O Grande Vilão

Este é o título do capítulo 12 de meu livro, escrito em 2008, com o título: ”Trânsito como eu o entendo”, e o sub título : “A ciência da mobilidade urbana”, onde eu comento a atuação dos ônibus na conjuntura da trânsito e da mobilidade urbana. Escolhi este título baseado nas dificuldades que tive, quando na direção do Detran, nas duas vezes que por lá passei. Graças à ética que sempre houve entre nós, autoridade e empresários concessionários, convivemos bem. Não poderia ter sido de outra forma, contornando as inúmeras dificuldades existentes nesta área, servindo a um governo presidido por dois homens de ilibada reputação e honestidade, embaixador Francisco Negrão de Lima e almirante Floriano Faria Lima. Mas, perante a opinião pública eles, os ônibus nunca foram queridos.

O primeiro governo do Estado da Guanabara, do jornalista Carlos Lacerda, criou a CTC - empresa de ônibus pertencente  ao Estado - para que fosse um paradigma para as demais da iniciativa privada. Foi mantida e continuada no governo Negrão que o sucedeu. De fato era exemplar, com seus motoristas uniformizados, com gravata e camisa branca, permitindo que a tarifa fosse calculada de maneira transparente. Utilizava, lembram-se, os ônibus elétricos, como grande parte da sua frota. Acabou, infelizmente, não me lembrando quem cometeu este desserviço à população.

Com o tempo, a gestão e o controle foram se deteriorando e culminou com o movimento popular iniciado, agora, em julho , de revolta pelos 20 centavos de aumento, por um serviço que muito deixa a desejar.

A mídia, unanimente e em todas os seus meios de divulgação, iniciou uma campanha, sem precedentes, atingindo até pessoas, empresários e seus familiares, principalmente o mais capaz e por isso o mais poderoso: Jacob Barata. Não sei o que está por trás desta campanha. e onde deseja chegar.

O poder dos empresários de ônibus é muito grande, na medida em que, autorizados na lei, apóiam financeiramente os candidatos a cargos eletivos, desde o vereador até o governador.

Sendo empresários, não havendo nenhum mecenas entre eles, tendo o governo lhes delegado, por concorrência e contrato assinado a concessão, eles estão, como se diz vulgarmente, “na deles”.

A deficiência de gestão, agora assunto de crítica, para justificar a má qualidade de serviço vem de longe, não é de agora. O Rio talvez tenha sido a única cidade do mundo que inaugurou um serviço de transporte subterrâneo sobre trilhos, e nada ocorreu no traçado das linhas dos ônibus. O prefeito Luiz Paulo Conde, por ser urbanista, portanto, do ramo, contratou um estudo de remanejamento das linhas de ônibus, pela COOPE. Nada foi implantado do sugerido. Eliminava 150 linhas, por desnecessárias para o sistema.

Motivados pela deficiência do serviço de ônibus, surgiram as vans, herdeiras dos lotações, de triste memória. Enfim o caos está instalado no transporte público, desafiando os esforços das autoridades para enfrentar, como um David contra Golias, manietados pelo impedimento de aumentar as tarifas, previstas em contrato. Se o governo não cumpre a parte dele, como exigir que os empresários cumpram a deles?

O mais interessante é que todo o poderio econômico dos empresários, conseguido à custa de muito trabalho e organização entre eles, tem como maior e, talvez único capital, a concessão que lhes foi dada pelo governo, mediante concorrência pública.

Já que citei a Bíblia, quando me referi ao duelo entre David e Golias, a Fetranspor que congrega todas  empresas de ônibus, como Sansão, que tinha a sua força nos cabelos, o órgão máximo do transporte por ônibus, tem a sua força, na concessão. Se lhes for tirada com a mudança do modelo de gestão deste meio de transporte, acaba a força. A sorte deles, empresários, é que não vejo nenhuma Dalila capaz de realizar esta façanha e, como segurança e para lhes tranqüilizar, o mal não é só nosso, a coisa é antiga, histórica e internacional. No livro clássico “Compêndio de Arquitetura Urbana”, publicado pelo Instituto dos Arquitetos dos Estados Unidos, no final da década de 60, escrito por P.D. Epreregen , diz lá, ao comentar em seu capítulo Circulação: Certamente o automóvel é a causa mais manifesta  do congestionamento dos centros urbanos e da dispersão periférica das cidades, mas, em igual grau de responsabilidade, é a nossa atitude em relação ao uso da terra, conjuntamente com a escabrosa história do transporte público.

Como se pode ver, não somos exceção ao contexto.