Estático versus dinâmico 

Li, com tristeza, a notícia das alterações que pretendem fazer na via de acesso à Barra, no elevado que a liga a São Conrado. Planejam acrescentar uma faixa de rolamento, sentido Barra, e, enfaticamente, declaram que a capacidade deste trecho  será aumentada em 50%. Solução tipicamente rodoviária para o trânsito urbano. Aquele cria espaços, este último procura criar espaços também controlando a velocidade ou racionalizando o uso da via. Mais uma vez, desprezando o princípio básico da engenharia de tráfego, que consiste em se explorar ao máximo a capacidade das vias existentes. Tomam uma medida estática para resolver um problema eminentemente dinâmico e, como tal, tendendo a aumentar as suas necessidades, em curto prazo, graças ao aquecimento permanente do mercado de automóveis. Comprovam o que aqui digo sobre os congestionamentos nas vias Amarela e Vermelha, praticamente recém-construídas.

O trânsito do Rio, como das demais cidades com problemas de transporte de massa e por isso com dificuldades de mobilidade urbana, não admite mais soluções parciais ou pontuais, como queiram chamar e, sim, uma radical mudança nos hábitos de seus habitantes em se  locomoverem em seus carros de passeio.

É um grave erro aumentar o espaço sem se controlar a velocidade de escoamento — isto, a engenharia de tráfego consegue sem multiplicar espaços. Afinal de contas, as nossas vias se comportam como funis e, se não se controla a velocidade de escoamento num funil, ele irá transbordar, embora ainda exista espaço no recipiente  de destino. Infelizmente, é este o quadro do escoamento em nossa malha viária urbana.

Como exemplo, exatamente na área crítica que antecede o trecho que pretendem ampliar, com o acréscimo de uma faixa de rolamento, é o congestionamento no funil existente na via que atravessa São Conrado, onde o tráfego oriundo do Túnel Zuzu Angel, com a velocidade máxima permitida de 90 km/h, passa a poder trafegar com apenas 10 km/h a menos, para “transbordar no final do funil”, quando quatro faixas passam para duas. Com a obra projetada, passará para três, mas o funil continuará. Ou seja, esta obra projetada, sem o controle de velocidade no trecho crítico, será um verdadeiro “parto da montanha”, ou seja, traduzindo do latim original: “A montanha pariu um rato”.

Em 1968 a Siemens publicou um folheto técnico, e eu o conheceria no ano seguinte, pois estagiaria lá, enfatizando um projeto de controle de velocidade, no funil de chegada aos locais de prática de esporte de inverno, à cidade de Munique. Era uma obra-prima, pois, caso o motorista respeitasse as indicações de velocidade indicadas eletronicamente ao longo do trecho, encontraria o sinal da linha de partida da “onda verde”, no início da malha viária urbana, aberto, e iniciaria o seu “surfar” na referida malha atravessando a rede de semáforos, todos abrindo em sequência, até o centro da cidade. Eu aproveitei deste espetáculo ao trafegar por essa via. Não é ficção científica.

Continuam os nossos especialistas, cursados em sua maioria segundo a escola americana, a optar pela criação de espaços, em vez de seguir as normas da engenharia de tráfego ditadas na escola europeia, onde não se pode agredir o espaço urbano com as obras de arte que se constituem no urbanismo estático, contrariando o dinâmico da engenharia de tráfego.

É completamente diferente a maneira de raciocinar do engenheiro rodoviário daquele que deve ser especialista no trânsito urbano. A meu ver, decano dos especialistas na área, na formação destes mesmos técnicos nesta fascinante nova ciência falta o ensino do embasamento histórico, que lhes dará o embasamento filosófico do problema, eminentemente social e que tem como personagem principal o ser humano, o motorista.

O embasamento filosófico dará origem à arquitetura do projeto, antecedendo a engenharia  de sua execução. A filosofia sempre deve preceder a ciência. Tal procedimento, por certo, iria corrigir enganos que acarretam despesas elevadas que, face aos resultados, mereceriam a sua reprovação pela simples análise  de custo versus benefício. Talvez este fosse um título melhor do que o escolhido de estático versus dinâmico. Pelo menos, me parece mais enfático,  capaz de emocionar a quem deva ter esta reação, no sentido de corrigir, o que me parece um grave engano..

 

*Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]