Apenas pensando alto

Na semana que terminou, vi na grande mídia duas matérias que me fizeram pensar alto, e como tenho ainda o privilégio de escrever aqui no JB e, o que é melhor, ser lido, posso colocar no papel  o que pensei alto.

Focalizo em primeiro lugar a entrevista, de página inteira, do nosso jovem prefeito, verdadeira catarse de seu justo júbilo e certo deslumbramento, fato natural na sua idade, quanto ao seu trabalho na preparação do Rio, como Cidade Olímpica. Cita com justo orgulho o que pode revitalizar, sem dúvida, a maior divida dos cariocas para com ele.

Cita, e isto me alegra, como referência o Plano Urbanístico de Constantinos Doxialis, realizado no governo Carlos Lacerda na época, inicio da década de 60, o maior urbanista do mundo. Hoje, para honra nossa e, por ser brasileiro, pouco utilizado, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner. Tal fato me alegra porque possuo um exemplar do referido Plano, resgatado por mim entre vários exemplares, jogados num poço de elevador de um prédio público.

Também tive nas mãos o de Alfred Agache, no escritório do meu saudoso amigo engenheiro Enaldo Cravo Peixoto. Ao lhe pedir emprestado, recebi dele a inteligente reposta: “Nem que você assinasse o recibo com o seu sangue como tinta. Afinal, eu o roubei e, se você fizesse o mesmo comigo, estaria perdoado pelo adágio popular: “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.”

Foi até humilde o nosso  prefeito ao citar as suas linhas expressas de BRT, serem calcadas no Plano das Linhas Policromáticas do plano Doxialis. Nem todas, uma vez que a Barra, nos seus estudos, não tem prevista a sua hoje intensa ocupação.

Continuo discordando do prefeito no caso do estabelecimento da mobilidade urbana, no meu entender a que garante o tráfego livre dos veículos de socorro, uma vez que os BRT e VLT não tiram automóveis como transporte individual. É só dobrar a teimosia orgulhosa da sua CET RIO e verificar por pesquisa, o que aqui afirmo .

Faltou, meu caro prefeito, ter me ouvido quando lhe solicitei audiência a implantação do sistema de Utilização Racionada das Vias, o URV, capaz de realmente dar ao Rio mobilidade que possa beneficiar a sua população, criando recursos para o transporte grátis coletivo de superfície.

No mais, estou de acordo com o seu entusiasmo, foi um privilégio gerir o Rio para fazê-lo a Cidade Olímpica.

Quanto à sua reclamação de classificar com o termo inglês “terrible” a segurança da cidade, de pleno acordo com a autoridade de quem já andou por lá, na época em que os secretários eram generais, com uma visão ampla do problema. Aliás, ninguém pode exercer um cargo tão desgastante como o de outrora chamado Chefe de Polícia, por nove anos, impunemente. O desgaste é sobre humano.

Quanto ao emprego do URV, a meu ver maior cabo eleitoral para os candidatos ao seu cargo, com  a minha têmpera de Franco, “cristão novo”, portanto, continuarei a propô-lo  junto aos novos prefeitos de aqui e de São Paulo. Quem viver verá.

O segundo ponto, que também me fez pensar alto, foi a notícia da obrigatoriedade do uso de faróis acesos na Ponte Rio Niterói, com pistas em sentido único de direção. Parece piada. Parece também, que como escreveu Andrew Lang (1814-1912): “Ha pessoas que usam as estatísticas como o bêbado usa o poste de luz: Para seu suporte, não para lhes iluminar”

Em que dados estatísticos se baseou esta decisão pouco inteligente, a não ser com fins de arrecadação. Ao invés de criar tolices, tornem obrigatório nas vias expressas de mão dupla, em especial nos túneis, a tela antiofuscante, de há muito esquecida pelos nossos administradores, esquecidos de que não se administra trânsito sem o suporte estatístico para nos esclarecer e iluminar.