Rioforte vende Espírito Santo Viagens à Springwater

Holding do Grupo Espírito Santo deu calote de 897 milhões na Portugal Telecom

A Rioforte, holding do Grupo Espírito Santo que tem atuação no Brasil e que deu um calote de 897 milhões de euros na Portugal Telecom, que passa por processo de fusão com a Oi, anunciou na manhã desta segunda-feira (29) que fechou um acordo com a suíça Springwater para a venda da Espírito Santo Viagens. Trata-se de sua primeira venda de ativo desde que entrou em recuperação judicial. 

De acordo com o português Diário Económico, o tribunal do Luxemburgo autorizou a operação por considerar que a ES Viagens perderia valor se continuasse integrada na Rio Forte, dado que opera num sector particularmente vulnerável às dificuldades no acesso ao financiamento bancário decorrentes da gestão controlada. Um juiz deve decidir o futuro da empresa na próxima segunda-feira (6). 

Entre os ativos da Rioforte, estão os 55% que a empresa detém na Espírito Santo Health Care Investments, que tem 51% da ES Saúde.

A Rioforte, holding  do Grupo Espírito Santo (GES) com atuação na área de Turismo, havia identificado uma necessidade de levantar capital de 2 bilhões de euros duas semanas antes de entrar com pedido de recuperação judicial em Luxemburgo. A empresa deu um calote de 897 milhões de euros na Portugal Telecom, que havia emprestado o valor quando as dificuldades financeiras do grupo já eram públicas, e que está em pleno processo de fusão com a brasileira Oi, gerando prejuízos a acionistas e atrapalhando a criação da CorpCo.

Os braços do Grupo Espírito Santo no Brasil

Como o Jornal do Brasil já publicou no início de julho, o Grupo Espírito Santo desenvolve atividades financeiras no Brasil, direta ou indiretamente, desde 1976, dois anos após a Revolução dos Cravos que derrubou o regime salazarista em Portugal. Na época, os acionistas viraram alvo de intensa perseguição política, o banco foi nacionalizado e os principais sócios deixaram Portugal. Iniciaram, então, atividades financeiras no Brasil, na Suíça, na França e nos Estados Unidos, com destaque para a multiplicação dos negócios em terras brasileiras. Informações dão conta de que eles se associaram a grupos brasileiros, participando de operações ilícitas e causando grandes prejuízos. A família retomou o Banco Espírito Santo posteriormente.

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O processo de internacionalização da Portugal Telecom, iniciado em 1997, esbarra com o mercado brasileiro de telecomunicações em 1998, com a aquisição de importantes entidades, como a Telesp Celular, Telesp Fixa e a Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). Uma das etapas de privatização no Brasil aconteceu no governo de Fernando Henrique Cardoso, tendo como marco a aprovação da Lei de Concessões, em fevereiro de 1995. O objetivo era criar regras gerais para o governo conceder a terceiros o direito de explorar a produção de serviços públicos, a exemplo do setor de geração de energia elétrica e de telecomunicações. A privatização dessas áreas exigiu um esquema complexo de regulação, para alcançar a maior competição do setor, na promessa de eliminação do monopólio público. A maioria dos compromissos de investimento feitos pela Portugal Telecom na época ainda estão no papel.

O ex-ministro das Finanças de Portugal, Miguel Cadilhe, em entrevista ao Económico sobre o colapso do Grupo Espírito Santo (GES) em meados de agosto, havia alertado que a queda do GES representa uma crise institucional que desacredita as elites. Ele ainda se disse "chocadíssimo" com a situação do grupo.

"Pior que surpreendido, fiquei chocadíssimo. Não é que não houvesse alguns indícios de que algo podia acontecer. Ao longo dos anos, o BES (Banco Espírito Santo) aparecia associado a alguns processos mais complicados do ponto de vista comportamental e de conformidade com a lei. Acreditei que poderiam ser apenas indícios, não o que infelizmente veio a ocorrer. Mas a Justiça o dirá", disse Cadilhe ao Económico.

Fernando Pinto, presidente da companhia aérea Tap, também em conversa com o jornal Económico, também comentou sobre o caso: "O BES, o Grupo como um todo e até a figura do Ricardo Salgado são ícones de Portugal e a destruição de um ícone desses preocupa-me muito".