A que serve a fake news de Lauro Jardim de que Vorcaro bancou filmes de Lula e Temer
Coluna de 'O Globo' foi rapidamente usada por grupos bolsonaristas para tentar diluir o impacto das revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e o empresário do Banco Master
A divulgação dos áudios revelados pelo The Intercept, que colocam Flávio Bolsonaro no centro de uma negociação envolvendo Daniel Vorcaro, do Banco Master, produziu um estrago imediato no núcleo bolsonarista. A história é grave: segundo as revelações, o senador teria pedido 24 milhões de dólares para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro produzido nos Estados Unidos. O problema é que, segundo a própria produtora citada, esse dinheiro nunca chegou.
Foi exatamente nesse momento que entrou em cena a coluna de Lauro Jardim, em O Globo.
A publicação insinuava que Vorcaro também teria financiado produções ligadas a Lula e Michel Temer. A manchete era afirmativa. Não falava em hipótese, suspeita ou possibilidade. Dizia que Vorcaro “também financiou” filmes sobre os dois ex-presidentes. Bastou isso para a máquina bolsonarista entrar em operação.
Em poucos minutos, a matéria circulava em massa nos grupos bolsonaristas monitorados pela Fórum. O objetivo era evidente: criar equivalência moral. Se Vorcaro teria financiado conteúdos ligados a Lula e Temer, então qual seria o problema no caso envolvendo Flávio Bolsonaro? A narrativa estava pronta antes mesmo de qualquer checagem consistente.
O detalhe é que a própria matéria começou a desmoronar ao longo do dia.
Depois da repercussão, Lauro Jardim acrescentou informações mostrando que pessoas ligadas às produções negavam qualquer financiamento de Vorcaro. Elsinho Mouco, ex-assessor de Temer, negou que houvesse dinheiro do banqueiro no documentário. Mais tarde, a Secom informou que não houve qualquer pedido do governo Lula para financiar o documentário dirigido por Oliver Stone.
Ou seja: a manchete continuava afirmando algo que o próprio texto já não conseguia sustentar.
Ou seja, não se trata apenas de um erro jornalístico. Trata-se do papel político que uma informação sem checagem desempenha no atual ambiente digital. Uma manchete publicada por um grande veículo ganha instantaneamente status de verdade e passa a abastecer redes de desinformação organizadas.
E aí surge a pergunta inevitável: para quem serve esse tipo de publicação?
Ao tentar espalhar a ideia de que “todo mundo faz igual”, o efeito prático é aliviar o desgaste de um escândalo que atinge diretamente o bolsonarismo. A estratégia não é nova. Funciona na lógica do “e o outro lado?”, usada há anos para neutralizar denúncias e produzir confusão informacional.
O problema é que esse tipo de operação tende a se intensificar conforme o calendário eleitoral se aproxima. A eleição de 2026 já começou nas redes — e ela deve ser marcada justamente por esse terreno nebuloso entre jornalismo, disputa política e desinformação.
Quando uma manchete sem comprovação vira munição instantânea para campanhas digitais, o debate deixa de ser apenas sobre erro editorial. Passa a ser sobre responsabilidade política da imprensa em um ambiente contaminado por fake news profissionais.
Não dá mais para tratar como “descuido” aquilo que produz efeito político imediato e previsível.
Como diria um velho jornalista político de direita, isso é uma vergonha!
Renato Rovai é jornalista. Editor-chefe da Revista Fórum