Madama Butterfly – O Drama de Puccini

Crítica da estréia da ópera no dia 30 de novembro às 17h no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Confesso que desde meus treze anos assisto Madama Butterfly,a primeira vez que vi esta ópera foi no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e depois outras apresentações no Metropolitan Opera House em Nova Iorque e o Teatro Alla Scalla de Milão somente para citar dois templos da melhor música do planeta. Fiz esse preâmbulo para refletir que não podemos comparar situações tão distintas,das grandes atuações em teatros com muito poder de patrocínio e realizações deslumbrantes. 

Agora após assistir ontem a récita de estréia da Madama Butterfly no Theatro Municipal do Rio de Janeiro,saí como uma sensação de leveza e também com a certeza de que o Rio de Janeiro é capaz de produzir com alta qualidade,mas no caso de ontem a magia de fazer de um limão uma limonada foi muito verdadeira.

Gostaria de começar falando da maravilha que é ver de tão perto,eu estava sentada na frisa nº2, o respeito que o maestro Isaac Karabtchevsky tem pela música. Cada vez mais o admiro,pude acompanhar seus movimentos,sua concentração diante do texto musical e o extremo cuidado com seus solistas,sempre dando as entradas. O talento do grande maestro é único,sua experiência é profunda e suas realizações são o resultado de sua precisão,o que é digno de toda ovação que mereceu.

O municipal estava lotado, o que mostra e comprova que o público gosta de ópera e precisa ouvir várias vezes por ano.

A natureza do tenor brasileiro Fernando Portari é contagiante.Dono de uma técnica perfeita,uma linda voz muito bem trabalhada,é seguro e sempre dá a certeza de que o palco é o lugar que sabe e gosta de estar e se sente bem,sua experiência de palco é definitivamente invejável,seu F.Pinkerton foi impecável. Uma presença também expressiva foi o barítono Rodolfo Giugliani,uma belíssima atuação. A Suzuki de Denise de Freitas foi muito emocionante,além da linda voz passou a fidelidade extrema do personagem. Atuações também marcantes de Sergio Weintraub dando vida ao Goro,o Bonzo de Daniel Soren e o Yamadori de Ivan Jorgensen. Os diálogos que mais emoção passaram foram o de Butterfly com o tenente, o da fiel Suzuki com Butterfly,mais Butterfly cantando com o filho no colo,tão verdadeiro e tão expressivo além de Butterfly com o Sharpless.

O coro como sempre realiza muito bem seu trabalho,tem experiência de ser um dos conjuntos mais importantes do país. A Orquestra Sinfônica,com vários músicos novos,tocou lindamente está de parabéns e insisto que deveria ter uma série para o conjunto se apresentar tocando páginas da literatura tradicional,não só acompanhado óperas. Os corpos estáveis existem e têm que expressar sua arte e o único lugar é o palco,não tem outro,mais concertos e ,mais óperas.

Comentamos a maravilhosa Butterfly vivida pela soprano japonesa Hiromi Omura, uma linda mulher oriental,dona de uma emocionante voz,sem falar da sua experiência de palco, impecável, talentosa, leve como uma bailarina,muito feminina,simplesmente perfeita para o papel. Seus solos eram emocionantes,sua técnica é maravilhosa a tal ponto que era possível sonhar dentro do drama da obra.Gostaríamos de ver mais sua presença no palco do Municipal uma presença que encantadora e dona de um profissionalismo puro.Fazemos menção ao figurino de Cica Modesto,simples mas muito bem resolvido assim como os adereços.

A iluminação de Carina Stassen foi muito acertada,diversos efeitos agregando beleza ao cenário de Renato Theobaldo,leve, sobretudo a árvore muito bem realizada e  criativa,um dos pontos altos do cenário. Da mesma forma a cortina de pássaros brancos,em forma de origami,um verdadeiro balé,de uma leveza singular,uma solução simples mas de um efeito lindíssimo. Os parabéns a David Weintraub,o filho da Butterfly,sério e admiravelmente bem em cena,adorável quando teve os olhos vendados olhando de um lado para o outro. Dois registros que talvez a maioria das pessoas não pode ver pelas diferentes localizações,mas foi engraçado quando o terço foi jogado quando Butterfly foi amaldiçoada e caiu perto dos músicos da orquestra,uma cena muito diferente assustando alguns músicos. Também a concentração de Karabtchevsky sempre impecável esperando chegar a partitura do segundo ato,depositada depois de um pequeno atraso,por um funcionário em sua estante.

O patrocínio serve para proporcionar mais qualidade,luxo,ostentação,mas não tendo o que se gostaria,é notório que esta montagem da Madama Butterfly é a certeza de que a cidade do Rio de Janeiro tem que recuperar com a maior urgência o seu título de capital cultural do país. A vontade de produzir, de colocar os corpos estáveis do mais importante Theatro Municipal do país,tem que estar sempre presente,e nunca mais adormecida.