O diabo não é tão feio...

No artigo da semana que passou, escrevi, triste e irritado, pela classificação, fruto de uma pesquisa, a nível internacional, realizada por uma empresa estrangeira, que colocava o trânsito do Rio como o terceiro pior do mundo. A minha irritação era maior não apenas pelo desrespeito ao esforço dos diversos administradores  que honraram seu cargo mas, principalmente, porque na tentativa de falar com algum dos atuais responsáveis, não haver conseguido. Estavam todos em reunião!

Maldita ferramenta administrativa, que raramente usei, capaz de parar vários setores operacionais para, geralmente, não chegar a lugar nenhum.

Finalmente, nesta terça, véspera de feriado, consegui contacto com a assessoria de imprensa da CET-RIO e, pude, ao reclamar alguma ação face ao vexatório resultado, colocando-nos no Z4, soube do verdadeiro motivo desta classificação tão baixa, inclusive atrás do desesperador trânsito de São Paulo.

Fiquei sabendo que, por trás desta humilhante classificação, existia o interesse de uma empresa multinacional em vender GPS para a frota de carros circulantes. Menos mal, afinal, o diabo não era tão feio como o pintaram. Não podemos, muito menos eu, ficar satisfeitos com esta explicação para o resultado fraudulento, porque sabemos, no nosso dia a dia circulando (?) no trânsito do Rio, que a coisa está muito ruim. Nunca pior do que São Paulo. Basta ir até lá, e entristeço-me ao ver o que conseguiram fazer de um trabalho, iniciado em 1974, do qual tive a honra de participar e continuado, com a criação da primeira CET do Brasil, pelo saudoso engenheiro Roberto Salvador Scaringella, meu amigo e irmão de ideais.

Se, enquadrando-nos no critério da pesquisa recém divulgada, São Paulo está em sétimo lugar, como o pior do mundo, nós podemos nos considerar em pelo menos décimo lugar, o que é um triste consolo.

Tudo fruto de não enxergarem o problema real, de ignorarem que o motorista é um primata condicionado pelo princípio do PIEV, P de percepção, I de inteligência, E de emoção e V volição. Que as suas inteligência, emoção e volição, repelirão, em uníssono, a troca do conforto de seu carro, pelas péssimas condições da oferta de transporte público, que não é apenas a solução para mobilidade urbana. Basta medi-la nas áreas onde colocaram os BRTs e verificar que o rendimento da malha vária, na sua zona de influência, não chega pelo  menos a 25%.

Por não enxergarem que o carro particular é, e será , por muitos anos, o modal preferencial do carioca para o seu transporte e que a solução é adaptá-lo ao racionamento do espaço urbano, coibindo a ocupação individual pelo seu dono, pela compartilhada, entre donos de carro. Estaremos conseguindo dividir até por quatro o atual número de carros circulantes nas horas de pico, graças aos instrumentos de controle e aos incentivos em prêmios, do sistema URV. E, note-se tudo se fará a custo zero para as prefeituras, controlado eletronicamente, por leituras de chip e gerando uma arrecadação capaz de subsidiar o transporte público.

Acostumei-me, por viver numa comunidade de “Meia Ciência” a não apenas argumentar, preferindo apresentar fatos capazes de convencer até aos menos versados na matéria. Assim sendo lhes deixo uma pergunta de difícil resposta:

Se o transporte público apenas resolve o problema da mobilidade humana, por que Londres, que possui o melhor sistema de transporte público do mundo, que cresceu acompanhando a sua rede de underground, em 2005, resolveu, face ao baixo rendimento de sua mobilidade urbana, criar ao “congestion charging”, para restringir o acesso dos carros particulares ao seu centro comercial?

Que, com esta medida, duramente criticada no inicio da sua adoção, deram ao seu prefeito Ian Livingstone, que a criou, no ano seguinte, 2006, na edição de fim de ano da revista TIME edição européia, o título de um dos cinco melhores prefeitos da Europa.

Pois bem. Copiei de Londres a criação da “taxa de congestionamento”, adaptando o projeto às nossas deficiências de transporte urbano e, por que será que nenhum prefeito o aceita?

Embora eu tenha repugnância à política, hoje com mais de quinze partidos, aprendi com os políticos do velho PSD mineiro, com quem tive o privilégio de trabalhar, e conviver, no final dos anos 60 e,inicio dos nos 70, que o trânsito urbano é o maior cabo eleitoral, por estar na vida do eleitor mais favorecido, pelo menos quatro horas por dia e, dos menos favorecidos, que decidem a eleição, quase oito horas, lembrando-lhes em quem votar, na esperança de aliviar o seu sofrimento diário..