IMPRENSA
E lá se vai a ternura: Mestre Zuenir Ventura morre no Rio aos 95 anos
Por JORNAL DO BRASIL
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Publicado em 22/09/2026 às 10:24
Alterado em 22/09/2026 às 11:53
Encontro de mestres. Zuenir Ventura com Ziraldo. 2005 Foto: Acervo/JB ([email protected])
O escritor, jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras, Zuenir Ventura, morreu nesta terça-feira, 22, aos 95 anos. A morte foi confirmada pela família. Ele deixa a esposa, Mary Ventura, e os filhos Elisa e Mauro.
Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais, Zuenir mudou-se ainda criança para Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Sem abandonar os estudos, ajudava o pai, que era pintor, e chegou a trabalhar como office boy antes de seguir os caminhos do jornalismo e da literatura.
Trajetória no jornalismo
Ao longo da carreira, construiu uma relação estreita com a história da imprensa no País. Formado em Letras Neolatinas pela Universidade do Brasil, hoje UFRJ, começou como assistente de Carlos Lacerda no jornal Tribuna de Imprensa, e chegou a atuar como correspondente em Paris.
Depois, passou por redações importantes, como a do JORNAL DO BRASIL, onde ocupou diversos cargos expressivos, O Globo e Veja. Seu trabalho se destacou pelo olhar atento às mudanças sociais e pela forma de unir apuração jornalística e narrativa literária, estilo associado ao New Journalism.
Em 1989, publicou no JORNAL DO BRASIL a série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, que lhe valeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog. Em 1994, lançou "Cidade partida", um livro-reportagem sobre a violência no Rio de Janeiro, traduzido na Itália, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti de Reportagem. Em fins de 1998, publicou "O Rio de J. Carlos e Inveja – Mal Secreto", que foi lançado depois em Portugal e na Itália. Já vendeu cerca de 150 mil exemplares. Em 2003, lançou "Chico Mendes – Crime e Castigo". Seus livros seguintes foram "Crônicas de um fim de século" e "70/80 Cultura em trânsito – da repressão à abertura", com Heloísa Buarque e Elio Gaspari. No cinema, codirigiu o documentário "Um dia qualquer", e foi roteirista de outro, "Paulinho da Viola: meu tempo é hoje", de Izabel Jaguaribe. Suas obras mais recentes são "Minhas histórias dos outros", "1968 – o que fizemos de nós" e "Conversa sobre o tempo", com Luis Fernando Verissimo. Seu livro mais recente é o romance "Sagrada Família".
Em 2008, Zuenir Ventura recebeu da ONU um troféu especial por ter sido um dos cinco jornalistas que “mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no país nos últimos 30 anos”. Em 2010, foi eleito “O jornalista do ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.
Ao comentar sua série de reportagens sobre Chico Mendes e a Amazônia, o "The New York Review of Books" classificou o autor como “um dos maiores jornalistas do Brasil”. A revista inglesa "The Economist" definiu-o como “um dos jornalistas que melhor observam o Brasil”.
Outras opiniões sobre o jornalista:
“Ele nunca foi visto do lado errado. Foi sempre um tremendo batalhador. E só se torna amigo de um político depois que ele deixa o poder” (Elio Gaspari);
“Ele tem uma tendência inata a renovar, a reformular o que não está bom” (Amílcar de Castro);
“Um dos renovadores da linguagem e da feição gráfica do jornalismo brasileiro” (Luis Carlos Barreto).
Sobre o livro "1968, o ano que não terminou":
“É um clássico” (Antonio Houaiss);
“É muito bom o livro de Zuenir Ventura. O texto é cuidadíssimo, quem escreve sabe que aquilo que lá está foi reescrito ‘n’ vezes. É a melhor coisa que Zuenir já escreveu” (Paulo Francis);
Sobre o livro Inveja – Mal Secreto: “Zuenir criou uma obra original, emocionante e invejável” (Maurício Stycer);
“Nesse corajoso livro de Ventura, o eu também dá lugar aos outros (...) Resultou numa obra surpreendente” (Marcelo Pen);
“...O jornalista Zuenir Ventura prova que domina a arte de prender o leitor, da primeira à última linha, o que já se sabia desde seus trabalhos anteriores” (Luiz Zanin Oricchio).
Obras que marcaram época
Entre seus livros mais conhecidos está "1968: O Ano que Não Terminou", obra que se tornou um clássico ao revisitar o período da ditadura sob a ótica da cultura e da política. Segundo a ABL, o livro chegou a 48 edições e vendeu mais de 400 mil exemplares.
A obra também inspirou a minissérie "Os Anos Rebeldes", da TV Globo, e o capítulo "Um herói solitário" deu origem ao filme "O homem que disse não", dirigido por Olivier Horn para a televisão.
Premiações e reconhecimento
Na mesma linha de jornalismo literário, Zuenir se destacou com "Cidade Partida", vencedor do Prêmio Jabuti, e com "Chico Mendes: Crime e Castigo", resultado de uma série de reportagens premiadas sobre o assassinato do líder seringueiro.
Em 1989, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog pela série "O Acre de Chico Mendes".
Zuenir foi eleito para a cadeira 32 da ABL em 30 de outubro de 2014, na sucessão de Ariano Suassuna, consolidando uma trajetória central para a cultura e o jornalismo brasileiros.
Livros:
1968: o Ano Que não Terminou — Editora Nova Fronteira (1989; 2006)/Editora Planeta (2008)
Cidade Partida — Companhia das Letras (1994)
Inveja: Mal Secreto — Editora Objetiva (1998) — Edição portuguesa com prefácio de Miguel Sousa Tavares
Chico Mendes: Crime e Castigo: Quinze anos depois, o autor volta ao Acre para concluir a mais premiada reportagem sobre o herói dos povos da floresta — Companhia das Letras (2003)
1968: O Que Fizemos de Nós — Editora Planeta (2009)
Sagrada Família — Alfaguara (2012) (reportagem ampliada com informações da ABL e da Agência Estado)
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