Crise hídrica, o horário de ponta e a gestão energética

Estamos hoje salvos pela frustração da demanda que se estima na casa de 7.000MW médios. A principal matriz energética do Brasil é a hidráulica e as demais, ainda em crescimento, não têm a participação que deveriam ter

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Estamos no momento de repensar não só a nossa matriz energética e a capacidade instalada, mas também a forma que consumimos esta energia. Não vamos criar condições inteligentes nas cidades, fomentando a capacidade de geração de emprego e renda, sem que tenhamos energia, sem que esta energia esteja alinhada às práticas ESG (sigla em inglês para environment, social and governance).

Há ainda um outro ponto extremamente sensível, o horário de ponta, aquele com maior consumo simultâneo de energia. No Brasil convencionou-se que o horário de ponta está entre 18h e 21h, exclusos sábados, domingos e feriados. Aqui um fato de grande relevância, constatado em 30 de janeiro de 2019, atingimos o pico de 92.150GW às 15:50h (ONS). Como assim, o horário de ponta não é entre 18h e 21h? Sim, este é o convencionado. A indústria e o comércio estavam neste horário a plena carga e as concessionárias os incentivando a consumir (custo do Kw/h menor por convencionar-se que não é gargalo).

Como alternativas, podemos considerar a flexibilização do horário de ponta, aumento da capacidade instalada, análise de geração na ponta para que o sistema não caia provocando os temidos apagões e eficientização dos sistemas.

Por que não agirmos em todas estas frentes? Temos pouco tempo e qualquer ação de infraestrutura é cara e demanda tempo, tempo que não temos. Precisamos nos preparar como país para que o ambiente de negócios seja favorável aos investimentos e sem energia nada funciona.

Fazendo uma análise rápida, os sistemas de ar-condicionado são vilões deste consumo, principalmente em nosso país tropical.

Vamos entender um pouco mais como é o sistema de ar-condicionado e o que o faz ser este vilão, a partir daí, vamos ver como podemos torná-lo mais eficiente ou mesmo mais adequado ao momento que vivemos.

Olhando novamente para os distritos de energia, por eles passa a eficientização, pois escala induz a eficiência. Considerando um conjunto de políticas públicas que incluem incentivo fiscal para instalação destas plantas, poderemos fomentá-las, principalmente no Sudeste, maior consumidor de energia no Brasil. Precisamos olhar mais a fundo para o que vai causar a transformação da realidade atual, este é o Brasil que precisamos.

Os distritos de energia, somente a título de exercício, podem gerar energia elétrica no horário de ponta (mesmo ele acontecendo fora do horário convencionado), os geradores podem entrar quando requisitados à distância pelo Operador Nacional do Sistema, permitindo assim que os prédios ou indústria não consumam nestes horários. Estes geradores devem ser a gás, gás este que pode ter como base o gás natural, mas também podem ser alimentados pelo Biogás produzido, dentre outras fontes, pela parte orgânica do RSU.

Modelo de distrito de energia e refrigeração – Ricardo Salles

Estes distritos de energia podem acoplar os distritos de refrigeração, onde sistemas eficientes são construídos com equipamentos de ponta, gerando frio e calor, daí a Cogeração. O calor pode ser usado, por exemplo, em lavanderias, hospitais e hotéis, onde há necessidade de água quente para caldeiras. Estes sistemas podem ser construídos sob praças públicas, ficando assim invisíveis no dia a dia, as tubulações de água gelada e quente, assim como os cabeamentos vão até os prédios, como no vídeo anterior.

Sabemos que os sistemas de ar-condicionado no Brasil nas últimas décadas foram construídos em parte sem considerar nossa legislação e portanto precisaram sofrer retrofit para gerar segurança sanitária, para tal, vão passar a consumir mais energia (somando filtragem e renovação de ar), o que acarretará em mais uma motivação para buscarmos um sistema cada vez mais eficiente e adequado a este momento.

Os sistemas de ar-condicionado podem ser alimentados não só com energia elétrica, mas com gás natural ou biogás. Equipamentos que já operam no Brasil há mais de 40 anos podem aliviar nossas necessidades de expansão da capacidade instalada e por outro lado abrirem caminhos para uso do gás natural (hoje quase metade é rejeitado nos poços, dentre outros motivos, pela falta de consumo). A produção do gás natural será fortemente incrementada na exploração do pré-sal, neste caso teremos muito mais gás por litro de petróleo extraído do que temos hoje.

O sistema de ar-condicionado pode aliviar o sistema elétrico, mas principalmente diminuir o impacto que ele causa no horário de ponta, principalmente nos picos do verão.

Somos um país com uma baixa pegada de carbono, temos a energia mais limpa do mundo, mas temos muito a avançar na eficientização de sistemas. Precisamos começar a pensar em estratégias de governo com criação de incentivos.

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