Jornal do Brasil

Olhar para dentro

Olhar para dentro

Flávio Cordeiro

Você deixaria seu filho adolescente no meio de uma floresta à noite? Os holandeses, sim!

Jornal do Brasil

Na semana passada o The New York Times revelou uma prática inusitada entre os holandeses, o “dropping”, que em inglês quer dizer “deixar” ou “largar”. No caso “deixar” ou “largar" seus filhos pré-adolescentes, entre 11 e 13 anos, no meio de uma floresta à noite. Eles são levados de olhos vendados até um determinado ponto da floresta e deixados lá, munidos apenas de um GPS rudimentar. Sua missão é encontrar o caminho de volta para a base do acampamento. O percurso, quando bem sucedido, pode durar cerca cinco horas de caminhada pela escuridão. Link para a matéria completa: (https://www.nytimes.com/2019/07/21/world/europe/netherlands-dropping-children.html).

Essa prática diz muito a respeito da visão que os holandeses têm sobre como educar e preparar seus filhos para a vida. As crianças são estimuladas, desde muito cedo, a não dependerem exageradamente dos adultos, e os adultos são ensinados a deixar que seus filhos comecem o quanto antes a tentar resolver seus problemas por conta própria com muito pouca supervisão.

Macaque in the trees
(Foto: Annie Spratt (Unsplash))

O "dropping é uma versão contemporânea de algo muito arcaico: os rituais de passagem que marcam a iniciação do adolescente ao mundo adulto. A raiz arquetípica dessa prática pode ser encontrada nos muitos contos de fadas nos quais crianças são deixadas na floresta e devem encontrar o caminho de volta sozinhas. O mais famoso deles talvez seja “João e Maria” dos irmãos Grimm e uma versão contemporânea “adocicada” pode ser encontrada no desenho animado da década de 80 “Caverna do Dragão”.

Grande parte das sociedade tradicionais e tribais mantém ainda hoje rituais de passagem extremamente traumáticos: na Amazônia brasileira os meninos das tribos Sateré Mawé, precisam enfiar as duas mãos em uma luva repleta das temidas formigas tocandira e dançar durante dez minutos recebendo picadas tão dolorosas que em alguns casos podem até provocar convulsões. Na tribo Sa, no oceano pacífico, pratica-se o ritual de passagem chamado Naghol, ou “salto no vazio”. Os meninos amarram cipós nos pés e saltam “no vazio” de torres de madeira de 30 metros de altura, para provar sua bravura e serem aceitos como guerreiros. Como os cipós não são elásticos, qualquer erro na medida das cordas pode ser fatal. Na tribo Xhosa, na África do Sul, os meninos adolescentes devem ser submetidos à circuncisão à sangue frio.

Estes são alguns exemplos de ritos arquetípicos, que como tal, tendem a colidir com a nossa lógica racional, nossos padrões éticos e civilizacionais modernos. No próprio "dropping" há relatos de crianças que morreram atropeladas ao trafegar por acostamentos da estrada, tentando escapar da escuridão da floresta, crianças que foram esquecidas vagando na floresta por instrutores que beberam demais e crianças encurraladas em situação de risco, o que levou a um aprimoramento dos mecanismos de segurança, mas não ao banimento da prática pelos holandeses, que continuam achando o "dropping" um ritual importante em sua cultura.

Ritos de passagem arquetípicos são necessariamente traumáticos porque têm um objetivo claro: matar simbolicamente a criança para que ela renasça como adulto e membro responsável em sua comunidade. É claro que a sociedade ocidental contemporânea não pode admitir que tais rituais, tão cheios de dor e violência, sejam praticados. Podemos ver alguns resquícios de rituais de passagem arcaicos, já bastante atenuados nos dias de hoje, nos trotes de faculdade que tinham na raspagem de cabelo um símbolo de iniciação, no baile de debutantes, na raspagem de cabelo dos jovens que iniciam o serviço militar ou até mesmo nas festas de formatura.

