AGROPECUÁRIA
El Niño já afeta lavouras, mas impacto na inflação ainda é contido
Por ECONOMIA JB
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Publicado em 01/08/2026 às 07:05
Alterado em 01/08/2026 às 08:15
Calor excessivo e a estiagem prolongada no Centro-Oeste e em Minas Gerais podem prejudicar lavouras de café (acima), cana-de-açúcar e pastagens Foto: Ansa
As chuvas intensas registradas no Rio Grande do Sul nas últimas semanas acenderam o alerta para os efeitos do El Niño sobre a safra e sobre a inflação de alimentos. Até aqui, porém, especialistas avaliam que o fenômeno provoca distorções climáticas visíveis, mas com impactos ainda restritos a culturas específicas.
Na leitura de economistas e meteorologistas ouvidos pela Broadcast, o cenário atual não indica, por enquanto, um choque de oferta generalizado. A principal preocupação está em lavouras mais sensíveis ao excesso de chuva, ao calor acima da média e à escassez de umidade em determinadas regiões produtoras.
Efeitos iniciais no campo
Para Carlos Thadeu Freitas Gomes Filho, da BGC Liquidez, o El Niño costuma seguir uma espécie de curva em “J” nos preços de alimentos. Na fase inicial, o efeito pode até ser benigno para a inflação, já que o calor e a luminosidade aceleram a maturação de hortifrutícolas, como uvas e tomate, antecipando colheitas e ajudando a conter preços de itens in natura.
Segundo ele, esse movimento já foi observado em maio e junho, com queda em algumas categorias. Mais à frente, no entanto, o calor excessivo e a estiagem prolongada no Centro-Oeste e em Minas Gerais podem prejudicar lavouras de café, cana-de-açúcar e pastagens, levando o mercado a incorporar prêmios de risco nas commodities agrícolas.
Riscos para soja, trigo e arroz
O economista destaca que a soja também entra no radar, embora o risco não seja integral. Em seu histórico, eventos de El Niño coincidiram com quebras de safra no Mato Grosso em 75% dos casos, índice que sobe para 100% quando o recorte é café arábica.
Já no Rio Grande do Sul, as chuvas podem afetar a produtividade do trigo, a depender da intensidade das precipitações. O meteorologista e consultor Francisco de Assis afirma que os primeiros sinais do fenômeno já são visíveis, com frentes frias bloqueadas no Sul, temporais, granizo fora de época e até formação de tornados.
Assis também aponta temperaturas de até 38 graus no Centro do Brasil e na Bahia, acima do padrão para o inverno. Na avaliação dele, o trigo é a cultura mais imediatamente afetada, com perda de produtividade e de qualidade, e o arroz no Rio Grande do Sul também pode sofrer impactos.
Inflação ainda sem reflexo forte
Para Mariana Silva, economista do Bradesco, os dados mais recentes de inflação, como o IPCA de junho e o IPCA-15 de julho, ainda não mostram efeito relevante do El Niño. Mesmo assim, o banco vê alguma probabilidade de impacto adiante e já usa indicadores climáticos em seus modelos de projeção.
A instituição, no entanto, decidiu incorporar apenas parte do risco estimado pelo próprio modelo, em razão da incerteza sobre quais culturas serão efetivamente atingidas e do fato de que boa parte das safras relevantes ainda nem foi plantada. A estimativa adicionada às projeções é de 10 a 15 pontos-base em 2026 e de 25 a 30 pontos-base no próximo ano.
Comparação com 2014 e cautela nas projeções
No campo climático, Assis lembra que 2014, outro ano de El Niño muito forte, terminou com inflação de alimentos de 8,03%. Ele observa semelhanças entre os padrões de chuva daquele período e os de agora, inclusive com maior incidência de tornados no Sul.
A diferença, segundo os especialistas, está na cautela atual. A avaliação predominante é que um único episódio de El Niño, sem repetição em anos consecutivos, tende a gerar impacto pontual, e não uma escalada prolongada de preços. Por isso, o mercado acompanha o clima, mas ainda evita projetar um choque amplo sobre os alimentos.(com informações da Agência Estado)