A ideia de que um ovo por dia faz o colesterol disparar ainda passa de geração em geração, mas não é o que dizem hoje as entidades de cardiologia. A American Heart Association (AHA) afirma que pessoas saudáveis podem incluir até um ovo inteiro por dia, e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) sugere que o ovo faça parte da dieta dentro de um padrão alimentar saudável. A ressalva vale para quem tem diabetes tipo 2 ou responde de forma exagerada ao colesterol dos alimentos: nesses casos, a orientação é de cautela.
A cardiologia americana deixou de fixar um teto para o ovo
Durante anos, a recomendação nos Estados Unidos era limitar o colesterol da dieta a 300 mg por dia, e o ovo, com cerca de 200 mg de colesterol em uma unidade grande, virou o principal alvo. Essa conta mudou. Em dezembro de 2019, a AHA publicou na revista Circulation um alerta científico sobre colesterol alimentar e risco cardiovascular, que esclarece o papel do ovo e defende que a orientação se concentre no padrão alimentar como um todo, e não em um número isolado de miligramas.
Segundo o documento, estudos observacionais feitos em vários países, de modo geral, não mostram associação significativa entre o colesterol da dieta e o risco de doença cardiovascular, embora estudos de intervenção indiquem que consumir colesterol acima da média atual tende a elevar o colesterol total e o LDL, o chamado colesterol ruim. A reportagem da própria AHA sobre o tema, publicada em agosto de 2023, resume a regra prática do alerta: pessoas saudáveis podem consumir até um ovo inteiro por dia, ou o equivalente, e idosos com colesterol em níveis saudáveis podem comer dois, pelo valor nutricional e pela praticidade.

A mesma reportagem faz um alerta: a mudança não é passe livre para comer todo o colesterol que se quiser.
O que a cardiologia brasileira diz sobre o ovo
No Brasil, o texto que trata do assunto em detalhe é o Posicionamento sobre o Consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular de 2021, da SBC, publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia. O documento registra que a AHA deixou de limitar o consumo de ovos como forma de proteção contra doenças cardiovasculares e que a recomendação passou a focar na limitação das gorduras saturadas, o que tende a limitar também o colesterol alimentar.
O posicionamento descreve o ovo de galinha de 50 g como fonte de 7,5 g de proteína de alto valor biológico, 1,6 g de gordura saturada e cerca de 200 mg de colesterol, além de 147 mg de colina na gema. Os autores concluem que o conjunto das evidências “não é capaz de estabelecer relação de causalidade entre consumo de ovos e DCV”, sigla de doença cardiovascular, e sugerem que o ovo faça parte da dieta, “desde que integrante de um padrão alimentar saudável”.
A diretriz mais recente da entidade, a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025, segue a mesma linha: defende uma abordagem qualitativa da alimentação, com prioridade para comida minimamente processada e rica em fibras. As metas numéricas que ela traz são para nutrientes, não para o ovo: gordura saturada abaixo de 7% das calorias do dia, zero gordura trans e pelo menos 25 g de fibras por dia. O documento não estabelece uma quantidade de ovos.
Quem tem diabetes ou colesterol alto precisa de cautela
As próprias diretrizes apontam onde a regra geral não se aplica. O posicionamento da SBC diz que a divergência entre os estudos “sugere cautela de consumo especialmente entre portadores de DM2 e indivíduos hiper-responsivos ao colesterol alimentar”. DM2 é o diabetes tipo 2; hiper-responsivos são as pessoas cujo colesterol no sangue sobe mais quando comem alimentos ricos em colesterol.
Os números citados no documento ajudam a entender a preocupação:
- Em pessoas com diabetes tipo 2, uma revisão de estudos de coorte associou o consumo de um ovo ou mais por dia a um risco 69% maior de doença cardiovascular, na comparação com quem comia menos de um ovo por semana, sem aumento de mortalidade.
- Em pessoas hiper-responsivas, uma metanálise de 28 estudos, com consumo entre cinco ovos por semana e três por dia, encontrou alta média de 5,55 mg/dL no LDL e de 2,13 mg/dL no HDL, o colesterol bom.
- Em adultos com colesterol normal e fisicamente ativos, dois ovos por dia durante 12 semanas não alteraram as lipoproteínas do sangue.
A AHA vai na mesma direção. Segundo a reportagem da entidade, quem tem LDL alto deve considerar reduzir tanto a gordura saturada quanto o colesterol da dieta, em especial se tiver sobrepeso, obesidade ou outros fatores de risco. Para quem tem LDL baixo, alguns ovos por semana são considerados toleráveis. Nenhum dos documentos fixa um número de ovos para quem tem diabetes ou colesterol alto: esse limite é individual.
O Guia Alimentar trata o ovo como comida de verdade
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, classifica o ovo entre os alimentos in natura e o coloca no grupo das carnes e ovos. O texto descreve os ovos como acessíveis e relativamente baratos no Brasil, ricos em proteínas de alta qualidade, minerais e vitaminas do complexo B, e os considera bons substitutos para as carnes vermelhas. O guia não fala em colesterol nem fixa quantidade diária; a única restrição é de segurança: evitar consumir carnes e ovos crus.
Na prática, o que acompanha o ovo pesa tanto quanto ele. Segundo a reportagem da AHA, as pesquisas sobre o ovo são difíceis de interpretar porque ele costuma ser consumido com alimentos gordurosos, como bacon, linguiça e manteiga. O guia brasileiro sugere combinar o ovo com legumes e verduras.
Quem tem diabetes, colesterol alto ou histórico de doença do coração deve levar os exames recentes à consulta e definir com um médico ou nutricionista quantos ovos cabem na própria rotina.
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Informações conferidas em 13 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



