Jornal do Brasil

Olhar para dentro

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Flávio Cordeiro

SER e Adolescer: as três dimensões da adolescência

Jornal do Brasil FLÁVIO CORDEIRO *, flavio@flaviocordeiro.com.br

Me recordo da primeira vez em que atendi um adolescente. Na época, uma querida professora me perguntou sorrindo: “E aí, você está em dia com a sua adolescência?” A pergunta fazia sentido, pois há uma tendência entre os adultos a romantizar a adolescência como um período feliz, livre das grandes responsabilidades da vida, talvez com algumas turbulências, que não retirariam o brilho dessa época dourada. Será?

Foi um lembrete importante: era preciso que eu me reaproximasse de minha adolescência, fizesse contato com os momentos de vulnerabilidade e raiva, com os primeiros voos desastrados no amor e na sexualidade, com o fascínio exercido pelo álcool, cigarro e drogas, com embaraço das imperfeições reais e imaginárias do meu corpo, com a vergonha de errar, com as tentativas heróicas para ser admirado, e sobretudo, com a dificuldade de expressar minhas angústias e confiar que seria compreendido. Nenhum grande desastre, mas várias microtragédias que ficaram convenientemente esquecidas: as partes boas foram mais fáceis de evocar, o que só confirma a tese de que é preciso um certo cuidado com essa tendência à idealização ao atender pacientes adolescentes.

Se idealizamos nossa adolescência, tendemos a idealizar a adolescência de nossos filhos e a não estarmos afetivamente disponíveis para suas agruras, além de nos tornamos mais suscetíveis a repetir, diante de um problema, a velha frase: "É só uma fase, vai passar!”. As estatísticas crescentes de adoecimento psíquico, automutilação e tentativas de suicídio entre adolescentes são alertas que nos convocam a repensar a adolescência como um fenômeno mais complexo do que uma mera “fase”. Há três componentes que nos ajudam a repensar adolescência: o tempo histórico, o cérebro e a cultura.

Temporalmente há algo novo: a adolescência começa cada vez mais cedo e termina cada vez mais tarde. Seu início tende a coincidir com os marcadores biológicos da puberdade que hoje ocorrem cada vez mais cedo, em alguns casos por volta dos 11 ou 12 anos. Mas quando termina a adolescência? Uma resposta possível seria: quando o indivíduo atinge um grau razoável de autonomia financeira e psicológica. O que é inegável é que tempo da adolescência mudou. O tempo da infância foi encolhido, e a entrada no mundo adulto se estende cada vez mais. Como falar em “fase” passageira, para tratar de um período que pode durar cerca de 15 anos?

A segunda dimensão é o cérebro. Os neurocientistas descobriram que entre os adolescentes, a plasticidade neuronal, ou seja, a capacidade do cérebro se transformar no contato com estímulos do ambiente é muito alta, especialmente entre os 15 e 25 anos. O cérebro do adolescente tende a ser muito sensível aos estímulos (e desestímulos) que ocorrem em seu ambiente. E quais são os ambientes mais estruturantes na vida de um adolescente? A família e a escola. Ambientes que combinam afetividade, consistência e suporte emocional, auxiliam os adolescentes na capacidade de autorregularem suas emoções, num período em que as estruturas neurais estão em pleno processo de desenvolvimento. O afeto sem limites desestrutura, o afeto com limites estabiliza, o limite sem afeto apequena, o limite com afeto estimula.

A cultura é a terceira dimensão para repensar a adolescência. Nossa cultura prepara pessoas cada vez mais cedo para entrarem em ação, mas posterga cada vez mais a sua estreia em cena. Uma cultura que supervaloriza o TER, acaba por não compreender adequadamente o maior desejo do adolescente: SER. Ser reconhecido, ser estimulado, ser amado, ser adulto e paradoxalmente ser contido em seus excessos, ainda que no primeiro impulso se revolte, ser acolhido quando o mundo parece desabar, mas ser responsabilizado, com fundamentação, por suas atitudes. Ele quer SER e adolescer, quer fazer parte da cultura e vai explorar todas as brechas para isso.

Resumindo: se estivermos em dia com a nossa própria adolescência temos mais chances de criar expectativas realistas em relação a nossos filhos e a cultivar um olhar confirmatório sobre eles. Na adolescência, há um radar atento a qualquer sinal de inadequação que possa pôr em risco a frágil estrutura de personalidade em formação. O adolescente é um crítico implacável de si mesmo e a mudança de olhar sobre um filho é uma das mais importantes formas de auxiliá-lo a mudar e a suavizar a severidade de seu próprio olhar. Um olhar confirmador transforma, a palavra consistente e afetiva assegura.

Afetividade, consistência e suporte. Certamente como adultos iremos falhar nesse equilíbrio, afinal não somos perfeitos. O importante é ter em mente que o adolescente conta que, a essa altura, nós já teremos desenvolvido algo que ele só irá alcançar muito mais tarde na vida: a resiliência para suportar seu tumulto interior e a firmeza para não desistir dele e auxiliá-lo a ser e adolescer.

* Psicólogo e Psicoterapeuta