O Deserto do Saara é o maior deserto quente do mundo, com cerca de 9,2 milhões de km², e recebe uma quantidade imensa de radiação solar. Segundo especialistas, o deserto inteiro recebe mais energia em seis horas do que a humanidade consome em um ano. Essa característica faz com que a ideia de cobrir o Saara com placas solares soe “boa”.
Há diversos projetos que já propuseram a ideia, como o “Desertec“, que visava transformar grandes porções do deserto em usinas solares gigantes, com o objetivo de fornecer energia limpa para a Europa, o Norte da África e o Oriente Médio. No entanto, a ciência diz que isso pode acarretar graves consequências que não compensam a energia que isso proporcionaria.
De acordo com especialistas, por maior que seja o potencial técnico, cobrir o Saara com placas solares não é uma solução viável devido a uma combinação de impactos climáticos, desafios logísticos, custos astronômicos e riscos ecológicos globais.
Problemas climáticos são a principal preocupação
Especialistas começam explicando que a instalação em larga escala de painéis solares no Saara alteraria drasticamente o “albedo” da região, a medida da refletividade de uma superfície, ou seja, a capacidade de refletir a radiação solar incidente de volta para o espaço. No caso, a areia clara do deserto reflete grande parte da radiação solar, mas os painéis solares são escuros e absorvem muito mais calor.
Com essas mudanças, o albedo do deserto basicamente seria “invertido”. Estudos publicados na revista científica Nature indicam que as temperaturas do Saara iriam aumentar drásticamente. Segundo os estudos, a temperatura local aumentaria em 1,5 °C com 20% de cobertura e em 2,5 °C com 50% de cobertura, podendo aumentar ainda mais com coberturas maiores.
Além disso, essas mudanças elevariam a temperatura média global do planeta Terra em até 0,39 °C, contribuindo para o aquecimento global.
A logística e infraestrutura também seriam problema
Além dos problemas climáticos, especialistas alertam que os desafios práticos são imensos. A estimativa é de que seriam necessários cerca de 51 bilhões de painéis solares para suprir a demanda global. Devido a isso, considerando apenas o custo do painel, do transporte e da instalação, o projeto custaria cerca de 514 trilhões de euros; isso é mais de 20 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.
Fora os gastos com as placas, a manutenção seria extremamente difícil devido ao acúmulo de poeira, ventos abrasivos e temperaturas extremas (até 80 °C), que reduzem a eficiência dos painéis.
Especialistas também afirmam que haveria dificuldades até mesmo para aproveitar a energia gerada. Para usar a energia fora do deserto, seriam necessárias baterias em escala gigantesca e linhas de transmissão ultralongas, com perdas de até 10% da energia. Além disso, a tecnologia atual não permite transporte eficiente de energia elétrica por milhares de quilômetros.
Ainda mais consequências ambientais
Apesar de ser visto como um “deserto inútil” por alguns, o Saara desempenha um papel vital no equilíbrio ecológico global. Para se ter uma ideia, a poeira do Saara fertiliza a Amazônia, trazendo fósforo essencial à vegetação. Além da Amazônia, o oceano Atlântico também depende dessa poeira para a proliferação do fitoplâncton, que produz grande parte do oxigênio do planeta e é base da cadeia alimentar de diversos ecossistemas marinhos.
Alterar o clima do Saara poderia reduzir essas poeiras, ameaçando florestas tropicais e oceanos.
Alternativas
Embora simplesmente cobrir o deserto com placas solares seja inviável, especialistas reforçam que não precisamos cobrir desertos inteiros para aproveitar a energia solar. Especialistas explicam que há alternativas como:
- Usinas solares concentradas, como a usina Noor em Marrocos, usam espelhos para gerar calor e eletricidade, com menor impacto ambiental.
- Projetos descentralizados, como painéis em telhados, em áreas industriais ou em terrenos não produtivos, podem gerar energia elétrica perto do consumo.
A flexibilidade da energia solar permite soluções em múltiplas escalas, sem comprometer o equilíbrio climático do planeta.





