tem olhos cobertos por pele
Cecílias são anfíbios da ordem Gymnophiona que vivem quase sempre debaixo da terra. O nome vem do latim caecus, que significa cego, em referência aos olhos reduzidos. Por isso, no Brasil, esses animais costumam ser chamados de cobra-cega, embora não sejam cobras. A Agência FAPESP lembra que, apesar de parecerem minhocas em fotos, as cecílias são vertebrados, com esqueleto.
De acordo com o Museu Goeldi, a cecília-maria tem no máximo 192 milímetros de comprimento, de 110 a 119 anéis no corpo e olhos pequenos cobertos por pele. Ela foi registrada em fragmentos de Mata Atlântica do estado do Rio de Janeiro, alguns perto de áreas urbanas, a maioria dentro de unidades de conservação municipais, estaduais e federais. O museu cita ocorrências nos municípios do Rio de Janeiro e de Niterói.
O exemplar de referência, chamado holótipo, foi coletado em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos e está guardado no Museu Goeldi. O catálogo Amphibian Species of the World, do Museu Americano de História Natural, registra o número MPEG 41638 e a localidade-tipo no município de Guapimirim, a cerca de 380 metros de altitude.
Exemplares guardados em museus estavam com o nome errado
A espécie passou anos escondida dentro de outra. “Inicialmente, pensava-se que se tratava da espécie Siphonops hardyi”, contou Maciel à Agência FAPESP. “Quando o recebi, porém, notei que o número de anéis corporais e a dentição eram diferentes do que era conhecido para aquela espécie.”
Em visitas ao Museu de História Natural de Paris e ao Museu Nacional, no Rio, o pesquisador encontrou exemplares identificados como S. hardyi que tinham as características da nova espécie, entre eles um coletado em 1902 na própria Serra dos Órgãos. Para separar os grupos, a equipe de 13 autores, de instituições do Brasil, da Argentina, da Colômbia e da Alemanha, combinou sequenciamento de três marcadores genéticos, contagem de anéis e dentes e tomografia de alta resolução do crânio, com quase 30 parâmetros comparados.
Três espécies mudam de nome e outras duas podem ser novas
O artigo publicado na revista científica também mexe na classificação da família Siphonopidae. Os autores concluíram que o gênero Luetkenotyphlus não se distingue de Siphonops e passaram a tratá-lo como sinônimo. “As três espécies que até então pertenciam ao gênero Luetkenotyphlus passam a se chamar Siphonops brasiliensis, S. fredi e S. insulanus”, explicou Maciel à Agência FAPESP. Com a cecília-maria, a família soma 29 espécies em quatro gêneros, segundo o Museu Goeldi.
O estudo ainda apontou duas linhagens parecidas com S. hardyi que podem ser espécies novas: uma em Ubatuba, no litoral paulista, e outra em Castelo e Domingos Martins, no Espírito Santo. Para confirmar, os pesquisadores precisam de mais exemplares. “Isso pode levar mais alguns anos, mas seguimos buscando”, disse Maciel. Enquanto isso, os autores reforçam no artigo a importância de preservar os remanescentes de Mata Atlântica onde a cecília-maria vive.
Informações conferidas em 8 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