A experiência do “dropping"holandês é significativa, pois aparentemente produz efeitos similares aos rituais arcaicos. A matéria do NYT acompanhou Stijn Jongewaard um menino de 11 anos. No dia seguinte ao seu "dropping" ele acorda e sai cambaleante de sua barraca com os olhos turvos de cansaço. O que ele tem a dizer sobre a experiência traumática de caminhar 5 horas madrugada à dentro na floresta? “Isso me mostrou que mesmo nas horas mais duras é preciso continuar a caminhar, que é preciso continuar a seguir em frente, eu não quero passar por isso nunca mais na minha vida”. Mas se um dia, vier a ter filhos, ele afirma que gostaria que seus filhos possam viver essa mesma experiência.

As experiências arquetípicas ancestrais tiveram a histórica função de propiciar vivências heróicas, vivências de superação, que conduzem à saída do ego infantil e ao início da conquista de uma nova identidade como membro da sociedade.

Como já mencionei em outra coluna ( https://www.jb.com.br/colunistas/olhar_para_dentro/2019/05/998790-ser-e-adolescer--as-tres-dimensoes-da-adolescencia.html ), em nossa cultura a adolescência tem começado cada vez mais cedo e terminado cada vez mais tarde.Os rituais arcaicos que marcavam o fim de uma fase e a entrada em uma nova identidade foram sendo enfraquecidos pelo desenvolvimento de novos e necessários padrões éticos e civilizacionais, mas essa transformação não se deu sem algumas consequências. Na falta de experiências arquetípicas heróicas, surgem uma série de vivências substitutas. Alguns exemplos:

Cada vez mais essas vivências se dão por meio de batalhas "violentas" e "sangrentas" vividas nas telas nos video-games, uma vivência heróica sem riscos reais, portanto extremamente atraente e até viciante. Lembro do que um pré-adolescente me disse certa vez: "O jogo é o único lugar onde sinto que sou alguém”;

A emergência de vivências heróicas negativas. O herói negativo afirma sua existência por meio de delinquência, vandalismo, uso excessivo de álcool e drogas, auto-mutilações ou mesmo por por meio de vivências obscuras na Deep Web; Quer ser reconhecido pelos seus pares e pelos adultos, nem que seja como ameaça aos valores da cultura vigente;

A perda de vitalidade e o congelamento da energia psíquica que resulta em episódios depressivos e perda de significado na vida. São fenômenos que têm se tornado cada vez mais prevalentes entre adolescentes e jovens adultos.

É como se o jovem nos dissesse: na ausência de formas estruturadas de iniciação, que me reconheçam como membro ativo na sociedade, eu permaneço infantilizado, me revolto ou adoeço.

Toda experiência iniciática envolve algum risco. Ela é inverso da superproteção. Experiências como o "dropping" definitivamente não fazem parte do repertório da nossa cultura urbana e latina, mas há experiências mais simples e igualmente eficazes que podem cumprir muito bem, e de forma relativamente segura, esse papel: colônias de férias, retiros em grupo, trabalhos voluntários, viagens, intercâmbios e todas as experiências que, de modo adequado à idade, promovam rupturas graduais com o cordão umbilical psíquico.

Os rituais de iniciação, ainda que adaptados a nossa cultura atual, são fundamentais para oferecer a experiência heróica de travessia por uma floresta simbólica, onde será necessário colaborar com os parceiros, imaginar formas de sobrevivência, fortalecer as estruturas da personalidade, criar novos laços de amizade e solidariedade, atravessar a escuridão das incertezas e finalmente poder voltar para casa. Como sabemos, aquele que retorna nunca é o mesmo, pois a viveu a experiência arquetípica da renovação.

Flávio Cordeiro é psicólogo e psicoterapeuta.

Escreve nesse espaço toda quinta-feira.