A música como instrumento para a paz

Em todos os rituais sociais, religiosos, culturais ou políticos a música é um instrumento essencial para representar o momento histórico de um povo. A música traduz sempre a filosofia de vida, o costume, e o sentimento daquele povo naquela circunstância. Não existe música boa ou má. Toda música tem sua mensagem e precisa ser entendida como a linguagem emanada daquela cultura. O artigo de um deputado sobre o funk publicado em jornal fluminense com grande repercussão na opinião pública foi um desserviço à cultura e um desrespeito aos adeptos desse ritmo musical.

Foi-se o tempo que as pessoas se utilizavam de seu lugar social para menosprezar as outras culturas, até que a civilização se deu conta da riqueza que existe em cada componente cultural de um povo. Os rabiscos encontrados nas cavernas milenárias representam o legado deixado por povos primitivos para que alcançássemos o atual padrão civilizatório. Assim é inaceitável que um parlamentar afirme que “seria o cúmulo da vergonha considerar um tipo de música tão vulgar e ridícula como forma de manifestação cultural”. Ora o funk nada mais é que a forma de expressão de um povo violentado em seus direitos e um grito de socorro contra os exploradores que os visita em períodos eleitorais para pedir votos.

O Estado brasileiro que garante o livre exercício do pensamento através de suas diversas expressões culturais permite o nascimento dos mais diversos ritmos representativos da cultura regional de cada povo. Assim temos os ritmos quentes do Norte, do Nordeste, do Oeste e do Sul do país e dessa riqueza cultural surgiu o funk como expressão de um povo criativo que concebeu o samba, igualmente perseguido e criminalizado e hoje, um ritmo mundialmente respeitado e cultuado. Nada mais discriminatório e equivocado que vincular um ritmo de música à criminalidade e a vulgaridade, sobretudo quando suas letras cantam o amor, a cidade e as relações entre as pessoas, incluindo a violência de que são vítimas e não agentes.

Importante reconhecer que através desse ritmo musical, muitos jovens encontraram sua razão de viver e investiram na poesia e na profissionalização musical, transformando-se me DJs, MCs e agentes portadores da alegria e transformadores de um destino que está muito além de uma pobre conceituação preconceituosa de um ritmo musical.

* desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de janeiro e membro da Associação Juízes para a Democracia.