O concerto estava
marcado para as 20h30, mas começou somente às 21h15. Não se tratava exatamente
de um atraso, mas sim de uma tentativa de aguardar o final do evento realizado
na Cinelândia, no último sábado.
Depois de 45 minutos de espera subiu ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro a Orquestra de Câmara Franz Liszt, dentro da Série Concertos Internacionais da Dell’Arte. Nenhum carro podia chegar perto do Municipal, o público era imenso na rua, e para se ter uma ideia, precisei saltar na Rua México e andar até o teatro, no meio da multidão, aliás muito tranquila, todos com camisetas vermelhas, tudo parecia muito bem organizado, na maior paz,mas meus ouvidos já estavam preparados para escutar o melhor do barroco. O conjunto húngaro é compacto e muito verdadeiro. É nítida a cumplicidade de seus integrantes, traduzindo o melhor da palavra conjunto, com o Concerto de Brandenburgo nº3 em Sol Maior, de J.S.Bach, a primeira obra do programa executada de pé, excetuando o cravo, claro. Lembrei muito do célebre I Musici, que visitou várias vezes a cidade, sempre um deslumbramento.
É possível ser pacífico, ouvindo o segundo movimento do lindo Brandenburgo, onde o cravo toca solene e só, doce e ingênuo, tendo ao fundo o som dos acordes da Cinelândia, mas com abstração até que foi possível fechar a mente no solista que fazia o seu trabalho, no melhor do seu profissionalismo. Surge Emmanuel Pahud, para ser solista do Concerto para Flauta em Fá Maior de A.Vivaldi, o famoso La Tempesta di Mare, grande artista, sem nenhuma dúvida, com sua flauta de ouro, dono de uma sonoridade lindíssima, assim como sua técnica deslumbrante. Um festejado virtuose, com uma técnica de respiração e fraseado altamente sofisticadas, onde jamais se notava qualquer tipo de ação, tão básica em seu instrumento.
A Suite Abdelazer de H.Purcell foi muito bem realizada, da mesma forma que o Concerto para Flauta nº1 em Dó Maior de Frederico O Grande, tendo mais uma vez o talentoso Pahud, exuberante com sua flauta.
A segunda parte começou com a Balada nº1 para Flauta,Cordas e Piano, de Frank Martin, um outro tipo de texto, onde as mudanças rítmicas são mais acentuadas, talvez muito contrastante para o público, já que é considerada como uma das obras mais importantes e tradicionais, na literatura do instrumento, no século XX, sendo traduzida da melhor maneira pelo conjunto e seu solista. O Divertimento em Fá Maior de W.A.Mozart foi lindamente transmitido com uma leitura verdadeira, isto é, exatamente como estava escrito. Obra final da noite, o Concerto para Flauta e Orquestra n.º2, de Saverio Mercadante, trouxe mais uma vez ao palco Emmanuel Pahud, que ratificou o por quê é considerado como um dos mais importantes flautistas da atualidade, fazendo uma impecável atuação. Todos sabem que a flauta requer um cuidado especial com os lábios, que estão próximos ao bocal, quase debruçados e com as extremidades voltadas para baixo. Encontrando com a imortal Nélida Piñon, uma das mulheres mais femininas que conheço, vencedora do Prêmio Príncipes de Astúrias, da Espanha, entre tantos outros, uma das mais importantes romancistas do planeta, ela me fez pensar em uma situação que eu jamais havia imaginado, e com a sua doçura e sensualidade marcantes me confidenciou, referindo-se ao elegante flautista: “Ele não deve se devotar aos arrebatos amorosos”, no sentido de ter cuidados especiais com seus lábios, o seu verdadeiro instrumento de trabalho. Nélida querida, até agora estou pensando em você, na formosura da sua frase, música pura, tão pura como a formosura da flauta de Emmanuel Pahud. Sem dúvida,foram as emoções de um belo concerto, com as fantásticas palavras da bela Nélida!
O BRAVO da coluna.