Conversando com a cravista Rosana Lanzelotte 

A cravista Rosana Lanzelotte é uma referência em seu instrumento, inclusive fazendo um duo antigo com o violoncelista Antonio Meneses. Idealizadora do projeto Musica Brasilis, é uma figura de destaque.

Rosana, como você escolheu o cravo como instrumento para ser seu companheiro ao longo de uma vida?

Tocava piano e fui fazer um curso de férias em Ouro Preto, onde a cravista Helena Jank dava aulas. Encantei-me com o cravo, pois já gostava muito dos repertórios barrocos – Bach e Scarlatti, principalmente. Como todos os instrumentos barrocos, o cravo deixou de ser tocado durante o século XIX. Para fazê-lo soar expressivo, há que se redescobri-lo, e essa viagem é diferente para cada cravista. Partimos dos mesmos tratados de época, lidos a exaustão em conjunto com os nossos mestres, mas a revelação do instrumento é única para cada um.

O ensino do cravo ainda é muito elitista?

Cada vez menos hoje em dia, pois diversas universidades no Brasil têm cursos de graduação em cravo - no Rio, Campinas, Porto Alegre, Recife. Quando fiz a minha especialização, tive que viajar para a Holanda. Mas o cravo não é um instrumento barato. É feito artesanalmente, por poucos artesãos. Isso o torna um pouco menos acessível. Comprar e manter um cravo requer um investimento que nem todos conseguem fazer.

O Musica Brasilis é um projeto bem diferenciado, divulgando a música brasileira e dando uma leitura bem particular aos concertos que realiza, inclusive com o uso da multimídia. Qual é a proposta do seu projeto?

Concebi o Musica Brasilis há cinco anos, ao perceber a grande dificuldade de acesso a partituras de obras brasileiras. A primeira iniciativa foi o site, que hoje hospeda mais de 500 partituras e é consultado, mensalmente, por 2000 visitantes de todas as partes do mundo. Até agora, a maior realização foi o resgate e disponibilidade da obra integral de Ernesto Nazareth para piano. Fomos os primeiros a colocar todas as 218 peças gratuitamente acessíveis através da web. Temos um grande acervo de obras de José Maurício Nunes Garcia, graças a doação de colaboradores como Antonio Campos. Nesse momento, estamos colocando no ar uma importante coleção de obras de Alberto Nepomuceno editadas pelo pesquisador Luiz Guilherme Goldberg. Todos esses repertórios são oferecidos com partes separadas para os instrumentos, sem o que não é possível tocá-los. Além da disponibilidade via web, é importante fazer circular esses repertórios. Por exemplo, os quartetos de Nepomuceno estão sendo tocados em diversos bairros da cidade pelo Quarteto Rio de Janeiro, graças ao patrocínio da Prefeitura do Rio de Janeiro, através do FAM – Fundo de Apoio à Música. O patrocínio do BNDES permite a circulação em nível nacional desde 2009. Nesta terceira edição do Circuito BNDES Musica Brasilis, quisemos colocar os repertórios em um contexto multimídia. Como o principal foco do Musica Brasilis diz respeito a partituras, queria usar animações para que o público pudesse “visualizar” a música. Havia visto no youtube os vídeos realizados pelo Stephen Malinowski, que “anima” as partituras de uma forma artística muito interessante. Tivemos ainda a colaboração da Superuber, que concebeu imagens de grande impacto para “vestir” os repertórios, além de usar um recurso que permite fazer pulsar os grafismos ao sabor do ritmo do que está sendo tocado. Para quem não viu, vamos fazer um terceiro espetáculo no dia 5 de setembro no Auditório do BNDES, às 19h, com entrada gratuita.

Obrigada, Rosana, pela conversa.