Vibrações da alma

BELO HORIZONTE - Estou otimista com a seleção brasileira, mas a expectativa positiva, da imprensa e do público, cresceu demais. Só chega notícia boa da Rússia. Não existe nenhuma crítica, dúvida, preocupação. Parece tudo perfeito. Isso me preocupa. 

Ouço, com frequência, que os jogadores estão tranquilos, unidos, confiantes, fechados. Antes da Copa de 2014, diziam a mesma coisa. Isso ocorre sempre com outros grandes times, no que vai ganhar e no que vai perder. 

O Brasil é favorito, mas a Suíça não é galinha-morta. É organizada, marca com oito ou nove próximos à área e tem vários bons jogadores. Shaqiri, pela direita, dribla para o meio, cruza e fi naliza bem. Marcelo terá de ficar atento. 

A Suíça é multinacional. Foi campeã mundial Sub-17, em 2009, quando eliminou o Brasil, que tinha Alisson, Casemiro, Coutinho e Neymar. Alguns jogadores da seleção suíça atuam hoje no time principal.

 O Brasil melhorou com Coutinho pelo centro. Além disso, quando a equipe perde a bola e não dá para recuperá-la mais à frente, Coutinho volta pela esquerda, Willian, pela direita, e formam, com Casemiro e Paulinho, um quarteto de marcação no meio-campo. Com isso, Marcelo fica mais protegido, e Neymar pode atuar mais perto do gol, sem precisar voltar para marcar o lateral. É uma evolução tática. Se Tite conseguir que Coutinho, na maior parte do jogo, especialmente contra os mais fortes adversários, faça essa dupla função, de marcar e avançar, o Brasil ficará mais perto do título. 

Fábio Takahashi e Daniel Mariani, integrantes do Núcleo de Inteligência da Folha, mostraram, com estatísticas das eliminatórias, que Marcelo é o jogador brasileiro que mais avança com a bola em direção ao gol, mas é também o que leva mais dribles e o que mais perde a bola na defesa. Isso deve ocorrer, porque ele sempre tenta sair com a bola, trocando passes ou driblando. Marcelo, depois de Neymar, é o jogador mais importante do Brasil e o que mais precisa ser protegido. 

Os jogadores, além do talento, precisam entender suas virtudes, limitações, desejos e potencialidades e transportar os conhecimentos para o jogo. Podemos ser o que sonhamos. Não é clichê nem utopia. Para isso é necessária a ajuda de um treinador, como Tite, capaz de enxergar a técnica e as vibrações da alma dos atletas. “A vida é sonho” (Pedro Calderón de la Barca). Às vezes, pesadelo.